Sobre métodos de leitura de imagem no ensino da arte contemporanea

Sobre métodos de leitura de imagem no ensino da arte contemporanea

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SOBRE MÉTODOS DE LEITURA DE IMAGEM NO ENSINO DA ARTE CONTEMPORÂNEA doi: 10.4025/imagenseduc.v3i2.20238

Gustavo Cunha Araujo* Ana Arlinda Oliveira**

* Universidade Federal de Mato Grosso − UFMT. gustavocaraujo@yahoo.com.br * Universidade Federal de Mato Grosso − UFMT. aarlinda@terra.com.br

Resumo O ensaio analisa os métodos de leitura de imagem dos teóricos em arte/educação Edmund Feldman, Robert Ott, Michael Parsons e Abigail Housen, por considerarmos serem os pioneiros em estudos sobre leitura de imagem no ensino da arte contemporânea. Utiliza como metodologia a revisão bibliográfica pertinente ao tema e discorre sobre as implicações desses métodos para o surgimento da Proposta Triangular para o ensino da arte, ocasionando mudanças teórico-metodológicas neste ensino. As reflexões construídas à luz das teorias que fundamentam este estudo trouxeram importantes apontamentos sobre a temática abordada neste trabalho, contribuindo para o debate educacional sobre o tema. Palavras-chave: Leitura de Imagem. Ensino da Arte. Proposta Triangular. Metodologia.

Abstract.Aboutimage readingmethodsin the art educationcontemporary. Theessay analyzesthe methods ofimage readingof the theoreticiansin art/education Edmund Feldman, Robert Ott, Michael Parsons and Abigail Housen,because we believethey arethe pioneersinresearch onteachingreading in theimageof contemporary art.Methodologyusesastherelevant literatureto the subject anddiscusses the implicationsof these methodsfor the emergence of TriangularProposalfor the teaching ofart, leadingtheoretical and methodological changesin thisschool.The reflectionsbuiltaccording to the theoriesthat underlie this studyprovided importantnotes aboutthe topiccovered in thiswork, contributing to theeducational debateon the subject. Keywords:Image Reading. Art Education. Triangular Proposal.Methodology.

Introducão

Na pesquisa em questão, analisamos alguns métodos de leitura de imagem no ensino da arte de importantes teóricos da arte/educação, entre os quais ressaltamos Edmund Feldman, Robert Ott, Michael Parsons e Abigail Housen, por entendermos serem os pioneiros em estudos sobre a leitura de imagem no ensino da arte contemporânea e por terem influenciado o surgimento da Proposta Triangular para o ensino da arte, modificando as práticas teórico-metodológicas para o ensino da arte no Brasil.

As reflexões foram construídas em diálogo com autores como (BARBOSA, 2011, 2008, 2002, 1998, 1991, 1988; DAL’MASO, 2011; FELDMAN, 1993; FERRAZ; FUSARI, 2010; KEHRWALD, 2006; LÉLIS, 2004; OSINSKI, 2001; OTT, 1989, 1997; PARSONS, 1998, 1992; SARDELICH, 2006), o que de fato, trouxeram apontamentos sobre o objeto de estudo elencado neste trabalho, contribuindo para pesquisas sobre a temática abordada.

Os esclarecimentos teóricos sobre a temática abordada são necessários à pesquisa, uma vez que pretendemos entender que implicações os métodos de leitura de imagens propostos no ensino da arte elegidos e analisados neste estudo trouxeram para a Proposta Triangular para o ensino de arte brasileiro nos dias atuais, ocasionando mudanças teórico-metodológicas nesse ensino nos dias atuais e, consequentemente, no trabalho de imagens pelo professor de Artes.

O texto encontra-se estruturado em três partes, a saber: na primeira, apresentamos brevemente os métodos de leitura de imagens no ensino da arte de importantes teóricos dessa área, contudo, sem aprofundar especificamente em cada método. Em seguida, apresentamos reflexões à luz das teorias que fundamentam este trabalho, sobre esses métodos relacionados com o surgimento da Proposta Triangular, ocasionando mudanças teóricas e metodológicas para o ensino da arte nos dias atuais. Por fim, são desenvolvidas algumas considerações sobre as reflexões construídas sobre o objeto de estudo exposto neste trabalho.

