15 - 2007 Vez e Voz na linguagem

15 - 2007 Vez e Voz na linguagem

(Parte 1 de 3)

Vez e voz na linguagem: o sujeito sob efeito de sua fala sintomática

Maria Francisca Lier-DeVitto

Suzana Carielo da Fonseca Rosana Landi

RESUMO:“Vez e voz na linguagem” é expressão que refere a condição na qual o sujeito falante supõe poder controlar a própria fala. Este texto procura problematizar a inversão imaginária produzida pela presença de sintoma na fala, numa reflexão que coloca em cena oefeito “social” – de marginalização/isolamento – que se produz na escuta do outro e o efeito de “destituição subjetiva” – de perda de vez e voz – que se produz na escuta do próprio falante. Afasias e demências – quadros clínicos que incidem na velhice – são discutidas de um ponto de vista lingüístico e são traçadas diferenças relativas às manifestações sintomáticas e seus efeitos subjetivos. Nessa perspectiva é que se apresentam, de um lado, a “clínica de linguagem” como espaço de tomar a vez e a voz e, de outro lado, o de “centros de convivência” como espaços privilegiados de inclusão social. Palavras-chave: afasia; demência; linguagem.

ABSTRACT: The title of this paper contains an expression (“Vez e voz na linguagem”) which, in Brazilian Portuguese, refers to the assumption, held by every speaker, according to which he/ she has total control over his/her own speech. The presence of a symptom in speech, however, exposes – and subverts – the imaginary nature of this supposed control over speech. This fact, as well as its social and subjective effects on the speaker, is discussed. Pathological conditions usually associated with ageing – such as aphasia and dementia – are brought to discussion and interpreted from a linguistic point of view, which enables the establishment of differences between them. This leads to the development of language therapy as a field which aims at giving back to the patient with speech symptoms the possibility of sustaining his/her position of speaker, and also to the development of “community centers” as privileged mechanisms for social insertion. Keywords: aphasia; dementia; language.

revista Kairós, São Paulo, 10(1), jun. 2007, p. 19-34

20Maria F. Lier-DeVitto, Suzana C. da Fonseca e Rosana Landi

Este texto tem como ponto de partida a seguinte indagação: o que significa ter “vez e voz na linguagem”? Entendemos que essa expressão refere a condição de um falante de poder sustentar-se na ilusão de “estar em controle” de sua própria fala. Nessa perspectiva, uma fala sintomática produziria como efeito a perda de “vez e voz” e, conseqüentemente, da ilusão de ser centro e senhor do dizer. No âmbito dessa reversão imaginária, o sujeito tem que se haver com as duas faces de uma mesma verdade, qual seja: a de que a língua lhe é anterior e a de que ela permanece para além de sua existência.1 Note-se, então, que a constante em relação à subjetividade é que ela não é livre no que diz respeito à linguagem. Proposição que norteia as investigações que se realizam no grupo de pesquisas “Aquisição, Patologias e Clínica de Linguagem” (CNPq), do qual participamos.2

Tendo em vista tal proposição, qual seria a diferença subjetiva entre falas “normais” e falas “sintomáticas”? Comecemos pela consideração de que, numa fala dita “normal”, a presença de embaraços e tropeços – “o incessante tecido de nossas conversações” (Milner, 1978, p. 13) – não abala a ilusão de controle e autonomia em relação à linguagem. Mas, quando o que está em causa é a manifestação de sintoma na fala, rompese essa ilusão, porque há um esgarçamento notável para os outros falantes e não-superável pelo próprio sujeito. Assim, um efeito “social” de marginalização/estigmatização/isolamento se produz na escuta do outro e um efeito de “destituição subjetiva” – de perda de vez e voz – produzse na escuta do próprio falante. Segundo Lier-DeVitto,

[...] o sintoma diz de uma diferença profunda, de uma marca na fala que [...] implica o próprio falante e o isola dos outros falantes de uma língua (Lier-DeVitto, 1999, 2002). Quero dizer que se

1Descoberta que se deve a Saussure (1991), lingüista que reconheceu que há um funcionamento universal que subjaz à manifestação de qualquer língua. Esse sistema, denominado “língua”, comporta dois modos de arranjo: paradigmático – relações que se estabelecem in absentia entre as entidades lingüisticas e têm como base as operações de seleção/substituição – e sintagmático – relações in praesentia que se baseiam na combinação das entidades tendo como base a contigüidade. 2O referido grupo de pesquisas desdobrou-se do Projeto Integrado “Aquisição e Patologias da Linguagem” (CNPq 522002/97-8), coordenado pela profa. Dra. Maria Francisca Lier-DeVitto, no Lael/PUC-SP.

