Morfologia do Conto Maravilhoso - Vladimir Propp

Morfologia do Conto Maravilhoso - Vladimir Propp

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Morfologia do Conto Maravilhoso

Vladimir I. Propp (Forense Universitária)

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Título: Morfologia do Conto Maravilhoso Autor: Vladimir I. Propp Editora: CopyMarket.com, 2001

Sumário Vladimir I. Propp

ResumoI
Notas Bibliográficas e de OrganizaçãoI
Prefácio à Edição Brasileira01
Prefácio07
1. Para um Histórico do Problema08
2. Método e Material16
3. Funções dos Personagens19
4. A Assimilação. Os Casos da Dupla Significação Morfológica da mesma Função39
5. Alguns outros Elementos do Conto Maravilhoso41
6. Distribuição das Funções entre os Personagens45
7. Meios de Inclusão de Novos Personagens no Decorrer da Ação48
8. Sobre os Atributos dos Personagens e sua Significação50
9. O Conto como Totalidade52
10. Conclusão6
Apêndice I: Dados para a Tabulação dos Contos67
Apêndice I: Outros Exemplos de Análise74
Apêndice I: Esquemas e Observações sobre Eles81
Apêndice IV: Lista de Abreviaturas86
O Estudo Tipológico - Estrutural do Conto Maravilhoso, por E. M. Meletínski92

A Estrutura e a Forma - Reflexões sobre uma Obra de Vladimir Propp, por Claude Lévi-Strauss113 Estudo Estrutural e Histórico do Conto de Magia, por V. I. Propp....................................128

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Título: Morfologia do Conto Maravilhoso Autor: Vladimir I. Propp Editora: CopyMarket.com, 2001

Resumo Vladimir I. Propp

O livro do folclorista russo V. I. Propp, Morfologia do Conto Maravilhoso, teve um destino bem estranho. Publicado em 1928, suscitou alguma repercussão nos meios especializados soviéticos, mas pouco depois saía praticamente de circulação, devido ao combate ao assim chamado Formalismo Russo, entre cujos representantes Propp era sempre incluído. No Ocidente, o livro não chegou a ser muito conhecido, embora alguns estudiosos se referissem a ele. Roman Jakobson, por exemplo, nunca deixou de salientar a importância dos estudos proppianos.

No entanto, houve uma reviravolta completa em 1958, quando saiu uma tradução inglesa do livro. Passou-se, então, a perceber claramente que o estudo de Propp, embora concentrado num corpus de cem contos de magia russos e sem nenhuma pretensão explícita de extrapolar essas conclusões para outros gêneros, dava explicação cabal a um fato que perturbava os folcloristas: a ocorrência dos mesmos esquemas narrativos em povos que dificilmente poderiam ter mantido contato entre si.

Na década de 1960, o estudo de Propp esteve no centro de preocupação de toda uma corrente de estudiosos da narrativa, que procuraram descobrir normas gerais a partir dele. O livro tornou-se para muitos quase uma cartilha e suscitou polêmicas violentas, às quais o autor assistiu de longe, certamente surpreendido com este ressuscitar estranho de sua obra.

Criticado por Lévi-Strauss como um "formalista" que teria pressupostos teóricos diferentes daqueles que subjazem às abordagens estruturais, Propp reagiu com um artigo em que expunha a sua perplexidade. No presente volume, estão incluídos o estudo de Propp, o artigo de Lévi-Strauss, a resposta do folclorista russo e um trabalho do etnólogo soviético E. M. Meletínski, no qual se analisa a importância da contribuição proppiana.

Evidentemente, a relevância do trabalho de Propp transcende, e de muito, as polêmicas de momento, que foram tão freqüentes nos anos de 1960. Ele requer um estudo permanente e abre caminhos novos, quer para a investigação dos contos populares, quer para a reflexão sobre a narrativa em geral. Ademais, esse estudo tem de se valer de elementos recentes, pois muitos materiais sobre o assunto só foram divulgados nos últimos anos. Assim, o texto da resposta de Propp a Lévi-Strauss apareceu em tradução italiana em 1966, acompanhando uma edição da Morfologia, mas o original russo, utilizado para o presente volume, foi publicado somente em 1976, numa coletânea póstuma de trabalhos de Propp.

