Material de apoio ao professor - o lugar dos quadrinhos na sala de aula

Material de apoio ao professor - o lugar dos quadrinhos na sala de aula

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Material Educativo – Exposição Curricular Do Curso De Museologia Da Universidade de Brasília – UnB /2014 Material de apoio ao professor de Educação Infantil

O lugar dos quadrinhos na sala de aula

Autoras: Jessica Freitas

Marjorie Guedes Priscila Pereira

Apresentação

O objetivo desse material de apoio é dar acesso aos professores de Educação Infantil as principais informações sobre histórico da utilização dos quadrinhos no ensino formal, os benefícios da utilização de quadrinhos na sala de aula e algumas possibilidades de abordagens disciplinares e interdisciplinares no contexto escolar.

Para apresentar o potencial pedagógico das publicações em quadrinhos, foi realizada uma extensa pesquisa em meio virtual, que resultou em um levantamento de publicações relacionadas a educação infantil. Esse levantamento será apresentado durante o texto e em tabela com informações gerais sobre publicações e endereços eletrônicos para download.

Esse material foi desenvolvido pela Equipe do Educativo da turma de Museologia e Comunicação IV do curso de Museologia da

Universidade de Brasília – UnB, que no ano de 2014 apresentou, no período de 13 a 20 de novembro, a exposição curricular: HoQ?,Quadrinhos Independentes Nacionais. A exposição apresentará importantes elementos da produção e consolidação do movimento de quadrinhos independentes no Brasil, e trará nomes e momentos importantes desse contexto. Além disso, a mostra pretende apresentar como se dá o processo de criação e confecção, pelos artistas, explicitando as diversas etapas da produção, até a sua distribuição.

1. História das histórias em quadrinhos05
2. Quadrinhos e educação07
3. Conhecendo os quadrinhos10
4. O Potencial Interdisciplinar das Histórias em Quadrinhos16
5. Quadrinhos e alfabetização: trabalho com leitura, interpretação e produção de texto2
6. Quadrinizando a literatura25
7. Propostas de Atividades com Quadrinhos28
8. Endereços Eletrônicos para Download de Histórias em Quadrinhos com temas relacionados ao currículo escolar30
9. Conclusão45
10. Bibliografia46

História das histórias em quadrinhos

Com a consolidação da indústria tipográfica, dos jornais e dos suplementos dominicais ilustrados, os HQs encontraram as condições necessárias para o seu surgimento nos Estados Unidos. O Yellow Kid (O Menino Amarelo) é considerado o primeiro quadrinho publicado, desenhado por Richard Fenton Outcalt e publicado no New York Word em 1895, as tiras semanais que exibiam ilustrações com frases panfletarias ou cômicas, ganharam destaque na indústria jornalística da época, atraindo um grande público para suas produções.

Figura 1: De Yaller Kid's

De acordo com Vergueiro (et. al. 2009) foi na segunda década do século XIX que os quadrinhos se disseminaram como um importante veiculo de comunicação e consumo social, internacionalizando os chamados Comic Book (gibis) que ganharam fama com historias de super-heróis, fisgando a atenção do público jovem em diversos países, inclusive o Brasil.

Desde seu surgimento, o HQ sempre foi visto pelo meio intelectual, tanto no Brasil como no exterior, como uma subliteratura, mas de acordo com Moya (1972), autora do livro "Historias das Histórias em Quadrinhos", foi por volta de 1950 que esse estigma se acentuou, devido a uma série de perseguições ocorridas nos Estados Unidos durante a Guerra Fria:

Em 1950, nos Estados Unidos, em pleno período de Guerra Fria havia perseguição aos comunistas, esquerdistas e simpatizantes – uma caça às bruxas -, e as histórias em quadrinhos também foram estigmatizadas. Um psiquiatra, Frederic Wertham, acusou os comics de incentivarem o crime. (...) Aqui no Brasil, a coisa era muito difícil para os quadrinhos. Achavam que quadrinhos era uma coisa que criança não deveria ler. Os professores pegavam as revistinhas que as crianças levavam e no recreio as queimavam – um típico “Fahrenheit 451” dos gibis. Eles usavam um desenho de um menino lendo gibi e em seguida uma imagem de um delinquente, sugerindo o que acontecia a quem lesse gibis. Portanto, houve uma perseguição à HQ no Brasil e também de autores infantis. (SOUZA, 2011. Pag. 08).

