10-Foote-Whyte 1980 - treinando a observação participante

10-Foote-Whyte 1980 - treinando a observação participante

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3 - treinando a observa~aoparticip~nte*

DESVENDA 0

MASCAR !I SOCIAlS

2~edi~o

Posso Iembrar-me ainda daminha primeira saida com Doc. Nos nos eneontramos uma tarde em Norton Street Housee de hi nos dingimos a um estabeleeimento de jogo, dois quarteiroes adiante. S~gui Doc ansiosamente pelo beeo eseuro, atras de urn ptedio de apartamentos. Eu nao estava preocupado com a possibilidade de uma "batida" polida!. Pensava em como me ajustaria e seria aeeito. A porta abriu para uma cozinha pequena, quase sem mobilia, com a pintura das paredes descascando. Logo que entramos tirei 0 chapeu e procurei um Iugar para pendura-Io. -Nao havia. Olhei em torno e neste momento aprendi a. primeira li~ao como observador par,ticipante em Comerville: nao tire 0 chapeu em casa, pelo menos quando estivet entre homens. Tirar 0 chapeu e admissiveI, ainda que desnecessario, .quando as ~ulheres estao presentes.

_poc apresentou-me a Chichi -:-. que. dirigia 0 neg6cio - como "meu amigo Bill", a amigos de Chichi e a elientes. Permaneei parte do tempo com Ooc nacozinha, onde alguns hornens costumavam

Ilentar e conversar, e parte do tempo emoutro comodo, assistindo ao jogo de dados.

As conversasetam sobre jogo, corrida de cavalos, sexo e outros assuntos. Na maioria das vezes eu apenas ouvia· e tentava agir de maneira amavel e interessada.Havia vinho e cafe com licor de aniz e os camaradas se cotizando para pagar pelas bebidas (Doc nesta primeiraciportunidade nao me deixou pagar pela minha parte). Como Doc havia suposto, ninguem pergun~oua .meu respeito, porem rnais -

. • "On the evolution of street corner society", Street Corner Society, Appendix, The Universityo:f Chicago Press, Chicago, 1943, pgs. 298-309.

tarde me contou que, quando fui ao banheiro, irrompeu uma con~ versa excitada em italiano e ele teve que convence-Ios de que eu nao era urn policial federal. Contou-me que Ihes dissera em tom firme que eu era seu amigo e que entao concordaram em deixar ascoisas como estavam.

Fomos juntos diversas vezes ao estabelecimento de Chichi - ate chegar 0 momenta em que me atrevi a ir Iii sozinho. Quando fui recebido de maneira natural e amigavel senti que estava come~ando a ocupar urn lugar em Cornerville.

Quando Doc nao ia ao estabelecimento de jogo, pa$sava 0 tempo· fazendq 0 ponto em Norton Street e comecei a acompan~a-Io. A prin: ' cipio Norton Street significava apenas urn lugar para 'se esperar ate poder'ir a alguma parte. Progressivamente, na medida em que conse- gui conhecer melbor os rapazes, tomei-me urn integrante da turma de Norton Street.

Nessa ocasiao, 0 Clube Comunidade !taliana foi organizado na regiao de Norton Street e Doc foi convidado a fazer parte dele. Doc trabalhou a minha aceitaQao no Clube e fiquei satisfeito em associar-me, pois representava algo.·bem diferente das turmas de rua que eu estava freqiientando.

Uma vez comecando a conhecer os rapazes de Cornerville, tamhem travei conhecimento com algumas mOQas. Levei llma delas a dan~a na Igreja. Na manha seguinte os companheiros de esquina estavam me perguntando: "Que tal sua namorada?" Isto me abriu os olbos bruscamente. Aprendi que ir a casa de uma garotil e algo que

nao se faz a nao ser que se deseje casar com ela. Fllizmente ela e a sua familia sabiam que eu nao conhecia os costuUlles locais e~ portanto, nao supuseram que eu estava comprometido. De qualquer modo foi uma advertencia util. Depois disso, apesar de a¢har algumas garotas de Comerville excepcionalmenteatraentes, nunca mais sai i com nenhuma delas a nao ser em grupo, e tamb6m nunca mais fiz visitas domesticas.

