Barreto construção passado pre colonial

Barreto construção passado pre colonial

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REVISTA USP, São Paulo, n.4, p. 32-51, dezembro/fevereiro 1999-200032

CRISTIANA BARRETO Departament of Anthropology University of Pittsburgh E-mail: cbarreto@internetcom.com.br

REVISTA USP, São Paulo, n.4, p. 32-51, dezembro/fevereiro 1999-200033 maior parte do conhecimento arqueológico produzido no Brasil trata do período pré-cabralino. A arqueologia feita no Brasil é essencialmente uma arqueologia de sociedades indígenas extintas que viveram em um passado distante, deixando como testemunho de sua existência somente restos materiais. Há 500 anos que estes restos materiais têm sido encontrados, estudados e interpretados. Há 500 anos que estes restos têm sido a matéria-prima para a construção de um passado pré-colonial brasileiro.

Rever a história da arqueologia no Brasil é acompanhar o confronto do brasileiro ao longo destes anos com um passado pouco conhecido, que traduz as diversas formas de identificação ou rejeição das raízes indígenas por parte da sociedade nacional, e que nem sempre corresponde a ideais de uma (pré)história nacional.

A perspectiva colonial, do europeu branco explorando um passado exótico e distante, predominou até a institucionalização da arqueologia dentro de museus e centros de pesquisa científica, a partir do século XIX. Ironicamente, movimentos que valorizaram a cultura indígena, como os movimentos nativistas, o romantismo, e mesmo o modernismo, pouco influíram no desenvolvimento de uma arqueologia mais científica e menos eurocêntrica.

Ao contrário, o crescimento científico da arqueologia foi promovido inicialmente por naturalistas europeus trazidos pela Corte portuguesa, mais

REVISTA USP, São Paulo, n.4, p. 32-51, dezembro/fevereiro 1999-200034 tarde pelo próprio imperador Pedro I, e finalmente pelos professores estrangeiros trazidos ao Brasil para a construção de centros de pesquisas e universidades. Nesse sentido, a arqueologia brasileira, ao longo de sua história, tem sido muito pouco brasileira.

Ao contrário de alguns países vizinhos onde o resgate do patrimônio arqueológico é movido pela identidade cultural das populações atuais, no Brasil, a arqueologia é marcada pela ruptura irreversível na sua história, que foi o extermínio das populações indígenas e a construção de uma sociedade nacional branca, não indígena. Também, ao contrário de outros países onde a legislação de proteção deste patrimônio é fruto da demanda de grupos regionais ou nacionais que buscam fortalecer suas tradições culturais, no Brasil, esta legislação é promovida por uma pequena elite intelectual sendo promulgada de forma paternalística ou autoritária pelo Estado.

A arqueologia no Brasil é marcada não só pela falta de identificação étnica e cultural com o passado indígena, mas ainda sofre o agravante do caráter pouco monumental e modesto do patrimônio material, em grande parte perecível e de difícil conservação, dificultando ainda mais a valorização e identificação cultural com este patrimônio por parte da sociedade em geral.

Nas últimas décadas a arqueologia brasileira passou por transformações decisivas no seu desenvolvimento dentro e fora da academia. A comunidade científica, antes uma pequena elite acadêmica do Sul e Sudeste do país, com uma produção de pequena penetração e relevância para a sociedade como um todo, hoje se mostra ativa em todo o país através de diversos centros de formação, publicações periódicas especializadas, e uma sociedade politicamente atuante.

Fora da universidade, o papel do arqueólogo e sua responsabilidade perante a sociedade em recuperar e preservar o patrimônio arqueológico vem aumentando rapidamente face à crescente participação da arqueologia nos exigidos estudos de impacto ambiental e resgate do patrimônio nas vastas áreas afetadas pela construção civil e pública.

O futuro da arqueologia no Brasil, ainda que sujeito em grande parte ao Estado (como órgão de controle de como é afetado o patrimônio arqueológico), depende cada vez mais da formação acadêmica especializada de uma nova geração de profissionais, e dos empreendimentos de construção que vêm abrindo um novo mercado para estes profissionais, mas também gerando recortes geográficos e temáticos bastante arbitrários na produção de dados arqueológicos.

A história da arqueologia reflete então não só os vários contextos históricos de pesquisa e produção de conhecimento, mas também a relação entre o papel do arqueólogo na sociedade e o que a sociedade espera, anseia e exige que o arqueólogo produza sobre o passado pesquisado.

Alguns temas recorrentes ao longo da história da arqueologia no Brasil são dignos de nota, como a origem e a antigüidade dos primeiros brasileiros, ou ainda a existência no passado de sociedades mais complexas e “avançadas” do que as conhecidas sociedades indígenas brasileiras. Estas recorrências apontam áreas de maior aproximação entre a pesquisa acadêmica/científica e o interesse popular, exemplificando assim a relação entre a arqueologia e a sociedade.