É importante ressaltar que fora do circuito mercadológico de produção de quadrinhos, no qual, em geral, pode-se elencar uma serie de padrões de estilo e conteúdos, existem artistas que produzem quadrinhos de forma independente. Esse artistas se responsabilizam por todas as etapas de produção de suas publicações, desde o roteiro, desenho, editoração, confecção, divulgação, venda e distribuição. Mesmo não tendo acesso a grandes editoras e altas tiragem de impressão, essas publicações são um importante meio de comunicação, que, contemporaneamente, têm ganhado cada vez mais espaço social, principalmente pela facilidade de disseminação que a internet oferece a esses artistas.

Quadrinhos e educação

Embora em caráter bem mais ameno do que ocorreu nos Estados Unidos na década de 50, os discursos sobre os prejuízos trazidos pela leitura de quadrinhos aos jovens no Brasil, também ganharam adeptos. De acordo com Djota Carvalho:

No Brasil, já em 1928, surgiram as primeiras críticas formais contra as historinhas: a Associação Brasileira de Educadores (ABE) fez um protesto contra os quadrinhos, porque eles “incutiam hábitos estrangeiros nas crianças”. Na década seguinte, em 1939, diversos bispos reunidos na cidade de São Carlos (SP) deram continuidade à xenofobia, propondo até mesmo a censura aos quadrinhos, porque eles traziam “temas estrangeiros prejudiciais às crianças”. (CARVALHO, 2006, p.32)

A utilização de histórias em quadrinhos como uma importante ferramenta de transmissão de conhecimento e facilitador de aprendizagem tem inicio, de acordo com Vergueiro (et. al 2009), já no inicio do desenvolvimento desse meio de comunicação no país. O autor ressalta que, quadrinhos com temáticas educativas, cívicas, religiosa, sanitarista e /ou moral, ganharam espaço na década de 1950 como uma alternativa “saudável” (Vergueiro et. al 2009) para crianças em meio a um contexto de critica internacional das versões comerciais até então disseminadas.

A revista o Tico Tico (1905), primeira revista a publicar quadrinhos no Brasil, o Sesinho (1947) do Sesi e a Edição Maravilhosa (1948) da Ebal ganharam grande destaque nesse período, com publicações que versavam sobre preceitos morais e de conduta cidadã, no caso das duas primeiras, e no caso da revista Edição Maravilhosa, se dedicando a quadrinizar clássicos da literatura mundial e do Brasil.

No inicio da década de 60, consolidou-se no Brasil uma indústria de quadrinhos voltada para o publico infantil, são várias as publicações na época, destacamos aqui as revistinhas do Pererê, do quadrinista Ziraldo, publicadas de 1960 a 1964. Os temas abordados por Ziraldo, assim como seus personagens, versavam sempre pela ideia de “brasilidade”, com personagens folclóricos, festas populares, religiosidade, futebol e outros. Ainda hoje, o autor é uma referencia na literatura infantil, tendo emplacado diversos outros personagens, como o menino maluquinho, que também ganhou versão em quadrinhos.

Outro destaque do período é o quadrinista Mauricio de Souza, que em 1959 lançou seus primeiros quadrinhos, e logo no inicio da década de 60 iniciou a publicação de revistas com personagens que viriam a se tornar parte da turma da Monica. Os primeiros personagens, dessa série, lançados pelo autor foram o Cebolinha, o Cascão, o Horário e o Chico Beto, sendo que a Mônica só foi criada em 1965. De acordo com Vergueiro (1999), a estratégia encontrada pro Mauricio de Souza para competir com as histórias em quadrinhos estrangeiras foi criar seus personagens com características universais, sem vincula-los a uma região, país ou traços culturais específicos, estratégia essa já implementada com sucesso com os personagens da Disney. Com isso, em pouco tempo, Mauricio de Sousa, conseguiu atrair a preferências das crianças brasileiras. Vergueiro aponta que: “Em 1973, a revista Mônica vendia 195.0 exemplares, um número que cresceu para 262.0 em 1978” (VERGUEIRO, 1999. Pag. 02). O merchandising que envolve os personagens de Mauricio de Souza, com o lançando de brinquedos, fraldas, roupas e diversos outros produtos derivados da turma da Mônica, também foi um fator determinante para o sucesso e permanência dessas publicações, que até hoje monopolizam o mercado, dificultando a inserção de novos quadrinizas.

