Aptidão agroecológica das terras do estado da paraíba e seu mapeamento com o uso de geotecnologia

Aptidão agroecológica das terras do estado da paraíba e seu mapeamento com o...

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Tecnologias Adaptadas para o Desenvolvimento Sustentável do Semiárido Brasileiro Volume 1

T255Tecnologias adaptadas para o desenvolvimento sustentável do semiárido

Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UFCG brasileiro / Organizadores, Dermeval Araújo Furtado, José Geraldo de Vasconcelos Baracuhy, Paulo Roberto Megna Francisco, Silvana Fernandes Neto, Verneck Abrantes de Sousa. ─ Campina Grande: EPGRAF, 2014. 2 v. 308 p. : il. color.

1. Sustentabilidade. 2. Caatinga. 3. Recursos Naturais
V. Sousa, Verneck Abrantes de. VI. Título

ISBN 978-85-60307-10-4 I. Furtado, Demerval Araújo. I. Baracuhy, José Geraldo de Vasconcelos. I. Francisco, Paulo Roberto Megna. IV. Fernandes Neto, Silvana. CDU 502.15(213.54)

Organizadores

Dermeval Araújo Furtado

José Geraldo de Vasconcelos Baracuhy

Paulo Roberto Megna Francisco

Silvana Fernandes Neto Verneck Abrantes de Sousa

Tecnologias Adaptadas para o Desenvolvimento Sustentável do Semiárido Brasileiro Volume 1

1.a Edição

Campina Grande-PB

Epgraf 2014

Realização Apoio

Livro confeccionado com recursos oriundos do CNPq referente ao Edital n. 35/2010

Revisão e Editoração: Paulo Roberto Megna Francisco

Arte da Capa: AGTEC.JR 1.a Edição 1ª. Impressão (2014): 1.0 exemplares

Epgraf

Av. Assis Chateaubriand, 2840 Distrito Industrial - Campina Grande – PB

Paulo Roberto Megna Francisco

Djail Santos

Ziany Neiva Brandão Roseilton Fernandes Flávio Pereira de Oliveira

O uso adequado da terra deve ser o primeiro passo em direção, não apenas a uma agricultura correta e sustentável, mas também à conservação dos recursos naturais, especialmente o solo, a água e a biodiversidade (Pereira et al., 2007). Sob a ótica agroecológica, a avaliação da aptidão agrícola reveste-se de grande importância, pois se sabe que historicamente a ocupação agrícola das terras tem ocasionado problemas ambientais, decorrentes não só do uso indevido de áreas frágeis, mas também da sobre utilização de terras, resultando em problemas de degradação de agroecossistemas ocorrendo a perda de competitividade do setor agrícola (Curi et al., 1992). Para Wiren-Lehr (2001), os sistemas de produção agrícola sustentável devem combinar produtividade e estabilidade ecológica.

O Sistema de Avaliação da Aptidão, por sua vez, é uma metodologia de classificação das terras. No Brasil, iniciou-se na década de sessenta (Bennema et al., 1964), numa tentativa de classificar o potencial das terras para agricultura tropical (Pereira et al., 2006). Os mais conhecidos e utilizados, para fins de planejamento do uso da terra são os da Aptidão Agrícola das Terras, desenvolvido pela EMBRAPA (Ramalho Filho & Beek, 1995) e o de Capacidade de Uso, originalmente desenvolvido nos EUA e adaptado às condições brasileiras (Lepsch et al., 1996).

Essa metodologia enquadra-se na modalidade de classificações técnicas ou interpretativas, nas quais as terras são agrupadas de acordo com suas potencialidades, relacionadas com o tipo de utilização que se quer dar. Diante desse contexto, ressalta-se a relação estreita existente entre a Agroecologia e a Avaliação da Aptidão das Terras, como norteadoras para o desenvolvimento da agricultura sustentável (Pereira et al., 2006). A partir dos dados contidos nos mapas pedológicos podem ser realizados trabalhos interpretativos distintos como: planejamento do uso da terra para fins agrícola, pecuário e florestal; planejamento de recuperação de áreas degradadas; dentre outros (Araújo Filho et al., 2013).