As poucas “histórias” da arqueologia brasileira já escritas (Mendonça de Souza 1991; Prous 1991; Schmitz 1994) tratam do conhecimento sobre as antigas populações indígenas brasileiras acumulado ao longo do tempo, e, portanto, abrem esta história com as primeiras descrições dos indígenas encontrados à época do descobrimento, como por exemplo as cartas de Pero Vaz de Caminha. Contudo, apesar dos relatos dos cronistas do descobrimento constituírem importantes fontes para a arqueologia e a etno-história, tais crônicas não possuem ainda um olhar arqueológico. Afinal, como nos lembra Prous, na Europa,

REVISTA USP, São Paulo, n.4, p. 32-51, dezembro/fevereiro 1999-200035 a arqueologia nasceu somente no século XVIII (com escavações como as de Pompéia), sendo que culturas consideradas “primitivas” só se tornaram dignas do estudo científico mais tarde (Prous 1991).

Nas crônicas do descobrimento, existem sim muitas alusões à cultura material indígena que ajudam os arqueólogos a atribuir a determinadas culturas coisas hoje conhecidas apenas arqueologicamente. Um bom exemplo são as casas subterrâneas dos guaianases mencionadas por Gabriel Soares de Sousa em 1580 em seu Tratado Descritivo do Brasil (Soares de Sousa 1974). Raramente, alguns cronistas chegam a reconhecer sítios arqueológicos enquanto tal, como os sambaquis descritos pelo jesuíta Fernão Cardim, ou as inscrições rupestres observadas pelos soldados do capitão-mor Feliciano Coelho em 1598 (Cardim 1978; Sampaio 1955). Contudo, não há interesse em estudá-los. No máximo, algumas peças arqueológicas eram coletadas por oficiais da Coroa juntamente com outros objetos exóticos para o Gabinete Real de Curiosidades (Schwarcz 1989).

Às crônicas do descobrimento, seguemse os relatos monçoeiros, bandeirantes e sertanistas, além das crônicas e relações eclesiásticas. Interpretações sobre as origens das populações indígenas recém-encontradas são tímidas e condizentes com o criacionismo ou monogeísmo cristão da época. Entre as teses mais comuns estão a do paraíso terrestre na América e a da descendência das tribos perdidas de Israel. No entanto, nenhuma delas se inspirou em evidências arqueológicas. Finalmente, com a expulsão dos jesuítas em 1759 encerrouse todo um gênero de estudos e relatos por parte da instituição que, até então, mais se aproximara e melhor conhecia as diferentes culturas indígenas do país.

Uma perspectiva mais propriamente arqueológica surgiu com os naturalistas via- jantes da segunda metade do século XVIII e início do XIX. Mesmo antes da instalação da Corte portuguesa no Brasil e do decorrente incentivo à exploração mais sistemática do território brasileiro, o país já vinha sendo palco de inúmeras excursões, viagens e pesquisas de naturalistas estrangeiros, sobretudo franceses e alemães.

Eram projetos não mais regidos pela curiosidade renascentista da era das descobertas, mas pela especulação científica iluminista do estudo da natureza de forma racional. Apesar da pouca especialização das áreas de saber (descrevia-se com igual amplitude a flora, a fauna, os nativos e a cultura material), eram projetos já marcados pelo crescente interesse europeu pela etnologia, e pelo reconhecimento do potencial informativo da cultura material. Além disso, as teorias formuladas sobre origem e antigüidade dessas populações se baseavam cada vez mais em evidências arqueológicas.

Este ciclo de viajantes inaugurou-se com expedições amazônicas, como as de La Condamine (1745), Franz Keller-Leusinger (1784) e Alexandre Rodrigues Ferreira (1785-1790), doutor em Ciências pela Universidade de Coimbra, e muitos outros (Sampaio 1955). Para os naturalistas dos séculos XVIII e XIX, a Amazônia representava o lugar onde a natureza e o homem podiam ser observados em sua forma mais pura, um local precioso para a pesquisa. Quanto à arqueologia, este é o início de uma longa tradição de expedições estrangeiras ao Amazonas, região que, até os dias de hoje, continua a atrair a atenção de arqueólogos estrangeiros.

A viagem de estudos de Alexandre von

Humboldt (1799-1803) insere-se neste contexto de expedições amazônicas. Além de registrar importantes sítios arqueológicos, Humboldt propôs a primeira teoria de origem das populações americanas com base em suas observações antropológicas. Sugeriu uma origem asiática única, “uma só raça,… um só tipo orgânico modificado por circunstâncias que nos ficarão para sempre desconhecidas” (Rocque s/d). Humboldt foi impedido pelo governo

REVISTA USP, São Paulo, n.4, p. 32-51, dezembro/fevereiro 1999-200036 português de adentrar o território brasileiro. Suas idéias e teorias pareciam prejudiciais aos interesses da Coroa a qual, apesar de incentivar a exploração do território para promover a imagem de um país vasto, diversificado, cheio de riquezas naturais, também procurava impedir novas idéias que fortalecessem o incipiente nativismo brasileiro.

