15-Fonseca e Turra-Magni 2014 - homenagem a Petonnet

15-Fonseca e Turra-Magni 2014 - homenagem a Petonnet

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Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 20, n. 41, p. 405-411, jan./jun. 2014

Homenagem a Colette Pétonnet HOMENAGEM A COLETTE PÉTONNET

Claudia Fonseca Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

Claudia Turra Magni Universidade Federal de Pelotas – Brasil

Resumo: O seminário “Les sentiers de l’ethnologie urbaine, avec Colette Pétonnet” (“Pistas da etnologia urbana, com Colette Petonnet”), realizado entre 3 e 4 de outubro de 2013, no Muséum National d’Histoire Naturelle – Paris, reuniu diversos pesquisadores para uma homenagem póstuma a esta precursora da etnologia em meio urbano, fundadora, com Jacques Gutwirth, do Laboratoire d’Anthropologie Urbaine do Centre National de Recherche Scientifi que (LAU/CNRS). Este artigo é uma tradução do paper enviado por Claudia Fonseca, ex-orientanda da homenageada, apresentado, na ocasião, em forma de um vídeo, produzido em conjunto com Claudia Turra Magni e Mauro Bruschi, sob o título Colette Pétonnet au Brésil: les effets pédagogiques d’un exercice ethnographique. Aqui, as autoras evocam as marcas e repercussões dos ensinamentos da mestra, a partir de sua estada no Brasil, na última década do século passado.

Palavras-chave: Colette Pétonnet, etnologia urbana, história da antropologia, método etnográfi co.

Abstract: The seminar “Les sentiers de l’ethnologie urbaine, avec Colette Pétonnet” (Pathways of urban ethnology, with Colette Petonnet), held on October 3-4, 2013 at the Muséum National d’Histoire Naturelle in Paris, brought together diverse researchers in a posthumous homage to this precursor of ethnology in urban settings and founder – together with Jacques Gutwirth – of the Laboratoire d’Anthropologie Urbaine do Centre National de Recherche Scientifi que (LAU/CNRS). This article is inspired in the contribution solicited from Claudia Fonseca (one of Colette’s former students), presented at the seminar in the form of a video produced in co-authorship with Claudia Turra Magni and Mauro Bruschi, entitled Colette Pétonnet au Brésil: les effets pédagogiques d’un exercice ethnographique. Here, the authors outline the repercussions of the teachings of Colette, starting with her sojourn in Porto Alegre during the early 1990s.

Keywords: Colette Pétonnet, ethnographic method, history of anthropology, urban ethnology.

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832014000100015

Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 20, n. 41, p. 405-411, jan./jun. 2014

Claudia Fonseca e Claudia Turra Magni

Apresentação

O seminário “Pistas da etnologia urbana, com Colette Petonnet” (“Les sentiers de l’ethnologie urbaine, avec Colette Pétonnet”), realizado entre 3 e 4 de outubro de 2013, no Muséum National d’Histoire Naturelle – Paris, reuniu diversos pesquisadores para uma homenagem póstuma a esta precursora da etnologia em meio urbano, fundadora, com Jacques Gutwirth, do Laboratoire d’Anthropologie Urbaine do Centre National de Recherche Scientifi que (LAU/ CNRS). Este artigo é uma tradução do paper enviado por Claudia Fonseca, ex-orientanda da homenageada, apresentado na ocasião em forma de vídeo, produzido em conjunto com Claudia Turra Magni e Mauro Bruschi, sob o título Colette Pétonnet au Brésil: les effets pédagogiques d’un exercice ethnographique. Aqui, as autoras delineiam as marcas e repercussões dos ensinamentos de Colette, a partir de sua estada no Brasil, na última década do século passado.