Atualmente a geotecnologia destaca-se pela possibilidade de leitura e análise a partir da coleta de informações sobre as características das propriedades e seus recursos, e na atualidade, com o avanço da informática e a disponibilização de programas computacionais para estudos de análise ambiental, a ferramenta tecnológica que mais cresce, está ligada ao geoprocessamento, com a utilização de um sistema de informação geográfica. Tendo em vista a importância da informação espacializada, os programas de SIG estão cada vez mais oferecendo uma maneira rápida para realizar trabalhos visando à gestão dos recursos naturais, sendo um agente facilitador na tomada de decisão (Gianezini & Saldias, 2010; Duarte & Barbosa, 2009; Sá et al., 2010; Sá et al., 2012; Francisco et al., 2012).

Portanto este trabalho tem o objetivo de elaborar a Aptidão

Agroecológica das Terras do Estado da Paraíba, visando identificar e quantificar áreas através do mapeamento para auxiliar na ocupação racional do solo e manejo adequado dos recursos naturais, com isso aumentando a eficácia das decisões em busca de um desenvolvimento sustentável.

A área de estudo compreende o Estado da Paraíba que está localizado na região Nordeste do Brasil, e apresenta uma área de 56.439,84 km², correspondendo a 3,63% da área da região Nordeste. Está situado entre as latitudes de 06º00’1,1” e 08º19’54,7” sul, e as longitudes de 34º45’50,4” e 38º47’58,3” oeste. Limita-se ao norte com o Estado do Rio Grande do Norte; a leste, com o oceano Atlântico; a oeste, com o Estado do Ceará; e ao sul, com o Estado de Pernambuco (PARAÍBA, 2006).

Para facilitar a espacialização dos dados deste trabalho, são apresentadas as regiões e sub-regiões geográficas do Estado (Figura 1) que guardam uma estreita relação com a ocorrência dos solos e a ocupação e uso das terras (Francisco et al., 2012).

A Tabela 1 contém uma síntese descritiva dos atributos naturais dos espaços geográficos da área de estudo que foi extraída de BRASIL (1972), apresentando uma descrição dos atributos das regiões e sub-regiões geográficas do estado.

Tabela 1. Descrição dos atributos das regiões e sub-regiões geográficas

Alto Sertão (Clima Aw′)

Precipitação: 700 a 900 m; Temperatura: 21 a 32C; Altitude: 400 a 700 m; Relevo: plano a ondulado e montanhoso; Geologia: pré-cambriano (B) - xistos e filitos e (CD) - gnaisses e migmatitos; Solos: pouco desenvolvido (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo ondulado a montanhoso e Vertissolos relevo plano; e solos com B textural - Argissolos e Luvissolo Crômico. Em geral, argila de atividade média a alta e eutróficos; Vegetação: caatinga hiper e hipoxerófila

Baixo Sertão de Piranhas (Climas Aw′ e Bsh )

Precipitação: 400 a 700 m; Temperatura: 21 a 32C; Altitude: 250 a 400 m; Relevo: suave ondulado a ondulado; Geologia: pré-cambriano (CD) gnaisses e migmatitos; pré-cambriano (B) xistos e filitos e plutônicas ácidas - granitos; Solos: pouco desenvolvido (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo ondulado; com B textural - Argissolo e Luvissolo Crômico; solos pouco desenvolvido (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo forte ondulado a montanhoso; Vegetação: caatinga hiperxerófila

Sertão do Seridó (Clima Bsh)

Precipitação: 400 a 600 m; Temperatura: 21 a 32C; Altitude: 300 a 600 m; Relevo: suave ondulado a montanhoso; Geologia: pré-cambriano (B) – xistos e filitos e quartzitos com muscovita, e plutônicas ácidas - granitos; Solos: pouco desenvolvido (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo forte ondulado e montanhoso; com B textural - Bruno Não-Cálcico suave ondulado a ondulado de gnaisses e granito; Vegetação: caatinga hiperxerófila

Cariris de Princesa (Clima Aw′)

Precipitação: 600 a 800 m; Temperatura: 18 a 29C; Altitude: 500 a 700 m; Relevo: suave ondulado a montanhoso; Geologia: pré-cambriano (CD) e (B) - gnaisses e migmatitos, e xistos e filitos e plutônicas ácidas - granitos; Solos: com B textural e latossólico – Argissolos e Latossolos; pouco desenvolvidos (A/R e A/C) – Neossolos Litólico e Regolítico e com B incipiente – Cambissolo; Vegetação: caatinga hipoxerófila, floresta caducifólia e subcaducifólia

Cariris do Paraíba (Clima Bsh)

