Para saber mais sobre o metodo científico em Geologia

Para saber mais sobre o metodo científico em Geologia

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TERRÆ DIDATICA 6(2):85-9, 2010R. Frodeman

como segue:

*Este artigo deve ser referido

Frodeman R. 2010. O raciocínio geológico: a geologia como uma ciência interpretativa e histórica. Terræ Didatica, 6(2):85-9<http:// w.ige.unicamp.br/ terraedidatica/>

O raciocínio geológico: a geologia como uma ciência interpretativa e histórica1*

Robert Frodeman Departamento de Ciências Geológicas e Departamento de Filosofia — Universidade do Colorado, Boulder, Colorado 80301

AbstrActGeoloGical reasoninG: GeoloGy as an inter-
pretive and historical sciencethe standard account of the reasoning

process within geology views it as lacking a distinctive methodology of its own. rather, geology is described as a derivative science, relying on the logical techniques exemplified by physics. i argue that this account is inadequate and skews our understanding of both geology and the scientific process in general. Far from simply taking up and applying the logical techniques of physics, geological reasoning has developed its own distinctive set of logical procedures. i begin with a review of contemporary philosophy of science as it relates to geology. i then discuss the two distinctive features of geological reasoning, which are its nature as (1) an interpretive and (2) a historical science. i conclude that geological reasoning offers us the best model of the type of reasoning necessary for confronting the type of problems we are likely to face in the 21st century

Keywords Geology, philosophy of science, geological reasoning, historical science, interpretive science resumo o padrão pelo qual se avalia o processo de raciocínio da geologia entende que lhe falta uma metodologia própria e distintiva. pelo contrário, a geologia é descrita como ciência derivada, baseada em técnicas lógicas, tal como exemplificado pela física. defendo que esta avaliação é insuficiente e distorce nossa compreensão tanto da geologia como do processo científico em geral. longe de simplesmente assumir e aplicar as técnicas lógicas da física, o raciocínio geológico desenvolveu seu próprio conjunto distinto de procedimentos lógicos. eu começo com uma revisão da filosofia da ciência contemporânea no que se refere à geologia. passo, então, a discutir as duas características distintivas do raciocínio geológico, que são sua natureza: (1) de ciência interpretativa e (2) de ciência histórica. concluo que o raciocínio geológico nos oferece o melhor modelo do tipo de raciocínio necessário para enfrentar os tipos de problemas que deverão emergir no século 21

Palabras-claveGeologia, filosofia da ciência, raciocínio geológico, ciência histórica,

ciência interpretativaTradução livre feita por Lúcia

M. Fantinel e Estevan V. D. Santos do original em inglês Geological reasoning: Geology as an interpretive and historical science publicado em Geological Society of America Bulletin, 107(8):960-968, 1995.

TERRÆ DIDATICA 6(2):85-9, 2010O raciocínio geológico: a geologia como uma ciência interpretativa e histórica

Para exemplificar a negligência da filosofia para com a geologia, nada melhor do que a espantosa falta de atenção para com o conceito de tempo geológico. a descoberta da “profundidade” (“deep”) do tempo geológico se iguala, em importância, à revolução copernicana em nossa concepção de espaço2, sendo esta última muito mais amplamente conhecida. Mas, apesar da eminência do conceito de tempo dentro da filosofia contemporânea (especialmente na filosofia continental), os filósofos têm ignorado o papel decisivo de Hutton e werner na reformulação de nossa noção de tempo.3 a negligência pode ser explicada pela concepção de geologia como uma ciência derivada4. a fundamentação geológica tem sido considerada como constituída de alguns princípios pouco exatos (lei de superposição de estratos, por exemplo) que norteiam o uso de princípios matemáticos e a aplicação de leis químicas e físicas aos fenômenos geológicos. além disso, considerava-se que a geologia teria vários problemas que dificultam o conhecimento, tais como: a incompletude dos dados relacionada às lacunas e à pouca resolução do registro estratigráfico; a ausência de controle experimental, possível nas ciências experimentais que têm ampla base laboratorial; e a grande extensão do tempo necessário para que ocorram os processos geológicos, extensão tão ampla que torna a observação direta difícil ou impossível de se realizar.