É com um misto de tristeza e satisfação que escrevemos estas poucas palavras sobre o impacto da Colette Pétonnet na antropologia brasileira. Tristeza por causa da inevitável condição humana – a fi nitude da vida. Satisfação graças ao sentido de fi liação intelectual que sentimos em relação a esta grande dama da antropologia, Colette Pétonnet. Mais do que um objeto de interesse dos antropólogos, o parentesco e a genealogia parecem ser uma maneira de estruturar nossas ciências humanas.

Em outubro de 1992, Colette e sua amiga psicanalista, Monique Touron, desembarcaram no Brasil para passar um mês numa capital no sul do país, Porto Alegre. Essa viagem foi resultado de vários movimentos de uma rede que começou com a recomendação de Françoise Zonabend para que certa antropóloga brasileira realizasse seu doutorado sob a orientação de Colette. Essa etnóloga – Claudia Fonseca, atual professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – estava começando seu trabalho de campo entre (o que era chamado na época) os “subproletários” de favelas brasileiras e, ao consultar as obras de Colette, encontrou nelas uma enorme inspiração. Colette, com seu habitual espírito de aventura, acolheu a aspirante em sua equipe, abrindo a porta para intercâmbios que não cessariam de se aprofundar nas próximas décadas.

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Homenagem a Colette Pétonnet

Na época, com Jacques Gutwirth, Colette fundava o Laboratoire d’Anthropologie Urbaine do Centre National de Recherche Scientifi que (LAU/CNRS). Jacques, exilado durante a Segunda Guerra Mundial, passara parte de sua juventude no Brasil, e o português estava dentre as muitas línguas que falava fl uentemente. Assim, instigados pela possibilidade de fi - nanciamento bilateral, propusemos um programa de intercâmbio sistemático entre etnólogos no Brasil e na França, o que nos conduziu ao par perfeito – Colette e Jacques. O projeto de intercâmbio permitiu que o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS, em Porto Alegre, se enriquecesse com a vinda de uma série de importantes pesquisadores franceses – Carmen Bernand, Claude Rivière, Jean-Marie Gibbal (entre outros) e, claro, por diversas vezes, Jacques. Finalmente, Colette foi convencida a vir também. Durante um mês, ela enfrentou um regime de atividades intensas – orientação do trabalho de vários estudantes que desenvolviam pesquisas sobre grupos populares no Brasil, conferências públicas (a do cemitério Père Lachaise cativou, especialmente, seu público) e ainda um curso de 30 horas sobre “Estudos da vida urbana: história e etnologia”.

Foi durante esse curso que os alunos tomaram contato com um modo próprio de Colette de pensar a cidade. Foi lá também que eles aperfeiçoaram um estilo de trabalho de campo que se tornaria emblemático de certa linhagem da antropologia urbana no Brasil. Evidentemente, já existia antropologia urbana no país. O Museu Nacional do Rio de Janeiro recebera o grande sociólogo do interacionismo americano, Howard Becker, dando origem a uma antropologia brasileira de sociedades complexas. Ruben Oliven, fundador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS, em Porto Alegre, já havia lançado seu clássico Antropologia de grupos urbanos. Mas Colette, com um olhar que ia sempre em direção às “profundezas”, introduzia um elemento completamente novo nas discussões.

Enquanto professora, começou com as profundezas históricas, tomando sempre Paris como exemplo por excelência do desenho das cidades modernas. Mas levou seus alunos para as profundezas em um sentido mais literal, insistindo que não devíamos ser enganados pelas aparências das superfícies. Sem atentar para elementos normalmente despercebidos (os animais, os jardins) e os subterrâneos (os esgotos, os dejetos), o pesquisador não compreenderia as complexidades dinâmicas da vida urbana. Sem dúvida, havia sempre a suspeita de outras profundidades – a empurrar-nos para a refl exão sobre a dimensão

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Claudia Fonseca e Claudia Turra Magni simbólica do que estávamos observando. Mas havia uma grande sutileza na forma como Colette nos comunicava esse desafi o, e um método que não passava por longas explicações teóricas.

