A História dos Papas-C.Bússola

A História dos Papas-C.Bússola

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A verdade sobre a origem da Igreja Romana | CARLO BÚSSOLA

A históriA dos PAPAs A verdade sobre a origem da Igreja Romana

Carlo Bússola E-book;/L.Lincoln

Nota do Editor:

O Professor Carlo Bússola, residente em Vitória-ES, é um erudito e pesquisador incansável deste tema – o qual expôs com brilhantismo, jamais visto por este editor, numa série de artigos publicados semanalmente no jornal “A Tribuna” e acompanhados e lidos com avidez pelo principal jornal do Estado do Espírito Santo. Hoje desfrutando da merecida aposentadoria, o Professor Carlo Bússola durante anos esteve à frente da cátedra de Filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Agradecemos à distinta família do Professor Carlo Bússola que, gentilmente, nos autorizou reproduzir este riquíssimo material em formato digital.

Este precioso acervo e legado, fruto da dedicação e profunda pesquisa, está à disposição dos nossos internautas e fiéis leitores. No entanto, lembramos, é vedada a republicação ou postagem deste material sem a expressa autorização dos editores desta obra, amparada numa consulta à família do Professor Carlo Bússola – detentora e fiel depositária dos direitos autorais legais.

nas leis de direitos autorais

Lembramos ainda que o uso e/ou distribuição deste material – sob quaisquer formas – fora dos limites aqui expostos configura crime, sendo os infratores passíveis das penalidades previstas E-book;/L.LincoLn

I - A Ideologia e o Mito A Roma cristã e seu poder estão fundamentados sobre a Roma pagã

Atenção, leitor! Esta obra que estou começando a escrever não é História do Cristianismo ou História da Igreja cristã, mas tão somente a história dos homens que ocuparam o cargo de bispos na cidade de Roma. Vou falar de homens e de sua ideologia do poder. Só.

Nos casos específicos dos bispos de Roma chamo de ideologia a interpretação que os mesmos fizeram e fazem de uma situação religiosa que tem um aspecto social e político.

Essa interpretação acontece a partir de uma evolução histórica para a qual confluíram elementos políticos, morais, religiosos, filosóficos e econômicos que implicaram numa tomada de posição, de modo que em primeiro lugar foram elaboradas doutrinas para justificar aquela interpretação e, em seguida, foram tomadas as medidas que se julgara necessárias para a realização do sonho interpretativo de situação já programada, para realizá-lo com referência ao poder.

Neste caso, a "ideologia do poder" é o sonho espalhado no grande círculo eclesiástico romano que justifica, sob a luz da religião, todos esses elementos políticos, econômicos, morais e religiosos de uma supremacia (ou ditadura) papal.

Por "poder" aqui entendo aquele aspecto da faculdade da vontade que quer colocar-se acima dos outros para dominá-los ou física, ou política, ou economicamente, sempre, porém, sob o manto da religião.

Noutras palavras: poder, enquanto tal, significa capacidade de dominar. Por isso, neste caso, ideologia do poder é o sonho de domínio que usa da religião para estar acima do bem e do mal, seja político ou econômico.

Deste modo, a ideologia do poder se torna, num certo momento, o substrato de toda uma mentalidade. Seria o caso de falar do inconsciente coletivo que se reflete no inconsciente individual dos bispos de Roma.

Para Sto. Agostinho, só para citar um dos grandes responsáveis desta ideologia, "o Estado justo deveria ser aquele em que a verdadeira religião é mantida pela lei e pela autoridade e nenhum Estado poderia ser justo a partir do advento do cristianismo, a menos que não fosse também cristão". (G. Sabine; "História das Teorias Políticas"; Ed. F. de C; RJ; 1964; pág. 198).

Em todos os próximos artigos só tratarei da ideologia do poder dos homens que foram bispos em Roma. Se, a um certo momento, estes homens deram ao seu cargo de bispos um cunho universal é porque os homens que ocupavam este cargo compartilhavam de uma ideologia que, embora não fosse da essência do cargo, quiseram enxertá-la no mesmo cargo.

O que mais impressiona o historiador é que nunca foi escrito algo com referência direta e exclusiva a este assunto. Todos os historiadores misturam a vida política do bispo de Roma com a história da vida cristã no Ocidente, de modo que vida cristã e vida papal se fundem.