Tais fatos têm feito a geologia parecer menos do que uma candidata a considerações filosóficas. de fato, tradicionalmente a filosofia da ciência tem considerado a física (sobretudo a mecânica clássica) como a ciência paradigmática. a física foi a primeira ciência a se estabelecer sobre uma base firme, exemplificando a verdadeira natureza da ciência como conhecimento certo, preciso e previsível do mundo.

ciência como outras ciências, por exemplo física e química”). Embora não preocupado com a questão do status da geologia como ciência, Stone de John Salli (1994) é uma exceção recente à negligência geral da geologia dentro da filosofia. 2 Para avaliar a Revolução Copernicana em nossa concepção de espaço, cf.

Koyre (1957) e Kuhn (1957). O termo “deep time” para extensões geológicas do tempo foi cunhado por John McPhee (cf. McPhee 1981). 3 Tempo tem sido a questão central da filosofia continental desde Hegel, por volta de 1806. Uma medida disso é a importância de Being and Time de Heidegger (1927, 1962), o mais influente trabalho para a filosofia continental do século X. Mas, apesar da proeminência das aproximações do historicismo à epistemologia na filosofia continental contemporânea, na minha opinião, não tem sido dada atenção ao conceito de tempo geológico. A compreensão das implicações cultural e filosófica da revolução no tempo geológico é mais típica da história das ideias do que da filosofia (cf. Gillispie 1959; Toulmin e Goodfield 1965; Goldman 1982). 4 Em adição aos autores citados na Nota 1, cf. Schumm (1991) (“Há uma concordância geral de que a geologia é uma ciência derivada”) e Bucher (1941).

Preâmbulo este texto é uma tradução livre do artigo de robert Frodeman Geological reasoning: Geology as an interpretive and historical science. visa facilitar a discussão do tema referente à geologia como ciência, para diversas disciplinas, tal como é o caso, no IGUnicamp, de práticas de campo no ensino de ciências naturais e temas atuais em Geociências, do Programa de Pós-Graduação em ensino e História de ciências da Terra. as notas do autor, contidas na versão original, constam como notas de rodapé.

Frodeman rejeita a ideia de geologia como ciência derivada, que apenas aplica as leis e as técnicas da física e química. Para ele, analisar a geologia sob a perspectiva da física desfoca nossa compreensão do raciocínio geológico pois a ciência geológica está apenas parcialmente atrelada ao modelo clássico de raciocínio científico. caracterizando a base do raciocínio geológico nas técnicas da hermenêutica e das ciências históricas, o autor recupera o caráter interpretativo e histórico da geologia. o artigo inicia com uma breve revisão das tendências contemporâneas da filosofia da ciência referenciando-se às escolas analítica e continental, base para o entendimento de suas considerações sobre a natureza da argumentação geológica. Nas duas seções seguintes o autor caracteriza os aspectos distintivos da argumentação geológica: a natureza hermenêutica e histórica desta ciência. Frodeman conclui que a geologia oferece um modelo melhor do que o da física para entender a natureza do raciocínio nas ciências e para enfrentar os problemas que se configuram para o século XXI.

Introdução a filosofia contemporânea não tem reconhecido a geologia como um terreno fértil para a reflexão; a filosofia da geologia não é considerada como o é a filosofia da física ou da biologia. com exceção da revolução da Tectônica de Placas, a geologia tem sido ignorada pelas duas principais tendências da filosofia contemporânea — a filosofia analítica e a continental. ambas têm considerado desnecessária a análise dessa ciência para o entendimento da ciência natural.1

1 Considerações filosóficas da revolução da Tectônica de Placas podem ser encontradas em Giere (1988). Típicas conclusões de filósofos sobre o status da geologia são as de Nelson Goodman (1967, p.9) (“Concluindo, o Princípio do Uniformitarismo dissolve-se no princípio da simplicidade que não é peculiar à geologia, mas está em todas as ciências e também no cotidiano da vida”) e Richard A. Watson (1969, p.488) (“Geologia é uma

