Compreendendo a linguagem do afasico

Compreendendo a linguagem do afasico

(Parte 1 de 2)

Curitiba 2011

Anais do VII Congresso Internacional da Abralin

Compreendendo a linguagem do sujeito afásico SR por meio de sua narrativa

Mirian Cazarotti Pacheco1;1, Rosana do Carmo Novaes Pinto2

1,2 Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) cazarottimirian@ig.com.br

Resumo: este artigo busca refletir sobre as características lingüísticas do sujeito afásico SR por meio da análise de sua narrativa. Nossas análises e reflexões pautam-se nos pressupostos teóricos de Bakhtin e no sistema proposto por Labov/Waletski para analisar narrativas cotidianas. As análises são relativas aos dados de um episódio dialógico, videogravados, transcritos e analisados conforme a metodologia microgenética. Como resultado, observamos que a maior dificuldade do sujeito é de selecionar elementos lingüísticos, com ênfase na dificuldade com o acesso lexical. Entretanto, SR consegue alcançar seu querer dizer por meio dos acabamentos que seu interlocutor dá durante a construção conjunta da narrativa.

Palavras-chave: afasia, discurso narrativo, neurolinguística.

Introdução

Este estudo pauta-se na abordagem neurolinguística de orientação enunciativo-discursiva (COUDRY, 2002), cujo interesse central é avaliar e compreender processos de significação, patológicos ou não, presentes na linguagem dos sujeitos. Consideramos possível relacioná-la aos conceitos postulados por Bakhtin (2003 [1979]), pois ambos privilegiam o sujeito e a linguagem em funcionamento.

A partir de tal embasamento teórico, pretendemos com este trabalho compreender melhor as características lingüísticas dos enunciados de um sujeito afásico – SR -, privilegiando o gênero do discurso narrativo.

Iniciamos nossas discussões com um dos principais conceitos desenvolvidos por Bakhtin (2003 [1979]), o enunciado, definido como unidade real da comunicação. O enunciado é organizado tanto pelos recursos da língua (lexicais, semânticos, sintáticos), como também pelos gêneros discursivos. A esse respeito, o autor explicita que:

[...] Todo enunciado – da réplica sucinta (monovocal) do diálogo cotidiano ao grande romance ou tratado científico – tem, por assim dizer, um princípio absoluto e um fim absoluto: antes de seu início, os enunciados de outros, depois de seu término, os enunciados responsivos de outros (ou ao menos uma compreensão ativamente responsiva silenciosa do outro ou, por último, uma ação responsiva baseada nessa compreensão). O falante termina o seu enunciado para passar a palavra ao outro ou dar lugar à sua compreensão ativamente responsiva. O enunciado não é uma unidade convencional, mas uma unidade real, precisamente delimitada da alternância dos

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Anais do VII Congresso Internacional da Abralin sujeitos do discurso, a qual termina com a transmissão da palavra ao outro, por mais silencioso que seja o “dixi” percebido pelos ouvintes [como sinal] de que o falante terminou”. (idem, p. 275).

A réplica é constituída, segundo Bakhtin (idem) pelos enunciados dos “parceiros do diálogo” (interlocutores) que se alternam regularmente nele. O diálogo, por sua clareza e simplicidade, é a forma clássica da comunicação discursiva, na qual se torna mais evidente a alternância dos sujeitos falantes. “Para este autor, a situação dialógica, ou interlocução, é constitutiva dos enunciados nas interações verbais” (CAZAROTTI-PACHECO, 2006, p. 7).

Entendemos que, a cada réplica, o interlocutor pode tomar uma posição responsiva, que pode ser, entre outras, de consentimento, de incompreensão, em forma de ação (diante de uma ordem); para isso, cada réplica deve ter um acabamento específico que deixa clara a posição do falante (ou como preferimos, do interlocutor que está com a palavra).

Outra noção defendida por Bakhtin (2003 [1979]) é a de conclusibilidade, explicitada como “uma espécie de aspecto interno da alternância dos sujeitos do discurso; essa alternância pode ocorrer precisamente porque o falante disse (ou escreveu) tudo o que quis dizer em dado momento ou sob dadas condições” (p. 280). A possibilidade de responder, de assumir uma posição responsiva (como por exemplo, cumprir uma ordem) é o primeiro e mais importante dos critérios de conclusibilidade de um enunciado. Ainda nas palavras do autor:

[...] Alguma conclusibilidade é necessária para que se possa responder ao enunciado. Para isso não basta que o enunciado seja compreendido no nível de língua. Uma oração absolutamente compreensível e acabada, se é oração e não enunciado constituído por uma oração, não pode suscitar atitude responsiva: isso é compreensível mas ainda não é tudo. Esse tudo - indício da inteireza do enunciado – não se presta a uma definição nem gramática nem abstrato-semântica. (idem, p. 280; grifos do autor.)

Essa inteireza acabada do enunciado é determinada por três fatores (elementos), que estão indissociavelmente ligados no todo do enunciado: “1) exauribilidade do objeto e do sentido; 2) projeto de discurso ou vontade de discurso do falante; 3) formas típicas composicionais e de gênero do acabamento”. (BAKHTIN, 2003 [1979], p. 280-281).