Passada a turbulência dos anos de 1960, quando ocorreu a assimilação maciça da Morfologia no Ocidente, sua presença torna-se cada vez mais importante para o desenvolvimento de estudos sem conta.

Capa: Juarez Quirino da Silva

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Título: Morfologia do Conto Maravilhoso Autor: Vladimir I. Propp Editora: CopyMarket.com, 2001

Notas Bibliográficas e de Organização Vladimir I. Propp

Os textos russos do presente volume foram traduzidos do original. A Morfologia do Conto Maravilhoso (Morfológuia skázki) de V. I. Propp baseia-se na segunda edição soviética, publicada em 1969, pela Editora Naúka (Ciência) de Moscou, da Academia de Ciências da URSS. Nessa edição foi incluído o trabalho de E. M. Meletínski, “O estudo tipológico-estrutural do conto maravilhoso” (Strukturno-tipologuítcheskoie izutchênie skázki), igualmente traduzido para o presente volume.

A polêmica Propp-Lévi-Strauss foi iniciada com o estudo do antropólogo francês sobre o livro fundamental de Propp. Esse trabalho aparece aqui, na tradução de Lúcia Pessôa da Silveira, cedida à Editora Forense Universitária pela Editora Tempo Brasileiro. A resposta de Propp, “Estudo estrutural e histórico do conto de magia” (Struktúrnoie i istorítcheskoie izutchênie volchébnoi skázki), apareceu pela primeira vez no original, no livro póstumo de V. I. Propp, Folclore e Realidade (Folklor i dieistvítielnost), publicado igualmente pela editora Naúka, Moscou, 1976, de onde foi traduzido para esta edição.

De Organização

1 - Foram suprimidas, na tradução, as comparações entre edições russas. Por este motivo, eliminaram-se várias notas e o Apêndice V do original.

2 - Ficaram assinalados com colchetes os acréscimos ao texto original, que se tornaram necessários.

3 - Os signos convencionais tiveram de ser modificados, devido à diferença de alfabeto. De modo geral, seguiram-se as normas já adotadas nas edições ocidentais.

4 - As notas da tradutora do russo são dadas em rodapé, e as do autor no final do trabalho, com exceção das indispensáveis à compreensão da seqüência. Na tradução do ensaio de E. M. Meletínski, seguiu-se a norma do autor: notas explicativas em rodapé e bibliográficas no fim.

5 - A edição do ensaio de Lévi-Strauss, cuja tradução foi cedida pela Editora Tempo Brasileiro, segue as características da referida publicação.

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Título: Morfologia do Conto Maravilhoso Autor: Vladimir I. Propp Editora: CopyMarket.com, 2001

Prefácio à Edição Brasileira Vladimir I. Propp

O importante folclorista soviético B. N. Putilov, que trabalhou em colaboração e conviveu bastante com V. I. Propp (1895-1970), escreveu há poucos anos que a ciência contemporânea ainda estava longe de ter assimilado plenamente a obra de seu colega1. À primeira vista, parece uma afirmação paradoxal, pois bem poucos nomes estiveram tão em evidência a partir da década de 1960, nos campos do folclore e da teoria da narrativa. Mas, na realidade, esta fama súbita, que lhe adveio nos últimos anos de vida, ficou marcada por uma série de equívocos. Nem por isto, porém, a sua obra inovadora deixou de exercer uma influência fecunda em numerosos estudos, tanto na União Soviética quanto no Ocidente.