No âmbito da legislação educacional, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), publicada em 1996, trouxe em seu texto, uma abertura para inclusão de HQs nas salas de aula ao incentivar a inclusão de outras linguagens e manifestações artísticas no processo educacional. A citação dos quadrinhos como ferramenta de aprendizagem, principalmente para educação infantil, é feita no PCN de ensino de Língua Portuguesa, que mesmo tendo sido abordado de forma estrita a essa disciplina, é considerado um avanço para o campo. A inclusão de quadrinhos nas listas do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) em 2006, e a posterior distribuição de quadrinhos para as escolas de ensino fundamental e médio em todo o país foram fatores determinante para incentivar a produção e publicação de quadrinhos que possibilitassem abordagens educacionais, disseminando assim, publicações que versam sobre meio ambiente, história, e principalmente reproduções de clássicos da literatura mundial e nacional. Algumas editoras têm obtido sucesso considerável com essas publicações, tendo inclusive seu material incluído em programas disciplinares oficiais, como é o caso das adaptações das obras de Machado de Assis, Dom Casmurro, feita pelo quadrinista Mario Cau (2013), e Helena em estilo mangá

(2014), feita pela ilustradores Montserrat, Sylvia Feer e Simone Beatriz, com colaboração eventual de Maruchan.

No entanto, Vergueiro ressalta que com a presença dos quadrinhos no ambiente escolar, incentivada pelo Governo Federal, tem gerado novos desafios aos professores, que por vezes tem dificuldade para utilizar essa ferramenta no cotidiano escolar. A bibliografia escassa sobre o tema, a falta de formação de profissionais para lidar com essa linguagem especifica, o despreparo didático de alguns quadrinistas para construir enredos com conteúdos educacionais específicos e linguagem acessível são, entre outros, empecilhos para o bom uso dos quadrinhos do processo de aprendizagem. Por fim, é interessante citar a fala de Vergueiro (et. al. 2012) sobre esse processo:

A utilização dos quadrinhos na educação ainda necessita de reflexões que subsidiem práticas adequadas e levem a resultados concretos em relação ao aprendizado. Ter álbuns e revistas de quadrinhos disponíveis nas salas de aula ou nas bibliotecas escolares não implica, necessariamente, no uso correto do material por parte dos professores.(VERGUEIRO, et. al. 2012. Pag. 84).

Conhecendo os quadrinhos

Um primeiro desafio que é colocado ao educador que deseja trabalhar com histórias em quadrinhos em sala de aula é o de conhecer essa linguagem. É necessário, portanto, estar atendo para os diversos elementos que compõem essas publicações. como os tipos de balões e suas funções; as metáforas visuais; e as onomatopeias.

Outro ponto que deve ser observado é os formatos dos quadrinhos, que determinam a forma como eles podem ser lidos. As tiras de quadrinhos, em geral de caráter humorístico, apresentam ao leitor historias curtas, com no máximo seis vinheta. Já os quadrinhos publicados em revistas, livros ou álbuns podem ter centenas de paginas e apresentam narrativas mais complexas. As chamadas Graffic Novel1, são romances gráficos, no formato de quadrinhos, que contam histórias fechadas ou compilam em uma única obra uma serie publicada, esse gênero tem ganhado bastante destaque atualmente, e tem como um de seus autores mais reconhecidos o quadrinista Art Spiegelman, com sua obra Maus, volume I e I, onde Spiegelman narra, em quadrinhos, a história de seu pai para sobreviver ao holocausto. Você pode baixar aqui os dois volumes dessa obra.