Na medida em que prosseguia em minha observa~aoverifiquei que a vida emCornerville naoera tao interessante e agr~davel para as mo~as quanta 0 era para os homens. 0 rapaz possula_ comp~eta liberdade para perambular e fazer ponto na rua. As m0!tas nao podiam ficar pelas esquinas. Eram obrigadas a dividir 0 tempo entre ~s snas casas'-·- as casas de amigas e parentes -e 0 trab~lbo, se tivessem. algUm. Muitas delas tinham urn sonho que era 0 seguinte: algum rapaz de fora de Cornerville, com algum dinheiro, urn born emprego e uma boa educa~ao viria urn dia corteja-Ias e leva-Ias do bairro. Dificilmente poderia dar-rne ao luxo de desempenhar este papeI.

Treinando a observariio :participante

A primavera de 19~ propotcionou-me urn 'curso intensi~o sobre observa(;ao participante. Estava aprendendo como cond~-me e aprendi com vanos gropos, mas especialmente com os Nottons.

Na medida em que comecei a .fazer ponto em Co;nerville· descobri que necessitava de uma explica~ao para mim e para a men estudo. Enquanto estava com Doc, garantido pot ele, ninguem' perguntava quem era eu e <> que fazia. Quando circulei seip. el~ em autros gropos inclusive os Nortons ficou claro que estavam CUrlOSOS . \a men respeito.\

Comecei com uma expIica(;ao urn tanto elaborada. Eu\ estaria estudando a historia social de Cornerville, mas possuia uma nova perspectiva. Ao inves de trabaIh~ do passado. I:ara 0 p~esente, esta~a buscando 0 conhecimento exaustivo das condi!(oes atuatS para depolS partir do presente em dire~ao ao passado. Eu estava muito satisfeito com esta expIicaQao, mas ninguem maiS parecia dar importancia ~ ela. Dei este esclarecimento em duas ocasioes e cada vez que terDllnava havia urn silencio embara!toso. Ninguem, inclusive eu mesmo, sabia 0 que dizer.

Embora esta explica~ao tivesse a vantagem .de encobrir qUalqu~r coisa que eventualmente desejasse fazer no barrro, era por demats complicada para ter qualquer significado para -0 pessoal de Cor.• nerville.

Logo descobri que as pessoasestavam deseovolven?o a sua pr6pria explica(;ao sobre mi~: eu e.stava esc:revendo urn. Iiv~o sobre Cornerville. Como esclare.ctmento lSSO podIa parecer mterramen~ vago e, no entanto, era suficiente. Descobri que. a minha aceita~ao no bairro dependia muito mais das rela~es pessoals que des~nvolvesse do que das expIica~6es que pudesse dar. Escr~v~5 urn hvro sobre Cornerville seria born ou nao, dependendo da 0plDlao express~ a res- peito da minha pessoa. Se eu fo~se ~ma boa. pessoa, 0 proJeto era born, se nao fosse, nenhuma explica!(ao podena convence-Ios de que o livro era uma boa ideia.

Claro que' as pessoas nao satisfaziam sua curiosidade simples.:.

mente dirigindo-rne perguntas diretas. Elas .recorria:n a Doc,. por exemplo e lheperguntavam a meu respeito. Doc entao respo,n;~la as: . perguntas e lhes restabelecia a confian!ta no que fosse ~ecess~o.

Aprendi, logo cedo na m~nha e~ta~a. em Cornerville, a tmportancia crucial de obter 0 apolO de mdlVlduos-chaves em todos os grupos ou organiza~oes que estivesse estudan?o. Ao inves de teotar explicar a minha presen!ta a cada urn, descobn que _.estava,fornecendo mais informa~6es sobre minha pessoa e 0 meu estudo a lideres como

Doc do que daria espontaneamente a qualquer rapaz de rua. Sempre tentei dar a impressao de que estava propenso e ansioso por contar sobre 0 meu estudo quanto qualquer pessoa quisesse saber. mas era ,somente com os lideres de gropo que me .esfor~ava para fomecer info'lma!tOescompletas.

Meu relacionamento com Doc mudou rapidamente neste primeiro periodo de Cornerville. A principio ele era apenas urn informante chave e tambem meu protetor. Na medida em que passamos mais tempo juntos parei de trata-Io como um infol:'!illantepassivo. Discutia com ele francamente 0 que estava tentando fazer, que problemas me confundiam e assim por diante. Muito do nosso tempo era gasto na discussao de ideias e observa~oes, e dlllste modo Doc tornou-se.no verdadeiro sentido do termo. um colaborador da pesquisa.