revista Kairós, São Paulo, 10(1), jun. 2007, p. 19-34 uma fala produz efeito de patologia na escuta do outro, essa escuta tem efeito bumerangue: afeta aquele que fala. Da noção de sintoma participam, portanto, o ouvinte, que não deixa passar uma diferença e o falante, que não pode passar a outra coisa. (2002, p. 145)

A presença de sintoma na fala, como afirma a autora, descostura o laço social porque coloca em cena uma fratura, tanto na ilusão de semelhante quanto no imaginário de que se é o senhor da palavra. Antes de oferecermos propriamente uma definição para “fala sintomática” – que é sempre teoricamente instruída –, vejamos alguns segmentos extraídos da transcrição de sessões de atendimento fonoaudiológico (T = terapeuta; P = paciente):

Segmento 1:

P. Ana? Eles dois, ahnfi ... o Elton ... a mãe, a Ana, é a mãe do
P. O João
T. O João
P. E a Ana, o Elton, né? É oa mãe do Elton ...ele, a mãe dele.

(terapeuta e uma criança falam sobre um passeio) T: Você foi, foi, foi com quem no casamento? P. Eu, meu pai, o João, pai dele, né? A Ana, minha mãe, e o meu irmão e o primo do meu irmão, o Elton, né? Que se chama e eu. T: Quem é o João? E a Ana? Elton. O pai, é o pai do Elton. Aí minha mãe é meu pai do meu irmão, né? Só, aí e a Ana e o João, ó. Eles têm um filho, né? Um filho, o Elton. Aí são ele mermo. T. Entendi nada de nada, Vã.

Segmento 2:

(terapeuta e uma menina de 8 anos, ao entrar na sala de terapia) T. O seu pai veio com você? P. Veio T. Vocês vieram de ônibus? P. Não.

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22Maria F. Lier-DeVitto, Suzana C. da Fonseca e Rosana Landi

P. Éele está trabalhando.

T. O seu pai trouxe você de carro? T. Trabalhando?! O que o seu pai faz? P. Ele faz de propósito.

Segmento 3:

P. Éé verde.

(terapeuta e uma menina de 8 anos) T. Você assiste TV? P. Sim. T. Você tem televisão a cores?

Dois aspectos chamam especialmente a atenção nos segmentos acima: (1) é sintomática uma fala na qual se manifesta um desarranjo persistente na articulação significante (falas inconclusas, elípticas, reiterativas, truncadas); (2) é sintomática uma fala que, de alguma forma, está “fora de tempo”, “fora de lugar” (Lier-DeVitto, 2002) ou ambas as coisas, ou seja, uma fala que sempre frustra uma expectativa no instante em que é proferida. Isso significa, de acordo com Lier-DeVitto, que “o acontecimento sintomático (da criança ou do adulto) diz [...] de um tempo outro – o tempo da insistência, que se manifesta numa repetição sem fim nem finalidade [...] é esse tempo estrutural que a escuta dos ouvintes capta” (p.147). Não é sem razão que a autora indaga: “de que vale, com efeito, a idade cronológica se o problema é o de uma insistência numa posição na linguagem?” (ibid).

Mas, se é fato que uma fala sintomática sempre agride a escuta do outro, produzindo marginalização, não se pode perder de vista que o falante, marginalizado, tem uma demanda dirigida à clínica: a de recuperar “vez e voz” na linguagem. Demanda que, é preciso que se diga, supõe uma crença na potência de uma escuta outra – que não a do falante leigo –, que lhe restitua a condição de falante “pleno” de uma língua. Essa escuta é diferente da escuta intuitiva, que não pode ultrapassar o reconhecimento de uma, digamos, diferença na fala. A escuta clínica é uma escuta “especializada” porque teoricamente instituída e, por isso, capaz de apreender numa fala aquilo que subjaz ao seu efeito sensível imediato.

revista Kairós, São Paulo, 10(1), jun. 2007, p. 19-34

Para Arantes, por exemplo, no diagnóstico de linguagem “é preciso ir além das descrições [...] é preciso uma noção de língua-fala-falante que permita produzir um diagnóstico para um sujeito” (2006, p. 325). Na escuta do clínico de linguagem articulam-se, portanto, o geral das leis de funcionamento da língua e o particular da produção de um sujeito (Andrade, 2000). A escuta “especializada” é atingida, então, como conseqüência de um compromisso com uma teoria que torne possível a apreensão do singular em meio à heterogeneidade de manifestações de falas sintomáticas (Lier-DeVitto e Arantes, 1998; Arantes, 2001; Andrade, 2006).