Optamos pela pesquisa qualitativa, de caráter interpretativo e descritivo (BOGDAN; BIKLEN, 1999; LUDKE; ANDRÉ, 2011), por entendermos que são adequadas para o propósito desta pesquisa. Como pesquisadores em educação, devemos incorporar novas teorias e conhecimentos, possibilitando a produção de novas interpretações e reflexões.

Um olhar sobre os métodos de leitura de imagens no ensino da arte

O termo leitura de imagens começou a ser discutido no campo educacional no final dos anos 1970, devido à disseminação de aparelhos audiovisuais e pelo surgimento de teorias sobre a percepção e psicologia da forma – Gestalt – e da semiótica (SARDELICH, 2006).

Na medida em que essa discussão foi se desenvolvendo no cenário educacional do ensino da arte, foi sendo necessário um entendimento da leitura visual, ou seja, da compreensão dos códigos incorporados e presentes nas imagens, o que, de fato, implicou no surgimento, já nos anos 1980, de termos como alfabetização visual e gramática visual, ressaltados por autores como Dondis (2003) e Barbosa (1988; 1991) e, mais recentemente, Pedagogia da Imagem e Cultura Visual, por Barros (1997), Barbosa (2002; 2008; 2011) e Hernandez (2000).

Nessa discussão, em seu estudo, kehrwald (2006) nos chama a atenção para o termo analfabetismo visual, pelo fato de, segundo ele, desde a escola, não termos muito contato (ou quase nenhum) com obras de arte, muito menos com métodos de leitura de imagens que nos pudessem “ensinar a ler imagens”.

Nessa perspectiva, utilizadas e consonância com textos escritos ou não, as imagens necessitam de serem “lidas”, pois é preciso levar em conta que as obras de arte nos remetem, muitas vezes, a objetos já vistos, a formas ou fatos do cotidiano e passamos a identificar aspectos comuns entre os mesmos. Essas nuanças passam despercebidas a um olhar desacostumado. No entanto, um olhar educado para ver [...] perceberá as semelhanças e diferenças, fará analogias e, por consequência, identificará as inter-relações, isto é, o intertexto (KEHRWALD, 2006, p. 28-29).

Nessa citação, a autora utiliza o termo intertexto para se referir a dois textos quando trabalhados juntos na educação: o texto escrito/verbal e o texto visual/imagético.

Decodificar um texto é entrar em sua trama, na sua textura, no seu tecido, ler um texto pictórico é adentrar em suas formas, linhas, cores, volumes e particularidades, na tentativa de desvelar um código milenar que muitas vezes não está explícito, nos é desconhecido e, por vezes, nos assusta. Por ser um sistema simbólico, de representação, a subjetividade contida na arte proporciona uma infinidade de leituras e interpretações que dependem as informações do leitor, das suas experiências anteriores, das suas vivências, lembranças, imaginação, enfim, do seu repertório de saberes (KEHRWALD, 2006, p. 24-25).

Desse modo, em diálogo com Calado (1994, p. 5), as imagens “[...] enquanto sistemas simbólicos são ricas e instáveis, o que quer dizer que comportam um grande número de níveis de significação”. Quando inserida nas artes visuais, é relevante pontuar que “aprender a ler os códigos do sistema de representação das artes visuais é tão importante quanto o entendimento dos sistemas numéricos e de escrita” (KEHRWALD, 2006, p. 28).

Sobre esse assunto, Araújo & Oliveira (2012) esclarecem que a leitura de imagem se relaciona diretamente com o estudo do alfabetismo visual, pelo fato de ser importante e necessário o indivíduo buscar compreender a comunicação de informações ou ideias por meio da decodificação dos elementos figurativos presentes nas imagens, o que vai ser fundamental para o ato de se comunicar visualmente na sociedade contemporânea.