Precipitação: 300 a 600 m; Temperatura: 19 a 29C; Altitude: 300 a 700 m; Relevo: suave ondulado a ondulado (frente do Planalto: solos litólicos relevo forte ondulado a montanhoso); Geologia: précambriano (CD) - gnaisses e migmatitos, e plutônicas ácidas - granitos; Solos: com B textural - Luvissolo Crômico Vértico, Planossolo Nátrico e pouco desenvolvidos (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo ondulado a forte ondulado. Vegetação: caatinga hiperxerófila

Curimataú (Clima Bs )

Precipitação: 300 a 600 m; Temperatura: 20 a 30C; Altitude: 300 a 600 m; Relevo: ondulado e forte ondulado; Geologia: pré-cambriano (B) xisto e filito e (CD) - gnaisses e migmatitos; Solos: pouco desenvolvidos (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo ondulado a forte ondulado e com B textural – Luvissolo Crômico; Vegetação: caatinga hiper e hipoxerófila

Serras (Climas Bsh e As′)

Precipitação: 600 a 1200 m; Temperatura: 19 a 29C; Altitude: 400 a 650 m; Relevo: plano a montanhoso; Geologia: pré-cambriano (CD) - gnaisses e migmatitos e terciário – Série Serra do Martins; Solos: pouco desenvolvidos (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo ondulado a forte ondulado e com B latossólico - Latossolo; Vegetação: caatinga hiper e hipoxerófila, e floresta subcaducifólia

Brejo (Clima As′)

Precipitação: 1200 a 1500 m; Temperatura: 18 a 27C; Altitude: 400 a 650 m; Relevo: ondulado a forte ondulado e montanhoso; Geologia: pré-cambriano (CD) - gnaisses e migmatitos e terciário – Formação Bananeiras; Solos: com B textural e latossólico – Argissolo e Latossolo; pouco desenvolvidos (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo forte ondulado; Vegetação: floresta subperenifólia e subcaducifólia

Agreste (Clima As′)

Precipitação: 800 a 1200 m; Temperatura: 18 a 28C; Altitude: 400 a 650 m; Relevo: suave ondulado a ondulado; Geologia: plutônicas ácidas – granito e pré-cambriano (CD) - gnaisses e migmatitos; Solos: pouco desenvolvidos (A/C) Neossolo Regolítico e com B textural – Luvissolo Crômico; Vegetação: floresta subcaducifólia e caducifólia e caatinga hipoxerófila

(Clima As′)

Precipitação: 650 a 1000 m; Temperatura: 21 a 31C; Altitude: 100 a 350 m; Relevo: suave ondulado a forte ondulado; Geologia: pré-cambriano (CD) - gnaisses e migmatitos; Solos: com B textural – Luvissolo Crômico e pouco desenvolvidos (A/R e A/C) – Neossolo Litólico em relevo ondulado e forte ondulado; Vegetação: floresta caducifólia

Tabuleiros (Clima As′)

Precipitação: 10 a 1600 m; Temperatura: 21 a 31C; Altitude: 50 a 250 m; Relevo: plano; Geologia: terciário – formação grupo barreiras e holoceno - sedimentos marinhos; Solos: com B textural – Argissolo e com B latossólico – Latossolo e pouco desenvolvido – Neossolo Quartzarênico e Espodossolo; Vegetação: floresta subperenifólia, perenifólia e subcaducifólia e cerrados

Várzeas (Clima As′)

Precipitação: 10 a 1600 m; Temperatura: 21 a 31C; Altitude: 0 – 100 m; Relevo: plano; Geologia: holoceno – sedimento fluvial e marinho; Solos: Neossolos Flúvicos, restingas, dunas e mangues; Vegetação: floresta perenifólia de várzea e de restinga, e mangues e campos de várzea

Fonte: Francisco et al. (2012) adaptado de BRASIL (1972).

Figura 1. Regiões geográficas segundo os limites naturais. Fonte: Adaptado de Francisco (2010); BRASIL (1972).

As classes predominantes de solos área de estudo (Figura 2) estão descritas no Zoneamento Agropecuário do Estado da Paraíba (PARAÍBA 1978), e estas diferem pela diversidade geológica, pedológica e geomorfológica; atendendo também a uma diversidade de características de solo, relacionadas à morfologia, cor, textura, estrutura, declividade e pedregosidade e outras características, justificada pelo fato de que no semiárido o tipo de solo determina a dinâmica da água quanto à drenagem, retenção ou disponibilidade, condicionando, por conseguinte os sistemas de produção agrícola.