TERRÆ DIDATICA 6(2):85-9, 2010R. Frodeman há dois textos que se dedicam explicitamente à tarefa de oferecer o panorama geral da filosofia da geologia: Kitts (1977) e von engelhardt e Zimmerman (1988). esse trabalho tem trazido significativas contribuições para nosso entendimento da geologia e da ciência em geral. entretanto, grande parte dele é caracterizado por duas componentes: (1) compartilha da ideia de geologia como ciência derivada; (2) por razões históricas e culturais, que discutirei a seguir, os geólogos inclinados à filosofia têm se referenciado, para descrever sua ciência, somente a uma das tradições da filosofia contemporânea — a Filosofia analítica.

Penso que a visão de geologia delineada acima é incorreta. Meu interesse como filósofo é o de questionar o pressuposto de que a geologia é meramente física aplicada e imprecisa. considero que os desafios e dificuldades inerentes ao raciocínio geológico têm instigado os geólogos a desenvolverem uma variedade de fundamentações que são similares a algumas daquelas descritas e usadas na filosofia continental.

Minha opinião é que a fundamentação geológica consiste de uma combinação de procedimentos lógicos. alguns desses procedimentos lógicos são comuns às ciências experimentais, enquanto outros são mais típicos das humanidades em geral e da filosofia continental em particular. Tal combinação de técnicas não é totalmente própria da geologia; na minha opinião, a combinação está presente em muitos tipos de raciocínio, científicos ou não. Mas acredito que esta combinação é especialmente característica do raciocínio geológico. se isto estiver correto, desloca-se a “sensação de inferioridade” que parece afetar a geologia no que concerne ao status da geologia quando comparada às “ciências duras”. o restante deste ensaio discute e desenvolve essas assertivas. Inicio com uma breve revisão da filosofia da ciência no século X. a revisão fornece a base necessária para o entendimento da discussão sobre a natureza do raciocínio geológico, das concepções-padrão às ideias por mim postuladas. Nas duas seções seguintes são descritas as duas características mais distintivas do raciocínio geológico: sua natureza enquanto ciência hermenêutica (i.e. interpretativa) e ciência histórica. concluo que o raciocínio geológico de fato personifica uma metodologia distinta no âmbito das ciências e oferece um modelo global melhor do que o da física desde o século XvII, todas as ciências (e filosofias) têm sido avaliadas a partir deste modelo.5 a Física também satisfez a demanda pelo conhecimento científico como analiticamente derivado. esta crença, com origem em descartes, estabelece que os objetos e os processos são entendidos a partir de suas partes ou componentes mais simples.6 Uma ciência “sintética” como a geologia era considerada a partir de seus constituintes da física e da química. Importante também era a crença de que a ciência constitui matéria unificada e diferenciada a partir de uma metodologia aplicável universalmente.

Muito das reflexões sobre a natureza do raciocínio geológico tem vindo de dentro da própria comunidade geológica. apesar de limitados em quantidade e frequentemente negligenciados, há importante conjunto de trabalhos começando com os ensaios que datam da era clássica da geologia (p.ex. Gilbert 1886, chamberlin 1890), quando a ligação entre ciência natural e filosofia era muito mais explícita na mente dos cientistas. os trabalhos recentes nesta área variam de reflexões sobre a metodologia sobrejacente a um campo particular da geologia (anderton 1985, por ex.), às considerações gerais sobre o raciocínio geológico (albritton 1963; schumm 1991, ager 1993). em um campo próprio, há os trabalhos de stephen Jay Gould que frequentemente cobrem a lacuna entre a geologia e a humanidade, sendo Gould, provavelmente, o único geólogo amplamente conhecido fora de seu campo de conhecimento específico7. Finalmente,

