tatiana-deisi-ana - avaliação fonoalogica infantil

tatiana-deisi-ana - avaliação fonoalogica infantil

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V ERBA VOLANT Volume 1 – Número 1 – julho - dezembro 2010 – ISSN 2178-4736

BUENO, Tatiana Garbin; VIDOR, Deisi Crsitina Gollo Marques e ALVES, Ana Luisa Sant’Anna. Protocolo de avaliação fonológica infantil - PAFI: projeto piloto. Verba Volant, v. 1, nº 1. Pelotas: Editora e Gráfica Universitária da UFPel, 2010.

Tatiana Garbin Bueno1

Deisi Cristina Gollo Marques Vidor2 Ana Luisa Sant’Anna Alves3

1. Introdução

A fonologia é o aspecto da linguagem que se refere ao modo como os sons se organizam e funcionam dentro de uma língua. É o nível que corresponde à programação, escolha dos sons que entram na constituição das palavras e sua sequência correta (Mota, Melo Filha & Lasch, 2007). Cada língua seleciona, dentro das possibilidades existentes, aqueles sons que farão parte de seu sistema fonológico e as combinações possíveis em que eles podem ocorrer. Essas características são adquiridas gradativamente pelas crianças durante a aquisição da linguagem, a partir do input linguístico recebido de sua comunidade, por um período que dura de 4 a 6 anos e de seu nascimento (Vieira, Mota & Keske- Soares, 2004).

A construção do sistema fonológico se dá, em linhas gerais, de maneira muito semelhante para todas as crianças, e em etapas que podem ser consideradas iguais. Mas, ao mesmo tempo, verifica-se a existência de variações individuais entre elas. Essas variações se dão tanto em termos de idade de aquisição quanto em relação aos caminhos percorridos para atingir a produção

1 Graduanda do curso de Fonoaudiologia da Faculdade Nossa Senhora de Fátima – Caxias do Sul – RS (Brasil). tatigarbinbueno@yahoo.com.br 2 Doutor, professora do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade Nossa Senhora de Fátima – Caxias do Sul – RS (Brasil), e da UFCSPA – Porto Alegre – RS (Brasil). deisiv@ufcspa.edu.br 3 Mestre, professora dos Cursos de Nutrição e Fonoaudiologia da Faculdade Nossa Senhora de Fátima – Caxias do Sul – RS (Brasil).

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BUENO, Tatiana Garbin; VIDOR, Deisi Crsitina Gollo Marques e ALVES, Ana Luisa Sant’Anna. Protocolo de avaliação fonológica infantil - PAFI: projeto piloto. Verba Volant, v. 1, nº 1. Pelotas: Editora e Gráfica Universitária da UFPel, 2010.

adequada (Mota, 1996; Lamprecht et al., 2004). Embora a ordem e a idade do domínio dos contrastes fonêmicos apresentem uma enorme variação entre crianças de uma mesma língua, é possível fazer afirmações probabilísticas a respeito desse desenvolvimento (Menn & Stoel-Gammon, 1997), a fim de traçar períodos para a aquisição de cada fonema e das sequências possíveis na língua.

Para a Fonoaudiologia é importante conhecer esse desenvolvimento para avaliar a adequação do processo de aquisição fonológica por parte da criança. Mais do que isso, o fonoaudiólogo deve ser capaz de avaliar, quando não há adequação do processo normal, quais características estão alteradas, de que forma estas alterações se manifestam e o grau de severidade que este desvio imprime na fala da criança (Keske-Soares, 2001).

De modo geral, a Fonoaudiologia está intimamente ligada a processos de avaliação. Sem esse recurso é impossível diagnosticar, tratar, ou mesmo dar um prognóstico acerca de qualquer alteração. A avaliação clínica é uma das etapas do processo da atuação fonoaudiológica e pressupõe o conhecimento e o uso de uma série de ferramentas e técnicas, especificamente ligadas à comunicação humana e seus aspectos constituintes (Goulart & Chiari, 2007).

Hage (2004) enfatiza que a plena avaliação da linguagem não escapa à utopia. Entretanto, diante dessa utopia, simplesmente abandonar tal tarefa (ou conformar-se com o que possuímos) é assumir uma postura passiva e contemplativa a respeito da linguagem, não contribuindo para a tentativa de conhecê-la e estudá-la. Disso se depreende a importância de a Fonoaudiologia possuir instrumentos de avaliação fidedignos que possam estabelecer, de forma prática e eficiente, as alterações da linguagem apresentadas pelos pacientes. No entanto, é importante não esquecer que a simples realização de um teste não exime a necessidade de um especialista bem informado e que seja capaz de emitir um bom parecer clínico, a partir da interpretação dos dados coletados na avaliação.