Estudar o alfabetismo visual é compreender melhor os significados e representações que as imagens, em seus mais diferentes níveis e formas, podem nos oferecer, analisadas no contexto educativo, por meio de métodos de leitura de imagens de áreas como as Artes Visuais (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2012, p. 95).

Nesse sentido, ampliam-se aqui as discussões em torno dos métodos de leitura de imagem voltados para o ensino da arte, que influenciaram o surgimento da Proposta Triangular, modificando as práticas teórico-metodológicas para o ensino da arte no Brasil.

Para iniciarmos, apresentamos alguns conceitos de métodos de leitura de imagens que entendemos ser os mais pertinentes para o ensino de arte contemporâneo, surgidos inicialmente nos anos de 1970 nos Estados Unidos. Tal recorte temporal deve-se ao fato de ser a partir desse momento que os estudos sobre a leitura de imagem na arte e educação foram produzidos no contexto educacional.

Nessa linha de pensamento, nos anos 1970 o teórico Edmund Burke Feldman, em sua obra intituladaBecoming Human Through Art: Aesthetic Experience In The School propõe uma metodologia de leitura de imagem no ensino da arte que deveria ser aprendida pelo indivíduo por meio da técnica, da crítica e da criação (FELDMAN, 1993), ou seja, “[...] sua metodologia propõe formar um olhar crítico e trabalhar a construção de uma pessoa mais crítica em termos de arte” (LÉLIS, 2004, p. 40).

Nesse método, a obra de arte deveria ser analisada por um método comparativo de leitura: a leitura de duas ou mais obras visuais, com o objetivo do indivíduo apontar as diferenças e semelhanças visuais entre as obras analisadas, seguindo quatro estágios de análises, como pode ser visto na tabela 1:

Tabela 1. Método de leitura de imagem de Edmund Feldman.

Estágios Descrição

DescreverIdentificar o que se vê na obra visual, apenas o que está evidente.

Analisar

Identificar na obra elementos da composição visual, estabelecendo relações entre os elementos.

Interpretar

Dar sentido ao que observou na obra, procurando identificar quais os sentidos, ideias, sentimentos e expressões intencionadas pelo autor.

Julgar

Emitir juízo de valor sobre a obra, se ela é importante ou não, se tem qualidade estética. Fonte: Elaborada pelos autores.

Ao contrário dos demais estágios analisados posteriormente, Edmund Feldman cita o último estágio, “julgar”, que segundo ele, é o qual o indivíduo emitirá julgamento, entendimento da obra observada, informando se a mesma tem qualidade estética em sua composição visual, ou não.

Nessa sequência breve, na década de 80 surge um método que propunha o desenvolvimento estético e o conhecimento da arte, baseado na produção artística, crítica, estética e história da arte (OTT, 1989; 1997), através de seis estágios, descritos na tabela 2:

Tabela 2. Método de leitura de imagem de Robert William Ott.

Estágios Descrição

Aquecer/ Sensibilizar

Preparação do material visual/obra de arte que será apreciado.

DescreverDescrever os aspectos formais da imagem.

Analisar os conceitos formais da obra

Analisarvisual, como o artista organizou a sua composição visual.

Interpretar

O leitor interpreta a obra visual, apontando que sentimentos lhe são trazidos, ideias ou sensações.

Fundamentar

É ampliado ao leitor o conhecimento da obra visual por meio do contexto, da história da obra.

RevelarO fazer artístico (produção) sobre a obra observada. Fonte: Elaborada pelos autores.

Este método ficou conhecido comoImage

Watching, “olhando imagens”, do teórico Robert William Ott, sistematizado em sua obraArt Education: An International Perspective. Lélis (2004, p. 41) apresenta uma análise interessante desse método:

No primeiro estágio o aluno deverá apenas olhar o objeto e descrevê-lo. No segundo, deverá destacar os elementos e a estrutura da linguagem plástica, para perceber como a composição foi feita. No terceiro, o educando fará diversas interpretações do objeto, expressando seu sentimento em relação a ele. No quarto momento, o conhecimento do aluno será ampliado com informações sobre o objeto, o artista e o conjunto de sua obra, utilizando o acervo bibliográfico da escola, da família e da comunidade, bem como o material didático-pedagógico do professor. Na última etapa, o aluno, agora mais informado e suficientemente afastado da obra como modelo e referência, cria um novo trabalho, usando qualquer linguagem artística, seja ela verbal, gestual (cênica), plástica ou musical.