Estabelecemos, por essa razão, uma clara oposição entre escuta e procedimentos terapêuticos padronizados. Isso porque esses últimos abordam o sintoma na fala como “entidades ‘em si’ e a linguagem como nomenclatura [...] é por isso que a linguagem [...] não ultrapassa os limites da boca e da orelha – fica presa à emissão-recepção, ao observável, que é passível de descrição classificatória” (Arantes, 2006, p. 320). Subjetividades – tanto a do clínico como a do paciente – são, portanto, apagadas, já que todo o saber fica concentrado no instrumento utilizado, seja para fazer o diagnóstico, seja para implementar a terapêutica (Fonseca, 2002; Lier-DeVitto, 2006). A escuta, diferentemente, representa uma afetação no corpo do clínico e, nessa medida, não é um instrumento. Atravessada pela teoria, ela cria uma posição clínica que pode dar “vez e voz” a uma subjetividade prejudicada.

Cabe atentar, ainda, para o fato de que se, na definição de sintoma, como vimos, é indissociável a relação fala/escuta (tanto para a apreensão de efeitos sintomáticos quanto de efeitos subjetivos), há que se considerar peculiaridades no exercício de uma clínica de linguagem com adultos.

A clínica de linguagem com adultos e a questão do envelhecimento

Há acontecimentos clínicos que incidem em adultos, o que pode colocar em cena a questão do envelhecimento. No que diz respeito à linguagem, predominam as afasias e as demências, quadros clínicos que fragilizam o sujeito porque implicam “marginalidade”, tanto de cunho revista Kairós, São Paulo, 10(1), jun. 2007, p. 19-34

24Maria F. Lier-DeVitto, Suzana C. da Fonseca e Rosana Landi familiar quanto social. Se ambos têm como etiologia um acontecimento cerebral, pode-se dizer que, do ponto de vista lingüístico, as afasias ficam mais para o lado da afetação da articulação significante, ao passo que as demências tendem mais para uma fala “fora de tempo” e “fora de lugar”. Para que se esclareça tal afirmação, tomemos, de início, segmentos de falas de uma paciente afásica:

Segmento 1:

, eu cumí, eu cumíeu cumí... ah, eu cumí, eu cumi, cumí.
P.Acaláeu danô/ eu caí, eu cumí dano, quando eu caí, eu caí, eu caí...
eu vi uma mulher, tinha uma, tinha outraaí... ó Deus, ó pra
Deus, ó pá mim DeusÓ Deus, ó pá mim, Deus, meu Deus,

T. A senhora gosta de comer bolo? P. Já, já, já T. Já comeu? P. Já, já T. E a senhora gosta? P. Já, já comi T. Faz tempo que a senhora comeu? P. Já comi, já já, já ouvi, ouvi, eu vi, eu vi, vi T. O quê que a senhora viu? P. Ah, que eu caí, eu caí, aí depois eu comí, eu caí i comí, eu cumí T. O que a senhora comeu? danô, eu caí, a carne eu cumí, eu cumí, daí, eu cumí, cumí, acabô[...] T. O quê que a senhora comeu? P. Aião? T. Comeu o quê? P. De lá, eu vim eu vi, quando eu passei, quando eu ca, eu ca, a mantega, a mantega, eu pá, eu pá, [SI] eu vi, de lá eu fiquei, aí mim, eu caí meu Deus, eu falei: o Deus, olha pra mim, ó Deus – eus, eu caí, ó Deus, todo mundo, todo mundo eu tô cumendo, ó meu, ó pá mim Deus (chora)

lamentaPor isso, a paciente insiste: quer ter “vez e voz”. Como se vê,

Essa fala sintomática mostra que a predominância do desarranjo na articulação significante produz efeitos na escuta da paciente: mesmo frustrada, ela procura sustentar sua fala, dá sinais de sofrimento. Ela chora, ela revista Kairós, São Paulo, 10(1), jun. 2007, p. 19-34