Não vou estender-me agora sobre o seu livro fundamental, Morfologia do Conto Maravilhoso, pois o leitor encontrará neste mesmo volume o excelente ensaio em que E. M. Meletínski analisa o impacto que esta obra causou na ciência moderna. Nesse ensaio, o famoso etnólogo soviético ressalta a amplitude dos estudos proppianos no Ocidente e chega a contrastála com o número relativamente reduzido de estudos soviéticos específicos sobre o assunto. Esta passagem pode causar estranheza ao leitor ocidental, mas é preciso observar que o ensaio de Meletínski foi publicado em 1969, acompanhando a segunda edição da referida obra de Propp, que realmente a recolocou em circulação mais ampla na URSS (a primeira edição é de 1928). Num outro estudo do mesmo Meletínski, publicado em 1974, e que já está traduzido para o Português2, verifica-se que nesses poucos anos a situação mudou consideravelmente, sendo apreciável atualmente o acervo de estudos soviéticos que procuram trilhar os caminhos indicados por V. I. Propp.

Por que então aquele atraso? Não nos esqueçamos de que a atividade científica do grande folclorista ficou marcada por dois estigmas: sua proximidade do assim chamado Formalismo Russo e a clareza com que sempre definiu sua aceitação das posições defendidas pelo lingüista N. I. Marr e de sua "teoria estadial".

Depois da virtual proibição do Formalismo Russo, em 1930, os estudiosos que dele fizeram parte ficaram quase todos afastados do trabalho teórico de caráter mais geral, dedicando-se freqüentemente a campos específicos dos estudos literários, isto quando não renegaram as posições anteriormente defendidas. Propp, no entanto, prosseguiu no seu grande estudo Raízes Históricas do Conto de Magia3 que na realidade forma uma espécie de dilogia com a Morfologia do Conto Maravilhoso. Aliás, no texto deste, há uma referência explícita ao fato de se tratar de uma etapa preliminar de um vasto trabalho. Assim, depois de definir claramente o objetivo de estudo, Propp situa-o no fluxo da História.

Por um lado, ele se mantém deste modo fiel à metodologia dos "formalistas russos" na fase mais madura do movimento: as famosas teses de Jakobson e Tinianov, publicadas no mesmo ano que a Morfologia, preconizavam o estudo imanente do objeto, para em seguida se aprofundar a relação da "série literária" com as demais "séries históricas".4

Mas, ao mesmo tempo que é bem evidente a sua ligação com os "formalistas" (realmente, só podemos escrever esta palavra entre aspas, pois na fase madura do movimento, que corresponde justamente à época de publicação da Morfologia, eles se voltavam claramente contra a velha divisão da obra em forma e conteúdo), salta igualmente aos olhos a sua aceitação dos princípios de N. I. Marr.

1B. N. Putilov, prefácio ao livro Folklor e dieistvítielnost (Folclore e realidade), Editora "Naúka" (Ciência), Moscou, 1976 (coletânea póstuma de ensaios de V. I. Propp), p. 15. 2 Vide I. M. Meletínski, "Tipologia estrutural e folclore", tradução de Aurora Fornoni Bernardini, in Boris Schnaidemian (org.), Semiótica russa, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979. 3 Istorítcheskie kórni volchébnoi skázki, Leningrado, 1946. Foi traduzido para o italiano e publicado em 1949, existindo nova edição: Le radice storiche de racconti di fate, Boringhieri, Turim, 1972.

4 Existem traduções para várias línguas. Tradução brasileira: J. Tynianov e R. Jakobson, "Os problemas dos estudos literários e lingüísticos", in Dionísio de Oliveira Toledo (org.), Teoria da literatura - formalistas russos, Editora Globo, Porto Alegre, 1971.

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Este seria atacado postumamente pelo próprio Stálin, em seus dois famosos trabalhos sobre Lingüística, que encerraram em 1950 um prolongado debate entre marristas e antimarristas: os primeiros caíam em desgraça, os segundos passavam às posições de mando nas instituições que lidavam com problemas de linguagem. Esta descrição pode parecer simplista e até simplória, mas, vista a distância, a própria realidade das instituições científicas oficiais da época tem algo de simplificado e empobrecido, em contraste com a riqueza dos trabalhos então realizados. E a intervenção de Stálin, embora fundamentalmente correta, conforme já tive ocasião de escrever5, pois era muito acertado estabelecer que a divisão dos fatos sociais em fatos da infra e da superestrutura não podia abranger a língua (consumada a transferência da posse dos meios de produção, ela se mantinha fundamentalmente a mesma), estava eivada de uma visão utilitarista da História e da função que a língua exerceria nesta.