Em concordância com Novaes-Pinto (1999), acreditamos que os conceitos acima descritos podem auxiliar na compreensão da relação instaurada entre os interlocutores em episódios dialógicos quando se encontram frente às dificuldades discursivas dos sujeitos com afasia. Não parece ser apenas o grau da afasia que determina a gravidade do seu impacto para o sujeito. É bastante freqüente nos depararmos com enunciados que revelam a dificuldade de dizer tudo o que se queria, como por exemplo: “Eu não sei falar”, “Eu não falo nada”. Entretanto, os sujeitos dizem isso, falando, construindo enunciados verbais. Por outro lado, podemos tomar tais afirmações como indícios de que o intuito discursivo (quererdizer) e a exauribilidade do objeto e do sentido não foram plenamente alcançados. Como afirma Bakhtin (2003 [1979]):

[...] os participantes imediatos da comunicação, que se orientam na situação e nos enunciados antecedentes, abrangem fácil e rapidamente a intenção discursiva, a

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Anais do VII Congresso Internacional da Abralin vontade discursiva do falante, e desde o início do discurso percebem o todo do enunciado em desdobramento”. (p.282; grifo do autor).

Esses indícios também foram encontrados durante as análises do episódio dialógico do sujeito afásico SR, que será exposto neste estudo.

Para Bakhtin (idem), ao perceber o que o sujeito quer dizer (intuito discursivo) conseguimos medir a conclusibilidade do enunciado. Esse intuito também determina para o sujeito a escolha do gênero do discurso, onde o enunciado será estruturado. A esse respeito, Bakhtin afirma que:

Falamos apenas através de determinados gêneros do discurso, isto é, todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo. Dispomos de um rico repertório de gêneros de discurso orais (e escritos). Em termos práticos, nós os empregamos de forma segura e habilidosa, mas em termos teóricos podemos desconhecer inteiramente a sua existência. [...] Até mesmo no bate-papo mais descontraído e livre nós moldamos o nosso discurso por determinadas formas de gênero, às vezes padronizadas e estereotipadas, às vezes mais flexíveis, plásticas e criativas. [...] Esses gêneros do discurso nos são dados quase da mesma forma que nos é dada a língua materna. (BAKHTIN, 2003 [1979]), p. 282; grifos do autor).

Esse terceiro fator, que corresponde aos gêneros discursivos, também pode não estar sendo alcançado no discurso de sujeitos afásicos, como tem sido demonstrado em diversos estudos. Novaes-Pinto (1999) aponta que “as afasias podem perturbar tanto as relações formais como as condições que intervêm na produção de enunciados efetivos, e em alguns gêneros do discurso mais que em outros” (p.165). Em estudo anterior, observamos que:

Dados obtidos em situações dialógicas com sujeitos afásicos permitem afirmar que um dos gêneros que mais resistem nas afasias é o gênero narrativo, embora certamente variem, de acordo com o grau de severidade dos casos. (CAZAROTTI-PACHECO; NOVAES-PINTO, 2010, p.5).

Tal constatação nos levou, portanto, dentre outras razões, a escolhermos o discurso narrativo como espaço privilegiado para a análise dos impactos das afasias na linguagem dos sujeitos.

Bakhtin (2003 [1979]) postula que apreendemos a composição do léxico e da estrutura gramatical da língua materna mediante enunciados concretos que ouvimos e reproduzimos no momento da comunicação verbal viva, com os indivíduos que nos rodeiam. Os gêneros do discurso introduzem-se, ao mesmo tempo, em nossa experiência e em nossa consciência. Para ele “aprender a falar significa aprender a construir enunciados” (p. 283), pois falamos por meio de enunciados e não por palavras ou orações isoladas. Deste modo, nossa fala é organizada pelos gêneros discursivos, assim como pelas formas gramaticais (sintáticas).

Como vimos apontando em nossos trabalhos, Bakhtin propõe um equilíbrio entre o valor das organizações lexicais e sintáticas e o fato de que tais unidades e regras são aprendidas na experiência com a própria língua.

Os gêneros do discurso se caracterizam em: gênero de discurso primário (simples), que dizem respeito às conversas sobre temas cotidianos, sociais, estéticos, das conversas íntimo-amistosas, familiares e etc; e gênero de discurso

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Anais do VII Congresso Internacional da Abralin secundário (complexo), próprio do romance, teatro, das pesquisas científicas, dos grandes gêneros publicitários etc. Estes últimos “surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) - artístico, científico, sociopolítico, etc” (p. 263). Os gêneros primários, que se constituíram na comunicação discursiva imediata, transformam-se e perdem o vínculo imediato com a realidade concreta e com os enunciados alheios para a formação do gênero secundário (Bakhtin, 2003 [1979]). O autor destaca que:

[...] o direcionamento, o endereçamento do enunciado é sua particularidade constitutiva sem a qual não há e não pode haver enunciado. As várias formas típicas de tal direcionamento e as diferentes concepções típicas de destinatários são peculiaridades constitutivas e determinantes dos diferentes gêneros do discurso. (idem, p. 305).