Contudo, interessante notar nessa citação que a autora não ressalta o primeiro estágio pontuado por Robert Ott, aquecimento/ sensibilização, talvez pelo fato de não considerar como primeiro estágio a preparação da obra de arte que será apreciada, o que de fato, vai ao encontro com os estágios propostos pelos teóricos Edmund Feldman e Abigail Housen que, também, não citam esse aquecer/ sensibilizar em seus métodos.

Seguindo esse raciocínio, nos anos 1980,

Michael Parsons, em sua obraCompreender a Arte (PARSONS, 1992) propôs um método que se baseava na compreensão das imagens pela pessoa em diferentes cinco estágios, apresentados na tabela 3:

Tabela 3. Método de leitura de imagem de Michael Parsons.

Estágios Descrição

Favoritismo/ Preferência/ Gosto Pessoal

Seleção de uma obra visual ou parte dela que goste.

Beleza/ Realismo

Escolha de imagens ou obras visuais que são “bonitas” ou o tema é “bonito”.

Expressão

A expressão do artista é importante para compreender as intenções dele ao produzir a obra visual; que sentimentos, ideias ou sensações a obra expressa.

Estilo/Forma

Interesse pelo estilo e composição visual da obra, buscando relacionar com a expressividade dela.

Juízo/

Interpretação/ Autonomia

Entender a validade da obra segundo seu contexto social e histórico, buscando compreender os sentidos e experiência que ela trazem ao leitor. Fonte: Elaborada pelos autores.

Na tabela 3 é interessante observar que o primeiro estágio, favoritismo/preferência/ gosto pessoal, é semelhante ao estágio de aquecimento/sensibilização de Robert Ott, ao citar a seleção de uma obra de arte ou qualquer parte dessa obra para a apreciação por parte do indivíduo.

É possível notar também, nessa mesma tabela, similaridade entre os estágios interpretação, de Robert Ott e Edmund Feldman, com o estágio expressão, de Michael Parsons, ao informar que por meio da expressão do artista da obra, é possível compreender as suas ideias, sentimento e sensações intencionadas na obra.

A metodologia proposta por Abigail

Housen se refere ao desenvolvimento da compreensão dos estágios de leitura de imagem pelo indivíduo, em quatro fases, indicadas na tabela 4:

Tabela 4. Método de leitura de imagem de Abigail Housen.

Estágios Descrição

Descritivo/ Narrativo/

Como a obra visual foi feita, sua composição, como o artista a

Construtivo produziu.

Classificativo

Quem é o artista que produziu a obra, em que ano e época a obra foi feita, quais os materiais e procedimentos utilizados na sua produção.

InterpretativoQue sensações, ideias ou sentimentos a obra expressa.

RecriativoFazer artístico baseado na mesma obra visual observada. Fonte: Elaborada pelos autores.

Nessa tabela que os estágios interpretação, de Edmund Feldman e Robert Ott, e o estágio expressão, de Michael Parsons, são semelhantes ao estágio interpretativo, de Abigail Housen, ao pontuar quais intenções do artista estão expressas na obra visual por ele produzida.

Ao olharmos para as metodologias analisadas, concordamos com Iavelberg (2003) quando ressalta que todas essas propostas se referem, basicamente, aos aspectos estruturais do desenvolvimento estético, portanto, da composição e linguagem visual da obra. Contudo, a Proposta Triangular para o ensino da arte, complementa esse desenvolvimento ao incluir a contextualização, além de ter sido a responsável pela incorporação do termo “leitura de imagem” ao vocabulário dos professores de Artes (KEHRWALD, 2006).

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