Para Colette, formada no Centre de Formation à la Recherche

Ethnologique (CFRE) por professores como Leroi-Gourhan e Roger Bastide, não poderíamos fi car nas abstrações. Era necessário que os alunos colocassem “a mão na massa”. Ela nos fez sentir fi liados à linhagem do CFRE e a um estilo de aprendizagem em que se trabalha ao lado do mestre, tal qual os aprendizes de outrora, para adquirir as sutilezas do ofício. Para o exercício etnográfi co em Porto Alegre, Colette procurou um campo simples, acessível, mas rico em vida. Sua escolha recaiu sobre um pequeno circo instalado à beira do estuário que margeia a cidade. Com uma dúzia de estudantes, Colette passou a frequentar, sob o escaldante sol brasileiro, todas as atividades do pequeno grupo. Com a astúcia de um estrategista militar, ela desembarcou com suas tropas. Delegava uma equipe para estudar os gestos, o savoir-faire, os mecanismos e materiais necessários para montar o grande toldo; outra, para descobrir o que é preciso para deslocar, cuidar e treinar os animais (ainda autorizados naquela época). Um estudante devia realizar entrevistas com o “dono” sobre as estratégias logísticas desse negócio comercial: a administração fi nanceira, as licenças municipais, o marketing… Finalmente – e, é claro, aquilo que os alunos mais esperavam – era necessário aproximar-se dos artistas, ouvir suas histórias, traçar, a partir das observações de suas ações e palavras, o entrelaçamento das trajetórias pessoais, profi ssionais, das alegrias e inquietudes quotidianas. Em uma fase posterior, os diários de campo seriam relidos e discutidos para ajudar a distanciarmo-nos da cena e a encaixar as peças desse quebra-cabeça. Foi através desse exercício prático de observação fl utuante que os alunos aprenderam a experimentar le voyage par le détour, ou seja, o olhar distanciado sobre os ambientes urbanos nos quais vivemos.

Os resultados desse pequeno exercício etnográfi co nunca foram publicados.1 No entanto, inscrita no folclore oral do programa, essa aventura marcou profundamente os “modos de fazer” de uma geração de jovens etnólogos da

UFRGS. Continuando a tradição etnológica legada por Colette, vários deles Anos mais tarde, Francine Fourmaux (2008) organizou Les lieux du cirque, com artigos produzidos a partir do Laboratoire d’Anthropologie Urbaine – o que evidencia a aproximação de interesses temáticos e metodológicos que Colette inspirava em ambos os lados do Atlântico.

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Homenagem a Colette Pétonnet foram para a França fazer seu doutorado sob a orientação de professores treinados no CFRE ou ligados ao Laboratoire d’Anthropologie Urbaine. Munidos de novas ferramentas intelectuais, esses pesquisadores rumaram, por sua vez, para diferentes universidades brasileiras onde perpetuaram esse estilo etnográfi co. Assim, os textos de Colette tornaram-se leitura obrigatória em cursos de método. Cornelia Eckert (professora da UFRGS, com sua tese orientada por Jacques Gutwirth) faria da “observação fl utuante” um pilar metodológico de toda uma escola de antropologia urbana, denominada “etnografi a na rua”. Miriam Grossi (ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia) e Carmen Rial (atual presidente), ambas oriundas da UFRGS e professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atribuem a Colette um lugar de grande importância no panthéon de antepassados dos alunos.

Um olhar mais detalhado da experiência de Claudia Turra Magni, uma das estudantes de Colette, em Porto Alegre, ajuda-nos a entender o processo de transmissão dessa herança intelectual.