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Especificamente no que se refere à aquisição fonológica, existem, no

Brasil, vários modelos de avaliação para a utilização clínica, como o ADL: Avaliação do Desenvolvimento da Linguagem (Menezes, 2004), PHF: Perfil das Habilidades Fonológicas (Carvalho, Alvarez & Caetano, 1998), ABFW: Teste de Linguagem Infantil (Andrade, Beffi-Lopes, Fernandes & Wertzner, 2004) e o AFC: Avaliação Fonológica da Criança (Yavas, Hernandorena& Lamprecht, 1991).

Porém, empiricamente se percebe que a aplicação destes instrumentos não contempla de modo satisfatório as necessidades clínicas do profissional fonoaudiólogo, seja pela demanda excessiva de tempo para a sua aplicação, por apresentarem palavras desatualizadas e/ou fora do vocabulário da criança, seja por possuírem análises complexas e demoradas, destoantes daquilo que se busca no dia-a-dia fonoaudiológico.

Tampouco esses instrumentos estão em consonância com a nova proposta da Fonoaudiologia para atendimento em Saúde Coletiva, em que a demanda de pacientes é maior e o tempo, portanto, mais exíguo, o que leva os profissionais a criarem adaptações dos testes encontrados, nem sempre respeitando as características essenciais desses testes e comprometendo a avaliação realizada.

Sendo assim, o objetivo principal deste trabalho é verificar a adequação do protocolo de avaliação fonológica infantil (PAFI), criado especialmente para este estudo, por meio de um projeto piloto, a fim de disponibilizar ao profissional fonoaudiólogo um instrumento de avaliação simples e rápido e que, ao mesmo tempo, garanta uma avaliação eficaz do sistema fonológico da criança sem prejuízo àquelas avaliações propostas pelos instrumentos já existentes, na sua prática clínica.

2. Método

A execução desse estudo iniciou-se pela elaboração de um protocolo que pudesse avaliar de forma completa todos os segmentos do Português Brasileiro

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(PB) e suas combinações, e que fosse adequado, também, à população infantil. Assim surgiu o PAFI (Protocolo de Avaliação Fonológica Infantil).

O PAFI avalia a área da fonologia. Utiliza-se da nomeação de figuras, respeitando a sequência de palavras sugeridas representando todos os segmentos do Português Brasileiro (PB) em todas as posições silábicas possíveis. As palavras foram selecionadas de forma que minimizassem o número de itens para coleta. Assim, selecionaram-se 43 palavras dissílabas, sendo a maioria delas utilizadas para a análise concomitante em posição de onset inicial e medial, coda e/ou onset complexo (Selkirk, 1982) (Apêndice A). A partir da seleção das palavras, foram confeccionadas figuras isoladas que as representassem (Apêndice D) e que foram apresentadas às crianças do estudo para nomeação.

O presente estudo refere-se a um projeto piloto, que pretende verificar a adequação do Protocolo de Avaliação Fonológica Infantil (PAFI). Para realizar esta verificação, foram propostas quatro análises: 1. Reconhecimento dos desenhos e das palavras: através de uma ficha de anotações, o terapeuta indicou, por meio de sua observação, se a criança reconheceu ou não o desenho e/ou a palavra selecionada para o protocolo. 2. Tempo de aplicação do protocolo: anotou-se o tempo transcorrido para a coleta dos dados, desde a primeira palavra até a última; 3. Tempo de análise dos resultados: em um segundo momento, o terapeuta anotou o tempo transcorrido do início da análise até o preenchimento do inventário fonológico (Apêndice C). 4. Perfil Fonológico: preenchimento do quadro do perfil fonológico, indicando os processos fonológicos realizados pelas crianças (Apêndice B), a fim de verificar se o protocolo era capaz de reunir os dados coletados e analisados e indicar um parecer a respeito do sistema fonológico da criança avaliada em relação a sua idade.

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Para isso, foram coletadas amostras de fala de 26 crianças de quatro a seis anos de idade, 13 do sexo feminino e 13 do sexo masculino, divididas de dois em dois meses. Essas crianças foram autorizadas pelos pais a participarem da pesquisa, através da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Associação Cultural e Científica Nossa Senhora de Fátima sob número 008/08.

As crianças foram entrevistadas individualmente e gravadas em áudio durante a coleta de dados. Foram solicitadas a nomear espontaneamente as figuras do PAFI (Apêndice D), quando as reconheciam. Caso a criança não nomeasse espontaneamente a figura, eram fornecidsas duas pistas semânticas para a sua elocução, a fim de se verificar se a dificuldade residia no não reconhecimento do desenho ou no desconhecimento da palavra. Nesse último caso, a pesquisadora nomeava o desenho, e a criança utilizava-se da imitação para a coleta dos dados fonológicos. Depois disso, todas as amostras foram analisadas em sua totalidade, preenchendo-se as fichas que avaliavam os aspectos do instrumento analisados nessa pesquisa.