Não cabe aqui discutir a obra e o papel desempenhado por N. I. Marr, tarefa aliás muito ingrata, pois seu nome "suscita até hoje ódios acirrados, prevenções, ressentimentos, de modo que a polêmica velha de quase trinta anos continua pesando no que se publica na União Soviética e dificultando a divulgação de trabalhos muito importantes"6. Ele via uma relação muito íntima entre o desenvolvimento da língua e o estádio de evolução da sociedade. E outros estudiosos procuraram então vincular essa teoria aos fatos da cultura em geral Propp foi certamente um dos que mais se dedicaram a esta tarefa. No entanto, veja-se como ele encarava o problema de modo muito mais sutil do que a visão corrente nas caricaturas do método de Marr, freqüentes na bibliografia soviética. Assim, escrevia em 1946: "No Ocidente predomina até hoje o princípio do simples estudo cronológico, e não do estadial. Um material da Antigüidade clássica será considerado ali mais antigo do que o material anotado em nosso dias. No entanto, do ponto de vista estadial, um material da Antigüidade clássica pode refletir um estádio relativamente tardio do Estado agrícola, e um texto contemporâneo, relações totêmicas muito mais primevas. É evidente que todo estádio deve ter sua estrutura social, sua ideologia, sua criação artística. Mas o caso está em que o folclore, tal como outras manifestações da cultura espiritual, não registra de imediato a mudança ocorrida e conserva por muito tempo, nas novas condições, as velhas formas. Visto que todo povo sempre passa por alguns estádios de seu desenvolvimento, e todos eles encontram reflexo no folclore, depositam-se nele, o folclore de todo povo é sempre poliestadial, e isto constitui uma de suas características. O problema da ciência consiste em decompor as camadas deste conglomerado complexo, e deste modo conhecê-lo e explicá-lo"7. Parece haver aí certa injustiça de Propp em relação a alguns estudos ocidentais. Mas de um ponto de vista mais global, ele tem certamente razão. Semelhantes formulações permitem ver que não havia incompatibilidade entre o apego dos "formalistas" russos à análise imanente dos textos e a abordagem "estadial" preconizada por V. I. Propp. Assim, quando ele se lançou à empresa da coleta de material para a sua Morfologia (data de 1926 a sua primeira comunicação sobre estes trabalhos), via já com muita clareza onde pretendia chegar.

O êxito retumbante deste seu estudo tem qualquer coisa de “ovo de Colombo”.

Durante muito tempo, os folcloristas se defrontaram com o fato da semelhança entre os esquemas narrativos dos povos mais diversos, entre os quais dificilmente se encontrariam vestígios de contato. Como lembra Jakobson, "no folclore como na língua, apenas uma parte das similaridades pode ser explicada em termos de patrimônio comum ou de difusão (temas migratórios)"8. E já num livro publicado em 1910, o nosso João Ribeiro escrevia: “Não há infinita riqueza na imaginação dos povos. As idéias essenciais são pouco numerosas. Um inventário cuidadoso de todos os contos e novelas redu-los a alguns tipos fundamentais, a mau grado da infinita variedade que se antolha na literatura.”9

Atualmente, não acho correto falar em imaginação escassa, com referência à literatura popular, ela tem a sua riqueza específica, não obstante a constância de um padrão narrativo. Mas não é difícil encontrar, mesmo hoje em dia, estudiosos da literatura que subscreveriam sem vacilar a afirmação de João Ribeiro. Em todo caso, devese destacar a argúcia com que ele percebia um problema fundamental dos estudos folclóricos.

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