5 Minha contribuição aqui é um detalhe em uma história que é obviamente complexa. Alguém pode responder que hoje, quando a filosofia da ciência considera a física como a ciência paradigmática, é a física qua teoria da relatividade e mecânica quântica, melhor do que a mecânica clássica, que estão sendo consideradas. Meu argumento reside na distinção entre o estado do conhecimento dentro de um determinado campo e a representação deste campo fora do domínio dos especialistas. Possivelmente a coisa mais marcante da nova física é o quão pouco impacto tem causado em nossa visão epistemológica de cultura, seja na comunidade intelectual seja no público como um todo. Física qua mecânica clássica ainda nos provê com nosso modelo básico para o entendimento da natureza do conhecimento. Considere, por um momento, como a física introdutória é ensinada nas escolas americanas de hoje. Em minha própria instituição (Universidade do Colorado), a física introdutória inicia com muitas semanas de mecânica clássica. Mecânica quântica não é ensinada antes do terceiro semestre de física, depois que uma grande maioria de estudantes já encerrou seus ensinos de física. Então, enquanto os físicos se empenham para integrar a física quântica a todos os cenários da realidade, o ensino continua a ser o de que a mecânica clássica ainda fornece o modelo para o entendimento da natureza da ciência, e talvez do conhecimento em geral. 6 Para a formulação clássica dessa assertiva, cf. Rules for the direction of the mind de Descartes (1964; escrito em 1627, primeira publicação em 1701). 7 Gould (1987, 1989) é especialmente relevante para os pontos que serão abordados.Cf. Gould (1989, p. 277-291) para a argumentação que se assemelha ao que segue.

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Para apreciar a natureza deste novo consenso e o que ele significa para o nosso entendimento da ciência geológica, devemos primeiro rever o status quo ao qual ele responde. durante o século X, a filosofia ocidental consistiu de duas principais escolas de pensamento: a analítica e a continental. a diferença fundamental entre estas duas abordagens derivou de suas atitudes com relação à natureza e ao escopo do conhecimento científico. em seu aspecto mais básico, as asserções originais da Filosofia analítica (1940) podem ser reduzidas a duas: (1) todo o conhecimento disponível aos seres humanos é exclusivamente derivado do método empregado pela ciência; (2) o próprio método científico consiste de um procedimento identificável de lógica indutiva e dedutiva nitidamente distinta de outros tipos de pensamento (isto é, outras técnicas filosóficas ou literárias como a metafísica tradicional, a fenomenologia ou a crítica literária). os primeiros filósofos analíticos como russel (1914), carnap (1937) e reichenbach (1928, 1958) desenvolveram uma poderosa caracterização do método científico. suas conclusões podem ser resumidas nas três seguintes asserções. Primeira: o método científico é objetivo. Isto significa que a descoberta da verdade científica pode e deve ser separada de quaisquer comprometimentos pessoais, ético-políticos ou metafísicos. esta é a base da celebrada distinção fato/interpretação, que assegura que os fatos descobertos pelo cientista são bem distintos de quaisquer valores que o cientista possa ter. valores pessoais ou culturais não devem participar do processo de raciocínio científico. Uma questão estreitamente relacionada era a insistência com que se devia distinguir a “lógica da descoberta” da “lógica da explicação”. Identificar os processos sociais ou psicológicos particulares, responsáveis pelos insights do cientista, constituía tarefa do cientista social. o filósofo da ciência estava interessado somente nos procedimentos lógicos que justificavam uma asserção científica. segunda: o método científico é empírico. a ciência se constrói sobre uma rigorosa distinção entre observações (as quais eram novamente entendidas, pelo menos idealmente, como factuais e inequívocas) e a teoria. os fatos em si eram entendidos como nãodependentes da teoria; considerava-se a observação como uma questão de “olhar bem”. a distinção entre as afirmações que descrevem e as afirmações que avaliam não era considerada problemática. Terceira: o método científico constitui um para entender a natureza do raciocínio nas ciências e na vida cotidiana.8 este ensaio é sintético e contém ideias de diferentes autores e tradições. sua meta global é política, na medida em que espero que gere discussões entre os intelectuais, os quais têm muito a dizer uns aos outros, embora frequentemente se mantenham alienados. Para muito do que segue não reivindico originalidade. Mais propriamente, minha assertiva é de que a forma como os geólogos (e os cientistas em geral) raciocinam é de grande importância e isso não tem recebido a atenção que merece.

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