Aguapé (Eichhornia crassipes) : Uma alternativa alimentar para bovinos de pequenas propriedades no perímetro da represaBillings - Estado de São Paulo, Brasil

Aguapé (Eichhornia crassipes) : Uma alternativa alimentar para bovinos de...

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Aguapé (Eichhornia crassipes):

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I Docentedo Cursode MedicinaVeterináriada Universidadedo GrandeABC. 2 Alunosdo Cursode MedicinaVeterináriada Universidadedo GrandeABC.

ISSN 1516-3326

'Praça Aquiles de Almeida nO 90

CEP 04149-070 - São Paulo - SP e-mail: mauricio@uniabc.br

A Eichhornia crassipes (Aguapé) é uma planta aquática distribuída por toda a extensão do território brasileiro. Suas raízes possuem a capacidade de filtrar poluentes da água onde se desenvolve. Seus bulbos e folhas prestam-se à alimentação animal. Por sua propagação agressiva tem-se a necessida- de de controlar a sua expansão de forma a proteger os recursos hídricos. A represa Billings, no

Estado de São Paulo, apresenta áreas onde o aguapé se desenvolve naturalmente. Pequenos produtores de leite na proximidade não se utilizam deste recurso natural para a alimentação dos animais; diante disso, o presente trabalho objetiva apresentar o aguapé como alternativa para alimentação de bovinos destas regiões, sem que haja implemento na degradação ambiental e, simultaneamente, controlando-se a sua demasiada capacidade reprodutiva.

Palavras-chave: aguapé, bovinos, alimentação.

Introdução

AEichhornia crassipes, também conhecida por aguapé, baronesa, jacinto d'água ou rainha-dos-Ia- gos, dentre tantos outros nomes, é uma planta aqu- _ ática originária da América Central (SILVA et aI.,

1978; KWAI et aL., 1986).

Aguapé é uma palavra que tem origem no idioma dos índios tupis (significa redondo e chato) e transformou-se num dos nomes populares atribuídos a uma vasta quantidade de plantas aquáticas e flutuantes de diversas famílias que possuem folhas arredondadas e chatas. A Eichhornia crassipes (Figura I) é uma destas espécies e é considerada, dentre todas, a de maior expansão vegetativa (CORRÊA, 1984).

GARCIA, M.; KLAJ, A.; MARCUSSO, C.; ANDRETIA, I. C. C. Aguapé (Eichhomia crassipes): Uma alternativa alimentar para bovinos de pequenas propriedades no perímetro da represa BiJlings . Estado de São Paulo, Brasil. I Pond lily (Eichhornia crassipes): a food alternative for caule in small fanns dose to the Billings dom - State Df São Paulo, Brazil. Rev. educo contin. CRMV-SP I Continuous Education Joumal CRMV·SP, São Paulo, volume 3, fascículo 3, p. 37 - 43, 2000.

Originária da América Central, essa planta, que se desenvolve bem em água doce de rios, lagos ou represas, expandiu-se para zonas tropicais e subtropicais, chegando a produzir 212 toneladas de matéria seca por hectare/ ano em águas poluídas (SILVA et al., 1978; KWAI et al., 1986). Pode ser confundida com a Eichhornia azurea, planta da mesma fanulia e com semelhante potencial de aproveitamento que é encontrada desde o México até a Argentina, porém não tão produtiva quanto a E. crassipes (VEITENHEIMER-MENDES, 1993).

Em reservatórios de geração de energia elétrica essa demasiada produtividade necessita de controle. É comum o uso de herbicidas, o que provoca a redução dos teores de oxigênio dissolvido na água durante a decomposição da planta, alterando o fitoplancton e o zoo-

Figura 1. Reprodução fotográfica da Eichhornia crassipes - planta do acervo do herbário do Instituto de Botânica de São Paulo plancton, desencadeando conseqüências negativas à cadeia ecológica e contaminando o ambiente. Uma forma de controle não poluente, embora pouco produtiva, é a retirada mecânica da planta do meio aquático (STRANO, 1987; GELMINI, 1996).