Sem contar que muitos historiadores colocam um manto sobre o assunto para que o leitor não entenda nada.

pessoal dos papas ou de sua ideologia do poder

Por exemplo: "A Reforma na Idade Média" de Brenda Balton (Edições 70) só diz à página 20: "A Igreja tornara-se negligente e mundana". E George Duby em "O Ano Mil" (Ed. 70) nem fala da vida

E é justamente o ano 1000 que é o mais importante para este assunto! Quanto ao famoso Daniel Rops, nem se fale! Aliás, no meu modo de ver, ele confunde papado e cristianismo.

Vou agora dar o nome dos principais historiadores e suas obras das quais me servi para este trabalho. Em primeiro lugar, Maurice Lachatre: "História dos Papas, etc."; tradução de A. J. Vieira; Ed. Mestre Popular; Lisboa; 1895. São cinco enormes volumes que eu consegui de uma universidade portuguesa, quando eu era assessor do reitor da Ufes, Dr. Manoel C. S. de Almeida.

20 Duplessis-Mornay; "Mistérios e Iniqüidades da Corte de Roma". 30 Sto. Irineu, bispo de Lyon; "Demonstração e Refutação da Falsa Gnose". 40 Eusébio, bispo de Cesareia; "História Eclesiástica" e também; "A vida do bem-aventurado Constantino”.

5°: Anastásio o Bibliotecário (da Igreja romana). 60: João de Sa-risbury; "História Pontificalis". 7°: Johannes Burchard, bispo alemão; "Diarium" (sobre Alexandre VI e sua época).

80: Flaccius Illyricus, teólogo protestante; "História Ecclesiástica per Centúrias". 90: Luis Mainburg, padre jesuíta. 100: Claude Fleury, padre e escritor francês; "Histoire Eclesiastique" em 20 volumes. 11°: G. D. Mansi, arcebispo de Lucca na Itália; "Acta Conciliorum" em 31 volumes.

12°: Pierre Bayle, professor de Teologia; "Dictionnaire Historique et Critique". 130: J.J.I. von Döllinger; "Der Papst und das Konzil" e "Die Papstfabeen des Miltecalters". 14°: L. von Pastor;

"História dos papas desde o fim da Idade Média": 16 volumes.

Alguns desses livros eu guardo xerocados, já que não se encontram mais. De outros, tenho as notas, em velhos cadernos amarelados, que eu fazia nos sábados e nos domingos na época em que, jovem estudante de Filosofia e Teologia, eu era chefe da Biblioteca Teológica e, portanto, guardião das chaves dos "livros proibidos".

Resta-me agora uma pergunta: por qual motivo houve (e talvez ainda haja) uma ideologia do poder radicalmente contrária à mentalidade e à pregação de Jesus Cristo assim como aparece nos evangelhos (se é que os evangelhos retratam fielmente o pensamento d'Ele...).

Parece-me que o mito de supremacia da Roma eclesiástica se baseia em quatro pontos: 1o Roma "caput mundi" (cabeça do mundo) com 20 seus divinos imperadores que também eram 3o "summi pontífices"; e finalmente a crença que 40 São Pedro tenha sido bispo de Roma.

1) "Roma caput mundi", como se dizia então, isto é: cabeça e centro do mundo. De fato, por mais de mil anos antes e depois de Cristo, Roma era a capital do império. Era o centro político de uma estratégia muito séria, ao ponto que abstraindo da Roma material, foi criado o conceito de "Dea Romaria” (a deusa Roma) que estaria vivendo espiritualmente na Roma material.

Este fato político era tão sério que quando os povos helenizados das províncias romanas orientais quiseram divinizar o imperador Augusto, ele só admitiu o culto à sua pessoa conquanto que fosse ligado ao culto de Roma. Mircea Eliades em "História das crenças e das idéias religiosas" explica isto muito bem.

Ora, pensavam os bispos cristãos de Roma, do mesmo modo que o culto do imperador e o culto de Roma unificava o império, assim, agora, o culto ao vigário de Cristo e o culto à cidade de Roma, quase toda cristã, unificará o Cristianismo.