Portanto, as experiências comunicativas reais anteriores é que nos permitem selecionar adequadamente o gênero discursivo, considerando as particularidades do interlocutor e da situação interativa vivenciada.

Labov e Waletsky (1967) e Labov (1972), sugerem que a estrutura básica da narrativa é composta pelos seguintes elementos: resumo, orientação, ação complicadora, avaliação e resultado ou desfecho.

Para os autores, a função da avaliação é informar sobre a carga dramática e/ou emocional da situação, eventos e/ou protagonistas da narrativa. Eles entendem a avaliação como a razão de ser da narrativa, pois é por meio dela que o narrador pode indicar o porquê de uma estória ser ou não reportável (contável) e ainda, o motivo pelo qual uma estória é contada.

Labov (1972) ressalta que nem sempre todos esses elementos encontram-se numa narrativa, mas a ação complicadora e a reportabilidade se fazem essenciais em sua estrutura.

Objetivo

Neste trabalho, trazemos uma reflexão sobre as características lingüísticas dos enunciados do sujeito afásico SR, destacando suas dificuldades de seleção, em situação interativa na qual se desenvolve o gênero narrativo.

Aspectos Metodológicos

As análises são relativas aos dados de um episódio dialógico com o sujeito SR, do sexo masculino, 58 anos de idade, que apresenta uma afasia que pode ser caracterizada como fluente, decorrente de um episódio de AVC em 2005. Esses dados, videogravados nas sessões em grupo com sujeitos afásicos e não afásicos das quais SR participa desde 2006, no Grupo I do Centro de Convivência de Afásicos (CCA)2, foram posteriormente transcritos e analisados conforme a

2 O CCA (Centro de Convivência de Afásicos) foi criado com o objetivo de buscar soluções para os sujeitos afásicos, diante do isolamento social que enfrentam muitas vezes. O acompanhamento é realizado em grupo, na convivência com sujeitos não-afásicos, em diversas situações e práticas discursivas nas quais se exploram todos os aspectos que constituem o funcionamento da linguagem em suas diferentes configurações, como nos diálogos, comentários, narrativas, leituras, etc (Morato, 2002). O projeto é resultado de uma ação conjunta entre os Departamentos de Lingüística e de Neurologia da

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Anais do VII Congresso Internacional da Abralin metodologia microgenética (Góes, 2000). Nesse período, o sujeito SR também recebeu atendimento fonoaudiológico individual. Entendemos que os episódios dialógicos são constituídos por turnos conversacionais nos quais, os parceiros da comunicação verbal se alternam, na produção de enunciados, dando sucessivos acabamentos um ao outro (BAKHTIN, 2003 [1979]).

linguagem de sujeitos cérebro-lesados3

A transcrição da fala dos sujeitos foi feita baseando-se no sistema estabelecido pelo Banco de Dados Neurolinguísticos (BDN) para análise da

Análises e discussões

Episódio – 01/12/2009

Durante uma sessão do Grupo I do CCA, um dos participantes afásicos – JM – discorre sobre seu trabalho antes do episódio neurológico e relata que SR – sujeito desta reflexão - também foi funcionário da mesma empresa. A partir dessa situação, SR inicia seu relato.

= pausa longa;

Legenda - adaptada do quadro do Projeto NURC (Marcuschi, 1986): letra maiúscula = ênfase; a = prolongamento de vogal * = imprecisão articulatória; [ = simultaneidade de vozes

N. da linha Sigla do locutor

Transcrição da Fala Observação sobre a condição de produção do enunciado verbal

Observação sobre a condição de produção do enunciado não verbal

1 SR Eu num conheci o senhor porque eu montei a fábrica e saí

3 SR [Nãonão...não...

2 JM [Sim 4 Irn Não se encontraram!

5 SR É

6 Irn Quanto tempo o senhor ficou lá? Dois anos! Montou a fábrica, foi embora e ele chegou!

Risos

Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com funcionamento no Instituto de Estudos Lingüísticos (IEL).

3 “O BDN tem servido a várias pesquisas e tem sido elaborado no interior do “Projeto Integrado em Neurolingüística: avaliação e banco de dados” (CNPq 521773/95-4), coordenado pela Profa Dra Maria Irma Hadler Coudry. As sessões do CCA e do CCAzinho são gravadas em audio e vídeo, além de serem registradas em um diário por um pesquisador do grupo. O registro em diário serve como fonte para um primeiro contato dos pesquisadores com os dados; as transcrições são feitas, conforme normas do BDN, em tabelas que dão visibilidade às condições de produção dos enunciados verbais e também nãoverbais. As fitas e suas transcrições/découpages estão sendo arquivadas no Centro de Documentação Alexandre Eulálio - IEL/UNICAMP” (FEDOSSE, 2008, p. 25).

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7 SR Um ano e pouquinho.

8 Irn Ah, por isso que vocês não se encontraram

9 Imp QUASE que que vocês trabalharam junto

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