Os corpos d'água cuja superfície se revestem de aguapé apresentam menores índices de variação térmica, porém, em contrapartida, a perda por evapotranspiração aumenta entre 50 e 300%, quando comparada com corpos d'água livres desta cobertura vegetal, condição que inspira preocupação principalmente nos meses de estiagem e quando se tratam de reservatórios de água para consumo (STRANO, 1987).

Sua agressiva expansão vegetativa e significativa produção de matéria seca, aliadas ao fato de ser palatável a algumas espécies animais de interesse econômico, inclusive bovinos, toma essa planta uma espécie passível de aproveitamento econômico nas regiões aonde se desenvolve com sua agressividade natural e se faz necessário um controle de sua expansão.

Aspectos botânicos

A Eichhornia crassipes possui um caule curto e um tufo de raízes finas e pilosas que podem atingir até 60 cm de comprimento (Figuras 1 e 2). Suas raízes são responsáveis pela filtração de poluentes das águas e local de desova, abrigo e alimento para algumas espécies de peixes (RIBEIRO et ai., 1986; LORENZI, 1991), podendo abrigar também o caramujo hospedeiro intermediário das cercárias do Schistosoma, transmissor da esquistossomose (URQUHART et aI., 1998). Sua inflorescência apresenta-se em espigas de 8 a 15 cm e de 8 a 38 flores por inflorescência (LORENZI, 1991). As flores são arroxeadas com desenhos mais escuros e uma mácula amarela no lábio inferior. Floresce de janeiro a fevereiro (HOEHNE, 1979), sendo considerada bastante decorativa (GEMTCHUJNICOV, 1976). Suas folhas são arredondadas, chatas e dispostas em rosetas com longos pedolos esponjosos e inflados que permitem a flutuação (HOEHNE, 1979; LORENZI, 1991).

Considerada como a mais séria planta daninha aquática do país e com potencial de aumento de área de 15% ao dia, sendo capaz de dobrá- la em apenas seis ou sete dias, pode produzir 480 toneladas/ha/ano, de massa verde (LORENZI,

1991). SILVA et ai. (1978) relatam uma expres-

GARC1A. M.; KLAI. A.; MARCUSSO. c.; ANDRETIA. C. C. Aguapé (Eichhornia crassipes): Uma alternativa alimentar para bovinos de pequenas propriedades no perímetro da represa Billings - Eslado de São Paulo, Brasil. I Pond li/y (Eichhornia crassipes): a food a/temative for caule in s",o// fonns c/ose to the Billings dom - State of São Pau/o. Braú/. Rev. eduCo contin. CRMV-SP I Continuous Ed14cQtionJ014rna!CRMV-SP. São Paulo. volume 3, fascículo 3. p. 37 - 43. 2000.

Figura 2. Eichhornia crassipes, recolhida junto a represa Billings em fevereiro de 2000.

iva produção de 212 toneladas de matéria seca por hectare/ano quando em águas poluídas mas ricas em nutrientes.

A E. crassipes multiplica-se a partir de estolhos ou sementes, que podem ficar dormen- tes na água por um período de até quinze anos e agrupam-se em colônjas, formando ilhas flutuantes. Eventualmente pequenas porções dos aglomerados maiores podem desprender-se e deslocar-se com o vento, ou com o movimento das águas, indo formar nova colônja noutro local do lago, rio ou represa (HOEHNE, 1979; CORRÊA, 1984).São também potencialmente danosas aos sistemas de geração de energia elétrica das barragens.

Alcançando a América do Sul, essa planta espalhou-se por mais de 50 países do mundo (KWAl, 1986). Foi levada para o continente asi- ático como planta ornamental, chegou a ser considerada uma praga na Flórida (EUA), Austrália, Índia, Birmânia, Congo, Brasil e outros países, em função dos danos causados aos sistemas hídricos, absorvendo consideráveis somas no seu controle (CORRÊA, 1984; KWAl et al.,

1986). Pode infestar canais de irrigação e rios, dificultando o fluxo, provocando estagnação das águas e formação de brejos (GEMTCHUJN1-

COV, 1976). A sua abundância no território nacional, aliada às suas características de fácil propagação, capacidade filtrante das raízes, possibilidade de utilização para fabricação de rações, compostos orgânicos e biogás, levou alguns pesquisadores brasileiros a realizar experimentos, objetivando o tratamento do esgoto doméstico pelo aguapé e a exploração de todo o potencial da planta, inclusive na alimentação humana (SILVA et al., 1978; CARVALHO, 1984; RIBEIRO el al., 1986; KWAI el al.,

Uso comercial

STRANO (1987) refere que a partir do suco extraído da massa seca do aguapé, e posterior eliminação da umidade, é possível obter-se um farelo insípido constituído em cerca de 5% por proteína, com potencial de utilização na alimentação humana ou animal.