2) "Seus divinos imperadores": divinos, por causa da Deusa Roma. É ainda Mircea Eliades (op. cit.; Zahar; 1978; T. 1; v.l;pg. 116) que nos relata quais e porque os imperadores romanos foram proclamados deuses: Júlio César; Augusto (27 a.C. -14 d.C); Cláudio (41 d.C.); Vespasiano (69- 79); Tito (79-81); Adriano (117-138); Antonino (138-161); Marco Aurélio (161-170); Cômodo e Galliano.

3) "Pontífices Maximi" (sumos pontífices): o I rei de Roma, Numa Pompílio (715 - 672 a.C.) organizou a religião dos romanos e fundou o colégio de cinco sacerdotes dirigidos por um sumo pontífice cujo cargo chegou a ser de tanta importância junto ao povo e aos nobres que os imperadores o reservaram para si.

A partir de então estavam juntos, numa só pessoa, a política e a religião e deste modo era mais fácil conseguir a obediência total e completa do povo. Foi a partir desta idéia que nasceu a ideologia eclesiástica do poder: poder religioso e político.

de Papias (que morreu 207 anos após Pedro!!)É pura tradição: veja meus artigos números 541,

4) São Pedro bispo de Roma: verdade ou mentira, o fato é que a idéia pegou. O primeiro a nos dizer que Pedro esteve em Roma foi Eusébio, que morreu 303 anos após a morte de Pedro (67 d.C.)!!! Mas ele diz ter acolhido testemunhos de Sto. Irineu, bispo de Lyon (que morreu 136 anos após Pedro!!); de Clemente de Alexandria (que morreu 146 anos após Pedro!!) e 546, 547, 539.

Verdade ou mentira, a idéia pegou e serviu muito bem à ideologia do poder eclesiástico romano.

No fim da obra colocarei um núcleo sintético de pesquisas com referência aos "passos" dados pelos bispos de Roma para alcançar o poder e um resumo da evolução jurídico-teológica da ideologia eclesiástica do poder, a partir do começo até Bellarmino e Suarez, ambos jesuítas.

I - Existe Uma Ideologia do Poder?

A ideologia de um poder eclesiástico romano fundamentou-se em Roma capital do Império

Quando eu morava em Beirute, uma das queixas que os cristãos ortodoxos faziam contra o Vaticano era a insistência romana para que reconhecessem o bispo de Roma como chefe supremo de todos os cristãos.

Por que esta insistência? Porque existia no Vaticano a ideologia do poder papal centralizador. Vou dar aqui o mais recente caso, entre os tantos já ocorridos, relatado pela revista alemã Der Spiegel

(número 1; jan/96) que escreve: “mesmo que o Vaticano não esteja disposto a escutar-nos, nós tentaremos, com insistência, ser ouvidos".

É o resumo de uma longa queixa contra o poder autoritário do bispo de Roma; e quem se queixa são 40 bispos americanos cujo porta-voz é o arcebispo de Milwankee, Rambert Weakland.

De que se queixam? Que o princípio da colegialidade promulgado pelo Concilio Vaticano I é esquecido propositadamente por João Paulo I que governa a Igreja "como um consórcio multinacional com o quartel-geral em Roma, enquanto as dioceses são relegadas à condição de filiais sem autoridade própria".

Os americanos tiveram a coragem de dizer isto porque, como é público e notório, são eles que mais contribuem com as finanças do Vaticano: "sem o dinheiro americano o Papa faria suas viagens intercontinentais no barco de São Pedro". (Entrevista à Rumos; Brasília, número 56; jan. 1990; p. 8).

Mas porque o Papa age assim? Porque existe lá, em Roma, a ideologia do poder: um poder que já foi eclesiástico e, depois, político, e, agora, espiritual. Assim veio surgindo nestes dois mil anos de cristianismo a ideologia do poder centralizado no bispo de Roma.

Há, sim, uma ideologia do poder!

O que é ideologia do poder? Bertrand Russel pensava que o poder, com a glória de que se reveste, permanece como a mais alta aspiração e a maior recompensa dos homens: "Dos infinitos desejos do homem, o principal é o desejo do poder coroado de glória" (em: "Power, a new social analysis"; Ed. W. Norton; New York; pg. 1).

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