A consciencia da natureza do meu estudo estimuiou Doc a pro- curar sugerir dados que me interessassem. Freqiientemente. quando eu 0 pegava no apartamento onde morava com a irmll e 0 cunhado, me dizia "Bill. v0c8 deveria ter aparecido a noite passada. Teria ficado interessado". Come~ava entao a contar-me o' que havia sucedido. Tais relat6rios eram sempre· interessantes e relevantes para 0 estudo.

Doc achava esta experiencia de trabalhar comigo interessante e divertida. ainda que 0 relacionamento tivesse sua~ desvantagens. Uma vez comentou: "Voc8. desde que apareceu aqui, tem me cansado bastante. Agora. quando fa~o qualquer coisa tenho que pensar 0 que Bill Whyte gostaria de saber a respeito disso e como explicar-lhe. Antes eu agia por instinto".

De qualquer modo Doc nao parecia considerar isto uma desvantagem seria. Na verdade, sem ter qualquer treino. era um observador a tal ponto perspicaz que bastava um pequeno estfmulo para ajuda-Io a tornar explicito muito da dinamica da organiza~ao social de Corner·- ville. Algumas interpreta!tiSes que fiz sac mais dele do que minhas ainda que agora seja impossivel distingoi-Ias.

Embora trabalhasse mais estreitamente com Doc do que com qualquer outro individuo. sempre procurei 0 Hder dos grupos qne estivesse ·estudando. Necessitava nao s6 do seu apoio, mas tambem da slla colaborar;ao ativa. em meu estudo. Visto ql;le tais lfderes ocupavam uma posir;ao na eomumdade que Jhes pellmitia observar tnelhor do que seus seguidores 0 que acont~cia, e que eram em geral observadores mais perspicazes do que seus seguidores, descobri que tinha muito a aprender atraves de uma colabora~ao maior comeles.

Eu havia side treinado nos metodos de entrevista a oao discutir com as pessoas ou juIga-Ias. Isto correspondia as minhas inclina<;oes pessoais. Estava disposto a aeeitar as pessoas e a ser aeeito por elas. De qualquer modo. esta atitude nao transpareceu muito nas entrevistas, porque fiz poucas entrevistas formais. Procurei demonstrar esta disposi~ao para aceitar as pessoas e a coniunidade atraves de minha participa~ao cotidiana.

Aprendi a tomar parte nas discussoes de rua sobre baseball e sexo. Isto nao requeria urn treinamento especial pois estes temas.

parecem' ser de interesse quase universal. Nao estava apto a participar tao ativamente dasdiscussoes sobre corrida de cavalos. Coniecei

jornais decorridaAinda assim, meu conhecimento de baseball me

aacompanhar as corridas de maneira vaga e amadora. EstoU certo de que devetia ter dado mais aten~ao ao Morning Telegraph e \a outros garantia a participa~ao nas conversas de esquina. \

Embora me esquivasse. de expressar opinioes a respeito de temas delicados, descobri que discorrer sobre certos assuntos fazia parte do padrao social e que dificilmente alguem poderia participar .de um debate sem se envolver. FreqiientemC(nte surpreendia-me envolvido em discussoes acaloradas. poremafaveis, sobre 0 merito relativo de alguns 90S. principais jogadores e empresarios de baseball. Sempre que algoma mo~a ou grupo de mo~as descia a rua. os companheiros daesquina anotavam mentalmente e mais tarde discutiam as avalia~es feitas sobre as garotas. Estes julgamentos em gerat tendiam a ser em termos das formas das mulheres e eu fieava satisfeito por argumentar que Mary era mais "bem feita do que Anne ou vice-versa. Naturalmente. caso um dos .rapazes estivesse enaniorado de Mary ou Anne nenhum comentario poderia ser feito. e tambem eu deveria me esquivar do assunto.

As vezes euduvidava se fazer ponto nas esquinas era processo suficientemente ativo para ser dignificado peto termo "pesquisatt •

Talvez devesse fazer perguntas aos rapazes. No entanto, e precise aprender 0 momento apropriado para perguntar, assim como 0 que pergontar.