Segundo Corrêa (1984), a Eichhornia crassipes é utilizada na engorda de suínos na Birmânia e provoca uma alteração para melhor no sabor da carne.

KWAI et alo (1986) relatam a utiljzação da Eich- hornia crassipes desidratada na alimentação de coelhos de corte, frangos de corte e galinhas poedeiras apontando a planta como fonte segura de xantofilas, o que melhora a coloração da gema dos ovos.

Rebanhos bovinos de criação extensiva na ilha de

Marajó e no Mato Grosso do Sul consomem a planta como forrageira, colhendo-a diretamente em áreas alagadas, dentro do perímetro de suas áreas de pastagem (CORRÊA, 1984).

LORENZI (1991) destaca uma produção de 480 toneladas/ha/ano de massa verde. SILVA et ai. (1978) relatam que sua produção é de 212 toneladas de matéria seca por ha/ano quando em águas poluídas mas ricas em nutrientes. Produção bastante superior à das forrageiras utilizadas na pecuária.

GARCIA, M.; KLAI. A.; MARCUSSO, C.; ANDRETIA. I. C. C. Aguapé (Eichhornia crassipes): Uma alternativa alimentar para bovinos de pequenas propriedades no perímetro da represa Billings - Estado de São Paulo, Brasil. I Pond lily (Eichhomia crassipes): a [ood altemative for caltle in small famls dose to the 8i1lings dam • State of São Palllo, Brazil. Rev. eduCo contin. CRMV-SP I ComimtOllsEdllcationJaumol CRMV·SP, São Paulo, volume 3. fascfculo 3, p. 37 - 43. 2(0),

Figura 3. Eichhomia crassipes, represa Billings, Ribeirão Pires (SP), fevereiro de 2000.

A Brachiária decumbens pode produzir 45 toneladas/halano de massa verde (NATERRA, 2000). Em

XAVIER et aI. (1998) a B. decumbens constitui 30% das áreas de pastagens cultivadas no país e produz 0,87 e 2,3 toneladaslhalmês de matéria seca nos períodos da seca e das águas respectivamente. Em CAPRIO et alo (1999) a B. decumbens é considerada, dentro do gênero, a espécie de maior potencial produtivo.

O girassol cultivado para silagem atinge uma produção de 70 toneladaslhalano, sendo que 25,42% dessa massa resulta em matéria seca (KOGA, 1999).

Um hfbridoproduzido a partir do cruzamento do capim elefante (Pennissetum purpureum) com o mi- Iheto (Pennisetum glau- cum), pode produzir até 50 toneladas/halano de maté- ria seca com teores de protefna bruta de 8 a 18% (PRUDENET, 2000).

Cerca de 85% da massa do aguapé é constituída de água, sendo seu teor de proteína muito variável em função das condi- ções da água em que se desenvolve. SILVA et alo (1978) relatam valores de 4,9 a 6,4% de proteína bruta, de 4,3 a 5,2% de fibra e de 4,6 a 5,7% de cinzas (Tabela 1), numa produção de 4 toneladas de biomassa molhadalhaldia, além de alta proporção em peso seco de carbono, hidrogênio, nitrogênio, potássio, sódio, cálcio, fósforo, enxofre, magnésio, ferro, zinco e manganês.