Ao falar sobre a linguagem dos quadrinhos, Vergueiro (et al. 2009) a subdivide em duas: a visual ou icônica e a verbal. Compondo cada uma dessas linguagens temos diversos elementos que serão brevemente apresentados agora. Como material complementar para o trabalho com os elementos dos quadrinhos, acesse a obra Quadrinhos: Guia Prático, produzida pela prefeitura do Rio de Janeiro, que disponibiliza em texto e vídeos material para ser passado em sala de aula sobre as principais características dos quadrinhos:

1 O termo Graffic Novel foi popularizado por Will Eisner em sua obra “A Contract With God” (Um Contrato com Deus). O selo Graffic Novel foi colocado na capa com a intenção de distingui-lo do formato de quadrinhos tradicionais.

Acesse também os vídeos relacionados a essa publicação: Chamada Quadrinhos -- Guia Prático; Quadrinhos - Guia Prático: o Balão;

Quadrinhos - Guia Prático: texto; Quadrinhos - Guia Prático: timing e Quadrinhos _ Letreiramento E Quadrinhos _ Enquadramento. (CTRL + clique para seguir o link).

1. Enquadramento e ângulos de visão: Vergueiro ressalta que, assim como na pintura ou no cinema, os quadrinhos são apresentados de acordo com planos e ângulos de visão, sendo que os planos mais se utilizados são os exemplificados na figura abaixo:

Já os ângulos de visão demonstram a forma como o autor deseja que cena seja observada, de cima, de baixo, de lado entre outros. A figura abaixo, de Scot McCloud (2008), apresenta exemplos de diferentes ângulos:

Figura 2: Quadrinhos Perturbados

Figura 3

2. Linhas cinéticas e metáforas visuais: ainda fazendo parte da linguagem visual, temos as linhas cinéticas e as metáforas visuais. A primeira, são estratégias utilizadas pelo autor para transmitir ideia de movimento ao quadrinho, são as linhas que nos apresentam trajetórias ou velocidade; a segunda transmite sentimento e expressões por meio de símbolos, animais ou objetos. Veja abaixo:

Figura 4 e 5: Estação dos Quadrinhos.

3. Os balões: elemento bem marcante das histórias em quadrinhos, o balão é definido por Carvalho (2006) como sendo “a linha que envolve as palavras atribuídas a um personagem indicando qual é esse personagem e quem se manifesta primeiro. O balão é um elemento constitutivo dos quadrinhos que transmite muitas informações importantes para a compreensão da história. Indica o diálogo entre os personagens”(CARVALHO, 2006. Pag.06) . É preciso estar atendo para os diversos tipos de balões utilizados, abaixo temos uma ilustração que traz um pouco dessa diversidade.

Figura 6: Blog fazendo educação.

4. Onomatopeias: são representações verbais de sons, apresentados em grandes caracteres, são as unidades sonoras dos quadrinhos.

5. O timing (do inglês “tempo”): é a capacidade de comunicar a passagem do tempo através das imagens, sendo que é o autor que determina a velocidade em que a história é contada. Veja abaixo o exemplo da publicação Quadrinhos: guia pratico da

Unirio:

Figura 7: Blog das Figuras de Linguagem.

Uma ação representada por vários quadros, estendendo assim o tempo da ação.

Agora a mesma ação representada por apenas dois quadros, aumentando a velocidade da ação.

Figura 8 e 9: Quadrinhos: guia prático.

6. O letreiramento: é o elemento que, através de modificações na fonte do quadrinho, ajuda a contextualizar o quadrinho, acentuar palavras ou dar ênfase a determinadas ações. Sendo assim, a forma, o tamanho e a disposição das falas nos quadros também são fatores de comunicação ao leitor. Veja os exemplos abaixo:

7. O narrador: por fim, o ultimo elemento que iremos ressalta é o narrador; muitas historias em quadrinhos se utilizam de um personagem invisível que pode assumir diversas funções na estória, seja de introduzir o leitor, tirar conclusões ou mesmo contar a história. O narrador em geral se apresenta em um balão sem rabisco, fora do balão ou mesmo fora do quadrinho, como exemplificado abaixo:

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