Trabalhando a voz do professor

Trabalhando a voz do professor

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TRABALHANDO A VOZ DO PROFESSOR Prevenir, Orientar e Conscientizar

RIO DE JANEIRO 2000

TRABALHANDO A VOZ DO PROFESSOR Prevenir, Orientar e Conscientizar

Monografia apresentada como parte das exigências para a conclusão do Curso de Especialização em Voz.

Orientadora: Mirian Goldenberg

RIO DE JANEIRO 2000

À Maria Cândida Pollastri de Castro, minha tia e amiga, por ter me recebido e apoiado com todo carinho ao longo dessa jornada.

À professora Mirian Goldenberg, pela orientação e apoio concedidos no desenvolvimento desse trabalho.

A todos os meus pacientes que, direta ou indiretamente, muito contribuíram para a realização desse trabalho.

5 SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO8
2. COMO MANTER UMA BOA VOZ1
2.1 REVISÃO DA ANATOMIA E FISIOLOGIA1
2.2 SISTEMA RESPIRATÓRIO13
2.3 IMPORTÂNCIA DA TERAPÊUTICA RESPIRATÓRIA15
2.4 SAÚDE VOCAL16
3. ORATÓRIA, GESTOS E POSTURAS21
4. O COTIDIANO DO PROFESSOR24
4.1 PRINCIPAIS QUEIXAS24
4.2 DIFICULDADES ENCONTRADAS DENTRO E FORA DA SALA DE AULA25
4.3 RELAÇÃO VOZ X CARGA HORÁRIA27
4.4 DISFONIA COMO DOENÇA OCUPACIONAL28
5. RELAÇÃO ESTRESSE X VOZ31
6. IMPORTÂNCIA DA TERAPIA VOCAL NO TRABALHO COM PROFESSORES3
6.1 COMO AUXILIAR OS PROFESSORES NOS CUIDADOS COM A VOZ34
JUNTO AOS PROFESSORES35
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS37

6 SUMMARY

The goal of this paper was to show the importance of prevention and correct orientation in the treatment of teachers vocal problems. Through theoretical researchs, important information was raised concerning the main complaints, the more common vocal abuses and their consequences. As well the difficulties found by those professionals in their daily work.

Beside these, the most part of professionals work in crowded
classes, without the means to provide them an adequate vocal production

Factors like frequent psychological stress and lack of pedagogical resources were mentioned by the researched authors as the main problems found by teachers. Resources as microphones or roams designed with better acoustics are not a Brazilian reality, but are fundamental to the maintenance of the voice quality and consequently to a more efficient and pleasant education.

This paper has been a contribution to teachers to become aware of the importance of prevention and habits changes. As well the correct prevention towards voice problems, since teachers are the professionals that have got the highest number of vocal alterations.

7 RESUMO

O objetivo desse trabalho foi mostrar a importância da prevenção e correta orientação no tratamento dos problemas vocais dos professores. Através de pesquisa teórica, foram levantados dados importantes sobre as principais queixas, os abusos vocais mais cometidos e suas conseqüências, e as dificuldades encontradas por esses profissionais no dia-a-dia de seu trabalho.

Fatores como freqüente estresse psicológico e falta de recursos pedagógicos foram apontados pelos autores pesquisados como principais problemas encontrados pelos professores.

Além desses, a maioria dos profissionais trabalham em salas de aula cheias e sem meios que propiciem uma adequada produção vocal. Recursos como microfone ou salas projetadas com uma acústica melhor são propostas que, apesar de não fazer parte da realidade brasileira, são fundamentais para a manutenção da qualidade da voz e, consequentemente, para uma educação mais eficiente e prazerosa.

A prevenção é o principal meio para se evitar problemas vocais, embora, baseado em experiências de consultório particular, são raros os professores que procuram a terapia fonoaudiológica antes de se estabelecer um problema.

Esse trabalho contribuiu para que os professores se conscientizem da importância da prevenção, da mudança de hábitos e correta profilaxia com a voz, visto que são eles os profissionais com maior índice de alterações vocais.

8 1. INTRODUÇÃO

Muito tem-se estudado sobre a voz dos profissionais de diversas áreas de atuação, incluindo a voz do professor.

Com o avanço da tecnologia e a criação das fibras óticas tornou-se possível conhecer e estudar, detalhadamente, a anatomia e fisiologia da voz humana.

A Fonoaudiologia – ciência que estuda a comunicação humana em suas manifestações normais e patológicas –, vem-se dedicando há algum tempo a análise vocal do professor, devido a grande importância que esse profissional exerce sobre a formação social, cultural e educacional dos indivíduos.

O que leva-nos a pesquisar sobre a voz do professor é a intensa vontade de conseguir desenvolver um trabalho mais dinâmico e eficaz, com maior segurança, atingindo resultados positivos com um período reduzido de terapia.

Buscando ampliar esta área de conhecimento e, ao mesmo tempo, procurando entender o que pensam e como agem os nossos educadores, surgiram algumas dúvidas com relação ao tratamento da voz que foram cruciais para o desenvolvimento desta pesquisa.

De acordo com estudos realizados entre profissionais que trabalham com a voz, a docência é uma das profissões com maior incidência de alterações vocais. Essas alterações afetam a vida pessoal, social e, sobretudo, a vida profissional, causando ansiedade e angústia.

A maioria dos professores não tem consciência da influência da voz no desempenho de sua função, não atentando para o fato de ser a mesma o principal meio de transmissão de conhecimentos.