CORRÊA (1984) aponta que as cinzas representam apenas I% do peso da planta verde e que, dentre seus constituintes, estão 28,7% de potássio,

21% de cloro, 12% de cal, 7,0% de anidrido fosfórico, 1,8% de soda e 0,59% de magnésio. A planta verde contém também 1,28% de azoto. KWAI et alo (1986),

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Tabela 1. Composição bromatológica do aguapé (E. crassipes) a partir do farelo desidratado. CERVANTES

(*) Apud KWAI ef aI. (1986)

GARCIA. M.; KLAI, A.; MARCUSSO. c.; ANDRETIA, I. C. C. Aguapé (Eichhomia crassipes): Uma alternativa alimentar para bovinos de pequenas propriedades no perímetro da represa BilJings - Escado de São Paulo, Brasil. I Pond liJy (Eichhomia crassipes): a food a/lemalive for cau/e in smo// forms c/ose lo lhe BiJ/ings dom - Slate of São Pau/o, BraziJ. Rev. edue. contin. CRMV-SP I ConlitU40USEliucolion Journo/ CRMV-SP. São Paulo. volume 3. fascículo 3, p. 37 - 43, que destacam o alto teor de caroteno e 7,61 % de pro- teína bruta. TEJADA e CERVANTES (1974) apud KWAI et alo (1986) analisando 37 amostras de aguapé encontraram valores de proteína bruta variando de 2,3 a 28,4% sobre a matéria seca (Tabela 1). PUPO (2000) constatou que os percentuais dos constituintes da planta em análises bromatológicas variavam conforme as características edafodimáticas da região de cultivo, tipo de adubação, idade da planta, época do ano e manejo empregado. PALOMBO et alo (1991) consideram que a composição do aguapé está relacionada principalmente aos teores de matéria orgânica da água em que se desenvolve, temperatura ambiente, idade e época de co- lheita.

A título de comparação, forrageiras como o capim elefante apresentam 15,9% de proteína bruta e o capim gordura, com 155 dias, 2,4%. Sempre se comparando os valores de proteína bruta com de matéria seca (FREITAS, 1978), enquanto a alfafa, no Brasil, tem sua produção variando de 6 a 20 toneladas/ha/ano de matéria seca (dependendo de cada condição de plantio), com valores médios de 25% de proteína bruta (CAPRIO et al.,1999).

Potencial de uso na represa Billings

A represa Billings, no Estado de São Paulo, ocupa uma área aproximada de 130quilômetros quadrados, formando um imenso reservatório de água doce, que ocupa áreas das cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires e da própria Capital paulista, onde a Eichhornia crassipes (Figura 3) pode ser encontrada em alguns de seus trechos (PALOMBO et aI., 1991).

Em muitas destas áreas, no perímetro da represa BilLings, reguladas pela Lei de Proteção dos Mananciais, especificamente na região que corresponde ao ABC paulista, existem pequenas propriedades de atividades agrícolas e de pecuária. Em 19 propriedades visitadas em 1999,79% possuíam área inferior a 5 hectares, com um rebanho médio de 12 cabeças por propriedade e uma produção leiteira de 3,2 litros/cabeça/dia. Com escassas áreas de pastagens, os animais destas propriedades recebiam uma suplementação alimentar de capim elefante ou, de acordo com o recurso de cada produtor, alternativas como resíduos de indústrias alimentícias. Não há relato da utilização do aguapé na alimentação de bovinos nestas propriedades (KLAI et al., 1999).

De acordo com o NATIONAL RESEARCH COUNCIL (1989), animais com 400 Kg de peso vivo e

Quadro 1. Utilização da Eichhornia crassipes na alimentação de bovinos

Utilizarapenas a parte aérea da planta Desidratar na sombra Triturarou não (dependendo do recurso do pro- dutor) Servir no cocho na proporção de 2% do peso vivode cada animal produção leiteira de IOKg/dia com 4% de gordura devem consumir 2,5% de seu peso em matéria seca; en- quanto que com 500, 600 e 700 Kg de peso vivo e mesma produção leiteira, os valores são de 2,3%, 2,2% e

2,1% respectivamente. CAMPOS e LIZIERE (1997) recomendam como regra geral o consumo de 2% do peso vivo em matéria seca. Animais com 600 Kg de peso vivo e produção leiteira de 10 Kg/dia (mais de 3 vezes superior a média da região), necessitam consumir 13,2 Kg/MS/dia. O aguapé, com uma produção de 212 toneladas/ha/ano de matéria seca (SILVA et al., 1978), pode contribuir na alimentação de 4 animais/ha/ ano. Em termos de proteína bruta, para o exemplo em questão, a ingestão/dia recomendada pelo NATIONAL

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