Não é outra a conclusão a que se deve chegar, já que ele não está fora

o que está em causa na afasia é mesmo, como assinala Fonseca, a “presença trágica de um sujeito na linguagem [...] e uma não-coincidência insuperável entre fala-escuta” (2005a, p. 164). A afasia coloca em cena, então, uma cisão profunda – num mesmo sujeito – entre fala e escuta. Cisão que está indissoluvelmente associada a uma cisão subjetiva: o afásico estranha sua “nova” condição de falante. Estranhamento que revela uma certa “nostalgia do passado” (Canguilhem, 1966). Isso porque “no presente, sua unicidade imaginária se encontra refratada” (Fonseca, 2005b, p. 224). Decorre daí seu fracasso em identificar-se não só com os outros falantes, como consigo mesmo. O paradoxal é que ele permanece falante da ordem do simbólico.

A cisão de que estamos falando aqui foi muito bem caracterizada pelo escritor português José Cardoso Pires. Vítima de uma afasia transitória, ele escreveu um livro – De profundis. Valsa lenta – em que relata a experiência traumática de ficar sem vez e voz, traduzida pela seguinte afirmação: “eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa [...] Ele, o Outro. O Outro de mim” (1997, p. 26). Entende-se porque Fonseca (2002) define a afasia como “fala em sofrimento que produz um conflito subjetivo”.

Também é preciso assinalar que, aliada ao estranhamento de si, manifesta-se a impotência de não poder mudar essa “nova” condição de falante. Imbricamento que responde pelo sofrimento que leva o afásico à clínica de linguagem e pelo apelo de mudança que ele dirige ao terapeuta. O que se espera de um clínico é, então, que sua escuta reconheça “um sujeito ao lado do que diz”,3 ou seja, que sua escuta (teoricamente instruída):(1) não ignore que há um texto que não pode ser dito pelo falante. Em outras palavras, que ela possa apreender, na fala fragmentada do paciente, indícios do texto submerso; (2) abra suporte para uma fala/interpretação. A fala do terapeuta, nesse enquadre, corresponde a uma cessão – ele empresta sua voz para que nela ganhe expressão o texto que o paciente não pode dizer. Sobre a clínica de linguagem com afásicos, Fonseca afirma:

3Expressão emprestada de Lacan (2002), quando este, em O seminário 3 (1955-56), tece algumas considerações acerca de pacientes acometidos por afasia.

revista Kairós, São Paulo, 10(1), jun. 2007, p. 19-34

26Maria F. Lier-DeVitto, Suzana C. da Fonseca e Rosana Landi

[...] sua base implica, do lado do sujeito, ‘tomar vez e voz’ e, do lado do terapeuta, que ele suporte e se suporte frente a uma ‘fala em sofrimento’ (Fonseca, 1995). O modo como esse ‘falar’ instancia-se é que determina a interpretação do terapeuta. Interpretação que, portanto, não se realiza à revelia do dizer do paciente mas que incide sobre essa trama significante. (2005b, p. 224)

Se, na afasia, pode-se reconhecer, como dissemos, um “sujeito ao lado do que diz” (Lacan, 2002), as falas de pacientes com demência suscitam questões que têm uma natureza diversa das que foram levantadas até aqui. Comecemos a explorá-las a partir de alguns segmentos de falas de pacientes com demência.

Paciente e terapeuta diante de uma figura que mostra um homem se barbeando no banheiro:4

T. esse maior aqui, ele tem uma coisa diferente(...) olha pracara
deleQuê que ele tem de diferente?
P. diferenteo olho... rosto!
T. olha essa foto aqui direitinhoé espuma de fazer barba... (...)
se ele está com espuma de fazer barbaque lugar é esse aqui...
parece que é um

T. Que lugar é esse da casa? P. não sei. P. futebol T. futebol!? Onde é que as pessoas fazem a barba? P. na barbearia.

À primeira vista, o que chama a atenção na fala desse paciente é a ausência da referência externa: ela, de fato, não faz referência à figura que ele vê – no caso, a de um banheiro. Entretanto, circunscrever o efeito sintomático dessa fala apenas na ausência da referência externa não é suficiente, pois, a nosso ver, deixa fora o ponto em que a diversidade fundamental, entre falas afásicas e falas de demenciados, pode

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