Há uma grande falta de informação por parte desses profissionais com relação ao uso e aos cuidados básicos da voz, talvez pela ausência de orientações adequadas para tal. Geralmente, apenas no momento em que a voz começa a falhar, dando sinais de fadiga, ou mesmo quando já se estabeleceu uma patologia que os impossibilita de trabalhar utilizando a mesma, é que o professor desperta para a importância da própria voz e os cuidados a serem tomados com ela.

Sendo o educador um sólido modelo para seus alunos – um verdadeiro formador de opiniões –, a preocupação com a voz e as repercussões negativas que a mesma traz, tanto para o docente quanto para os alunos, tem sido motivo para diversos trabalhos nesta área.

É importante que o professor mantenha hábitos corretos de postura, gestos precisos e uma boa qualidade vocal, pois seu padrão de conduta, além de influenciar na transmissão dos conhecimentos, é constantemente observado e, muitas vezes, imitado pelos interlocutores.

O objetivo deste trabalho, portanto, é expor as principais dificuldades do professor na manutenção de uma voz saudável, devido a seu uso geralmente intenso em jornadas excessivas de trabalho, demonstrando os reflexos que esta prática exerce em sua vida profissional e pessoal e, consequentemente, como a Fonoaudiologia poderá beneficiá-los na prevenção, manutenção e correção de possíveis alterações laríngeas.

Acredita-se que muitos profissionais passam constantemente por situações duvidosas e incertas no atendimento aos professores. Este trabalho também visa o esclarecimento, total ou parcial, de algumas destas dúvidas e incertezas e a suscitação de outras.

1 2. COMO MANTER UMA BOA VOZ

2.1 REVISÃO DA ANATOMIA E FISIOLOGIA

O mecanismo fonatório acontece durante a fase expiratória da respiração. Para tal faz-se necessária uma atividade equilibrada de toda musculatura intrínseca da laringe, que é constituída pelos músculos aritenóideos, cricoaritenóideos laterais e feixe externo do tiroaritenóideos (músculos adutores).

Constituindo o mecanismo abdutor das pregas vocais encontra-se os músculos cricoaritenóideos posteriores. O mecanismo de tensão é realizado pelos músculos cricotireóideos e principalmente pela ação do feixe interno do músculo tiroaritenóideos.

A voz é produzida pela vibração das pregas vocais. Durante a expiração as pregas vocais se aproximam em toda sua extensão, resultando num fechamento glótico e conseqüente aumento da pressão aérea subglótica. Estas duas forças opostas resultam na vibração das pregas vocais.

A pressão subglótica forma-se quando as pregas vocais são aproximadas. O volume de ar expirado que deixa os pulmões é retardado ao nível da glote, o que resulta em maior velocidade de fluxo de ar através da glote (BOONE, 1984).

A pressão subglótica aumenta em relação a pressão aérea subglótica e as pregas vocais são separadas rapidamente, igualando as duas pressões (fase de abertura de um ciclo de vibração).

Devido a massa das pregas vocais e ao efeito de Bernouilli (efeito de sucção), elas se unem novamente à sua linha de aproximação prévia (fase de fechamento do ciclo de vocalização).

O efeito de Bernouilli é a atração sugadora das pregas vocais, uma em direção à outra, causada pela maior velocidade do ar passando entre as pregas vocais aproximadas.

BOONE (1984) explica que o ciclo vibratório funciona da seguinte forma: os adutores intrínsecos aproximam as pregas vocais quando a expiração inicia; a pressão sub aumenta; o fluxo de ar passa pela abertura glótica e separa as pregas vocais; a massa estática e o efeito de Bernouilli as aproximam novamente; o ciclo vibratório se repete.

Este ciclo pode se repetir aproximadamente 125 vezes por segundo na vocalização de um homem adulto e 215 vezes por segundo em uma mulher adulta (BONNE, 1984).

cricóidea. Músculos intrínsecos: E) cricoaritenóideo posterior; F) cricoaritenóideo lateral;
G) aritenóideo oblícuo; H) aritenóideo transverso; I) ariepiglótico; J) tiroaritenóideo (prega vocal);

FIGURA 1. Estruturas cartilaginosas laríngeas básicas: A) corte da ala direita da tireóidea; B) parede cartilaginosa da tireóidea esquerda; C) cartilagem aritenóidea esquerda; D) posterior da cartilagem K) prega ventricular; L) epiglote. (BOONE & McFARLANE, 1994).

13 2.2 SISTEMA RESPIRATÓRIO

Os humanos aprenderam a usar a respiração para a fala. Tanto falar como cantar requer um fluxo de ar expiratório capaz de ativar a vibração das pregas vocais.

É comum encontrarmos em profissionais da voz – mais especificamente em professores – um descontrole entre a respiração e a fala. Basicamente, é o conflito entre as necessidades fisiológicas e as exigências da fala pelo ar que causa o uso incorreto do mecanismo vocal (BOONE, 1984: 176).

A dependência da renovação constante de ar impõe certas limitações sobre quantas palavras podemos dizer, quantas frases podemos pronunciar ou quanta ênfase podemos usar em uma expiração.

O modo respiratório corresponde ao predomínio da respiração (oral, nasal ou misto) escolhido e usado durante situações de repouso (fora da fonação). O ideal é que as inspirações sejam realizadas pela via nasal já que dessa forma há aquecimento, umidificação e filtragem de ar, favorecendo as condições ambientais do trabalho vocal (PINHO 1998).

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