Aprendi esta li~ao nos primeiros meses, quando estava urna noite com Doc no estabelecimento dejogo de Chichi. Um homem, vindo de outra parte da cidade, nos deleitava com a hist6ria da organiZa~ao do jogo. Haviam me dito que ele tinha sido um gr~nde empresfu:iode jogo. e falava com conhecimento de causa a ~espeito de vanos assuntos interessantes. Ele monopolizpu a conversa e. como os outros fizessem perguntas e teeessem eomentarios,comeeei a sentir qu;e . deveria dizer algoma coisa para integrar-me no grupo. Perguntel:

"Suponho que os guardas eram todos subornados?" o .jogador fez a cara de espaoto. Othou fixamente para mw. Em seguida negou com veemencia que qualquer paUcial fosse subor- nado e imediatamentedesviou~ conversapara outro assunto. Durante o resto da noite senti-memuito:pouco a vontade.

No dia seguinteDoc futeq,retou a Ii§raoda noite anterior. "Bill, v, devagar com esse palavreado de .quem, 0 que, por que, quando, onde. Vo~ faz ~stas perguntas e as pessoas irao se calar diante de v~. Se as pessoas 0 aceitam, vo~ pode perambular por' tooo canto e a longo prazo vai ter as respostas que precisa sem fazer perguntas.

. Descobri que ele estava certo. Na medida em qu~ sentei e ouvi, .obtive respostas para perguntas que nem teria feito se tivesseobtendo informa~es somente atraves de entrevistas. Naturalmente nao abandonei de todo as perguntas. Aprendi apenas a avaIi.- a susceptibilida~e da pergunta e 0 meu relacionamento·com as p~soas de modo que ~,s6fazia perguntas em uma area sensivel quando estava seguro de que meu relacionamento com a pessoa era s6Iido.

Quando defini minha posi§raona rua os dados vinham a mim sem grandes esfor§rOs.Esporadicamente, quando.estav. voltado para um problema especffico e sentia que precisava de • informagao por parte de determinado indivfduo, buscava uma ojortunidade de encontra-Io a s6s e entrevistava..:oformalmente.

A principio minha preocupa~ao foi integrar-me em Comerville, mais tarde no entanto tive que encarar 0 problema do meu myel de inser\raona vida do bairro. Defrontei-ouma noite, q~do passeava na rua com os Nortons. Tentando penetrar no espfrito de uma conversa trivial deixei escapar uma serie de obscenidadt$ e palavroes.

. A ~ada foi interrompida quando todos pararampara me'.olbar. surpreendidos. Doc meneou a cab~ e comentou: "Ifill, voca nao devia 'falar deste modo, isto nao combina com voc!".

Procurei explicar que estava apenasempregando termos usuais

que eu continuasseassim

na rua~Doc, no entanto, insistiu que eu era diferente e que desejava

Esta Ii\raoteve um aIcancemaior do que 0 uso de obscenidades· o palavroes. Descobri que as pessoas nao esperavam que eu fosse igual a elas; na verdade, sentiam-se atrafdas e satisfttas pelo fato de me acharem diferente, contanto que eu tivesseamtade por elas.

Em consequenciaparei de esfor§rar-mepor uma integr~ao completa. Ainda assimmen comportamentofoi afetado pela vida t$ rua. Quando

Iohn lIoward veio pela primeira vez de Harvard para colaborar no estudo sobre ComervilIenotou imediatamente que me expressava em q>tD.ervlIlede modo diferentedo usual em Harvard. 0 problema nao era 0 emprego depalavrao ou obscenidades, nJ;mlde express<ses gramaticaisincorretas. Eu me expressavadeum modo que me parecia natural, mas 0 que era natural em Comerville nao 0 erlltem Harvard. Em ComervilIe eu falava mais entusiasticamente,engo'lndo os finai5 e gestic,u~andomU.i~o~(Naturalmente, havia tambem. diferen~a no vocabulano .que utilIzava. Enquanto estava profundamenteenvolvjdo em Cornerville, durante·as minhas visitas a Harvard, me via de lingua tIavada. Eu simplesmentenao podia manter discussoessobre rela~6cs internac!o~ais,natureza da ciencia e assim por' diante, nas q~ais antes me sentla a vontade).

Na medida em que fui aceito pelos Nortons e por diversos outros

~po~ procurei ser bastante agradaveI para que as pessoas ficassym S~t1sfeltaspor me terem perto. Ao mesmo tempo, tentei nao influen-

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