3. Resultados

A seguir, apresentam-se os resultados dessa pesquisa. Esses resultados estão dispostos em subtítulos para facilitar o entendimento do leitor.

3.1. Análise dos desenhos e das palavras a) Reconhecimento dos desenhos e das palavras

Dos 43 itens que compõem o PAFI, 19 (4%) não apresentaram nenhum tipo de problema quanto ao reconhecimento por parte das crianças entrevistadas, quer seja do desenho apresentado, quer seja da palavra selecionada.

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O quadro 1 apresenta os itens do protocolo que obtiveram 100% de acerto tanto no nível da palavra quanto do desenho apresentado.

Quadro 1. Palavras e desenhos que obtiveram 100% de reconhecimento b) Não reconhecimento dos desenhos e das palavras

Em contrapartida, 13 (30,2%) itens lexicais não foram reconhecidos por pelo menos uma das crianças testadas. A tabela 1 ilustra estes itens, indicando o número de sujeitos que não reconheceram nem a palavra, tampouco o desenho quando o estímulo foi apresentado.

Tabela 1. Não reconhecimento de palavra e desenho

Palavra/desenho n (%) c) Não reconhecimento da palavra

Ao se aplicar o instrumento, no entanto, houve situações em que se percebeu que a criança reconhecia o desenho que era apresentado, mas não fazia acesso ao item lexical. Como por exemplo, ao ser deparada com a figura que bola, carro, gato, vaca, sapo, chave, meia, fogo, café, asa, lixo, olho, garfo, pasta, flor, lápis, bruxa

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representava a “placa” as crianças diziam: “- É aquele negócio de proibido parar”. “É que não pode deixar o carro!”, mas não pronunciavam o alvo esperado.

Das 43 palavras do instrumento, 21 (48%) apresentaram algum índice de erro quanto ao reconhecimento da palavra. A tabela 2 ilustra estas palavras, bem como o número de sujeitos que não alcançaram o alvo em cada item.

Tabela 2. Não reconhecimento de palavra

Palavra n(%) d) Não reconhecimento do desenho

Outra situação observada durante a coleta de dados foi também a de contrariedade do item “c”, ou seja, o não reconhecimento do desenho, embora a criança conhecesse o alvo desejado. Por exemplo: ao apresentar para à criança a ficha 7 (Apêndice D), que representava a palavra "feijão", a criança não respondia. Logo que era oferecida a ela uma pista semântica (é aquilo que se come com o arroz) a criança enunciava o alvo desejado, demonstrando conhecer a palavra, mas não a ter reconhecido no desenho.

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Das 43 palavras do instrumento, 10 (23%) apresentaram algum índice de erro quanto ao reconhecimento do desenho. A tabela 3 ilustra o número de sujeitos que não identificaram o desenho em cada item.

Tabela 3. Não reconhecimento do desenho

Desenho n (%)

3.2. Tempo de aplicação do protocolo

No que diz respeito ao tempo de aplicação do protocolo, as aplicações mais rápidas demandaram um tempo entre quatro e cinco minutos e 59 segundos. A aplicação que demandou mais tempo foi de quatorze minutos. O tempo médio de aplicação foi de sete minutos com desvio padrão de 2,93. A tabela 4 ilustra o tempo de aplicação das 26 testagens.

Tabela 4. Tempo de Aplicação

Variável n %

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Observa-se pela tabela que nove testagens foram realizadas em um tempo inferior a seis minutos.

3.3. Tempo de análise dos resultados

Verificou-se que em 30,9% da amostra o tempo de análise da coleta de dados foi entre 6 e 8 minutos e 59 segundos. O tempo médio foi de treze minutos com desvio padrão de 6,3. A tabela 5 ilustra o tempo de análise da fala das 26 testagens.

Tabela 5. Tempo de Análise dos resultados Variável n %

3.4. Perfil Fonológico

O perfil fonológico foi verificado por meio da comparação dos achados da tabela de processos fonológicos (Apêndice B) e a idade esperada para o aparecimento do som no inventário fonológico da criança (Apêndice C). Assim, verificou-se que 76,9% da amostra estava dentro dos padrões de normalidade para a idade esperada e 23,1% apresentou alterações na fala. Dessas alterações constatou-se que 6,7% referiam-se a desvio fonológico evolutivo, 16,7% referiam-se a alterações fonéticas e 16,7% representavam outras alterações de cunho não fonológico. As tabelas 6 e 7 ilustram estes resultados.

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