Com a instalação da Corte no Brasil, as expedições tornaram-se oficiais e o país se transformou no paraíso de naturalistas viajantes (Sampaio 1955). Em particular, entre as expedições que fizeram registros de interesse arqueológico estão as de Eschwege (1809), Wied Neuvied (1815), Saint-Hilaire (1816-2), Koster (1816) e von Martius (1818-21). Este último, juntamente com von Spix e Natterer, integrou a missão Pohl, que acompanhou a arquiduquesa e futura imperatriz Leopoldina ao Brasil.

Von Martius dedicou-se particularmente à etnografia e à arqueologia indígena. Especialmente preocupado com a origem dos grupos indígenas brasileiros, classificou tribos por afinidade lingüística e traçou seus caminhos migratórios. Sustentou a teoria de raça única de Humboldt, desenvolvendo-a como uma teoria de involução cultural indígena, voltada para localizar a civilização de origem (Roquete Pinto 1927).

Com isso inaugurou-se também todo um ciclo de especulações imaginosas que viam os índios brasileiros como o estágio final de uma civilização decadente, a qual poderia ser desde a dos fenícios, hebreus, chineses, japoneses e mongóis, até a de outros povos fictícios como os atlantes. Tais especulações eram sobretudo populares entre os intelectuais brasileiros que, formados sob a ótica colonial européia, estavam ainda inconformados com um passado indígena “pobre”, ao contrário de seus vizinhos que, em seus movimentos nativistas e anticoloniais, podiam evocar a tradição de altos impérios e civilizações, como as dos astecas e incas.

Esta ótica marcou o desenvolvimento da arqueologia no país até os dias de hoje. À medida que os ideais de identificação com altas civilizações são frustrados por resultados de pesquisas mais sistemáticas, o inconformismo tende a se transformar em desinteresse e desprezo das elites intelectuais pela arqueologia brasileira, mais tarde agravados por um certo tecnicismo por parte da arqueologia acadêmica brasileira e pelo seu isolamento do restante das ciências humanas e sociais praticadas no país.

Ao longo desse processo, coleções de materiais foram sendo reunidas essencialmente por naturalistas estrangeiros, inicialmente com uma preocupação mais museológica, isto é, voltada para a coleta de amostras e vestígios de culturas extintas ou em extinção que seriam enviados e preservados em museus europeus, e em seguida com uma preocupação mais científica em ordenar e classificar estes vestígios (Lopes 1995; Nizza da Silva 1983).

No Brasil, o Museu Real , fundado em 1808 no Rio de Janeiro, e mais tarde com a República rebatizado como Museu Nacional, assumiu desde o início um perfil de museu de História Natural, servindo de home land para muitas das expedições estrangeiras. Com o objetivo explícito de incentivar os estudos de botânica e zoologia, mas longe ainda dos padrões científicos e museológicos europeus, foi também o local onde seriam depositadas as peças arqueológicas de proveniências diversas, na maioria coletadas por naturalistas, mas ainda tratadas como simples curiosidades (Schwarcz 1989).

Finalmente, não se pode encerrar a revisão dessa etapa da “pré-história” da arqueologia brasileira sem mencionar o episódio das descobertas de Peter Wilhem Lund, as quais até hoje têm revolucionado teorias sobre a ocupação antiga do território brasileiro. Este naturalista dinamarquês, vindo ao Brasil inicialmente em 1825 para a coleta de espécimes para o Museu Natural de Copenhague, retornou ao país em 1834, fixando residência em Lagoa Santa, Minas Gerais. Aí, com uma preocupação já voltada para a zoologia e a paleontologia, Lund pesquisou mais de 800 cavernas, coletando e documentando vestígios de animais extintos. Foi na Lapa do Sumidouro que Lund encontrou restos de esqueletos humanos fossilizados em meio

REVISTA USP, São Paulo, n.4, p. 32-51, dezembro/fevereiro 1999-200037 a ossadas de animais pleistocênicos, o que o levou a formular a hipótese de contemporaneidade de seres humanos com esta fauna hoje extinta (Junqueira1980; Prous 1991:6-7).

Até então não havia notícias de restos humanos fossilizados em nenhuma outra parte do mundo, e tampouco era aceita a idéia de tamanha antigüidade do ser humano. Mesmo entre os cientistas da época, predominava ainda o criacionismo, e paleontólogos como Cuvier, mestre de Lund, desenvolveram a teoria de catástrofes sucessivas para explicar os vestígios de formas de vida extintas. Segundo o catastrofismo em voga, o dilúvio bíblico teria sido o último desses acontecimentos, e a idéia de seres humanos contemporâneos à fauna extinta implicaria a existência de um homem antediluviano, o que para os parâmetros de conhecimento da época era inaceitável (Prous 1991).

Sem ser ouvido pelos cientistas de sua época, a hipótese de Lund parecia antever a teoria evolucionista de Darwin e Wallace apresentada logo a seguir, em 1848. A questão do “homem de Lagoa Santa” e subseqüentes pesquisas na região atravessaram a história da arqueologia brasileira pelo restante do século XIX e todo o século X, com controvérsias tanto a respeito da antigüidade dos vestígios humanos, como da sua origem racial, estendendo-se até os dias de hoje, quando então já é bastante aceita a idéia de um homem pleistocênico americano.

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