Figura 2. Mapa de solos do estado da Paraíba. Fonte: Francisco et al. (2012a).

Na realização deste trabalho foi utilizada a base de dados de

Francisco et al. (2013) desenvolvida no software SPRING 5.2 na projeção/Datum UTM/SAD69, onde consta o mapa de solos do estado conforme PARAÍBA (2006) (Figura 2).

Com o objetivo da realização do Zoneamento Agroecológico foi utilizada uma adaptação da metodologia desenvolvida pela EMBRAPA (2012), que tem a proposta de indicar áreas com vocação preferencial para lavouras, pecuária, silvicultura, e preservação ambiental, em condições não irrigadas, elaborando assim a interpretação do potencial dos solos (potencial edáfico) e avaliação de condição pluviométrica do ambiente, inferida com base na vegetação primária. Nesta metodologia considera-se como potencial preferencial para preservação ambiental, áreas sem aptidão para usos mais intensivos; e terras de alto potencial também podem ser destinadas à preservação ambiental.

A obtenção do Potencial Edáfico foi realizada através das unidades de mapeamento do mapa de solos de PARAÍBA (1978) e suas informações disponíveis na chave de interpretação, onde foi realizada a interpretação dos fatores limitantes conforme a Tabela 2, e classificados conforme a Tabela 3.

Observa-se que a cor das classes é em função do potencial dominante na unidade de solo observada, e as subclasses sendo representados apenas os dois primeiros fatores limitantes, na ordem decrescente do grau de limitação. Para um mesmo grau de limitação, é obedecida a sequência da ordenação dos fatores limitantes e para isso utilizam-se as letras.

Tabela 2. Requerimentos das classes de potencial edáfico

Características do solo e ambiente (fatores limitantes)

Terras Agricultáveis Silvicultura e Pastagem Flora e Fauna

Muito Bom (M)

Bom (B)

Regular (R)

Temerário (T)

Uso alternativo (S, P e N)

Preservação (F) profundidade efetiva - h fertilidade natural - f

Sat com Al

(100 Al/Al+H) < 50 < > 50 < > 50 < > 50 < > 50 < > 50 textura – t (% argila) 15-35 < 15; drenagem interna - d risco de inundação - w nula eventual mod. a frequente frequente muito frequente constante sodicidade - n risco de erosão - e Não

Aparente ligeira moderada severa muito severa Extremamente severa

Tabela 3. Legenda do potencial edáfico

Legenda Terras agricultáveis indicadas para o uso com culturas anuais e perenes Classe

M Terras agricultáveis de potencial muito bom Muito Boa B Terras agricultáveis de potencial bom Boa R Terras agricultáveis de potencial regular Regular T Terras agricultáveis de potencial restrito Temerária

Terras não agricultáveis ou de uso especial

S Terras não agricultáveis preferencialmente indicadas para silvicultura Silvicultura

P, N Terras não agricultáveis preferencialmente indicadas para pastagem plantada e natural Pastagem P, N

F Terras não agricultáveis preferencialmente indicadas para preservação natural de flora e fauna

Preservação Flora e Fauna

Fonte: Adaptado de EMBRAPA (2012).

A avaliação da condição pluviométrica foi realizada, pela aferição dos dados da vegetação primária, obtidas pelas informações contidas nas unidades de solos e elaborado um mapa classificado conforme a Tabela 4.

Tabela 4. Dados do tipo de vegetação correspondente ao tipo de clima e dados pluviométricos

Legenda Tipo de clima Tipo de vegetação Pluviosidade

Período de seca (meses)

Perúmido Floresta Perenifólia 2.0 - 2.500 1 a 3 Úmido Floresta Subperenifólia 1.500 - 2.0 3 a 4

Semiúmido Floresta Subcaducifólia 1.200 - 1.500 3 a 4

Úmido e Semiúmido de Altitude

Floresta Subperenifólia e

Subúmida Floresta Caducifólia 800 - 1.200 4 a 6 Transição mais seco Floresta Caducifólia/Caatinga 800 - 1.200

Semiárido Atenuado Caatinga Hipoxerófila 600 - 800 6 a 7

Semiárido Acentuado Caatinga Hiperxerófila 400 - 600

Semiárido de

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