Lembro-me de como, em Porto Alegre, Colette me acompanhou debaixo de pontes habitadas por bandos errantes. Ela trouxe luz e legitimidade à pesquisa etnoarqueológica que eu iniciava junto aos nômades urbanos. Depois, ao longo de todo o meu doutoramento na École des Hautes Études en Siences Sociales, entre 1997-2002, em continuidade a este estudo, quando pesquisei no universo associativo parisiense, a acolhida do Laboratoire d’Anthropologie Urbaine foi uma oportunidade extraordinária para retomar contato com Colette. Ela ajudou- -me também a construir relações acadêmicas para aprofundar refl exões sobre minha pesquisa, especialmente com o Groupe de Recherche sur la Pauvreté (GREP), constituído por investigadores experientes, como Patrick Gaboriau, Daniel Terrolle, e outros estudantes, como eu. Quando fi z uma apresentação sobre a etnografi a realizada no Brasil, Patrick Williams, diretor do LAU à época, comentou sobre minha evidente fi liação com uma tradição de estudar os grupos desfavorecidos – uma tradição que tinha começado na geração anterior com a aliança entre a Colette e Claudia Fonseca, e que teve continuidade nesta geração com os meus próprios estudos sob a direção desta última. Não se tratava mais de “subproletários”, mas de “nômades urbanos” – uma mudança de classifi cação que refl etia as novas condições socioeconômicas, políticas e epistemológicas. Mas houve uma sensibilidade etnográfi ca no olhar – nem pessimista, nem romântico – o que certamente tinha a marca de Colette. De volta ao Brasil, como professora da Universidade Federal de Pelotas, no extremo sul do país, tento propagar os fundamentos apresentados nestas

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Claudia Fonseca e Claudia Turra Magni experiências de pesquisa, junto aos alunos de arqueologia e antropologia – especialmente aqueles interessados em antropologia da imagem e do som ou em etnologia urbana. Posso citar um exemplo concreto da presença viva de Colette entre nós. É quando proponho aos alunos um exercício de observação fl utuante – por exemplo, na rede dos cemitérios da cidade, cuja morfologia carrega a marca de diferentes religiões. Devido à carência de obras de Colette traduzidas ao português, eu mostro ainda às novas gerações as páginas amareladas das notas de aula que redigi durante o curso que ela deu em Porto Alegre, há duas décadas. Estou convencida de que essas páginas, com as recordações de minhas experiências, são uma dádiva que eu tenho a obrigação de fazer circular entre os jovens pesquisadores da nova geração.

Nos últimos anos, o grupo de pesquisadores do LeMetro (UFRJ), sob a coordenação do professor Marco Antônio Mello, aproximou-se de Colette, ajudando a preencher as lacunas no que diz respeito à tradução para o português de sua obra.2 Os membros dessa equipe, com longa experiência de pesquisa nas favelas do Rio de Janeiro, encontraram grande inspiração na obra da etnóloga francesa. Não apenas os livros de Colette, mas também suas fotografi as serviram para alimentar as comparações entre a morfologia das cidades e da vida quotidiana nos bairros populares dos dois países.3 Tendo se tornado amigas de Colette, bem como parceiras intelectuais, duas jovens investigadoras do LeMetro (Letícia de Luna Freire e Soraya Silveira Simões) conseguiram persuadi-la a vir novamente ao Brasil, para um simpósio internacional, em 2010.4 Durante a conferência de encerramento, em linguagem clara e poética que caracteriza toda a sua obra, Colette retomou as principais etapas de sua trajetória, bem como os elementos-chave de seu método.5

Ao que tudo indica, os “descendentes” brasileiros de Colette continuam a se multiplicar, e sentimo-nos orgulhosos de fazer parte daqueles que tentam perpetuar o seu olhar particular sobre as vidas e as cidades que nos cercam.Ver, por exemplo, “A observação fl utuante: exemplo de um cemitério parisiense” (Pétonnet, 2008).Ver, por exemplo, o material fotográfi co reunido por Felipe Berocan Veiga (2012).“Aspectos humanos da favela no Rio de Janeiro: ontem e hoje” (IFCS – UFRJ, 19-21 de maio de 2010).Publicada no livro Favelas cariocas: ontem e hoje como posfácio (Pétonnet, 2012).

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