Marcel Mauss - Sociologia e Antropologia

Marcel Mauss - Sociologia e Antropologia

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Maree i Maus s SOCIOLOGI

Sociologia e antropologia Sociologia e antropologia

Mareei Mauss

Sociologia e antropologia

Precedido de uma Introdução à obra de Mareei Mauss por Claude Lévi-Strauss

Textos Georges Gurvitch e Henri Lévy-Bruhl Tradução Paulo Neves

COSACNAIFY Biblioteca Setorial-CEFD-UFE S

9 Prefácio à primeira edição (1950), por Georges Gurvitch n Introdução à obra de Mareei Mauss, por Claude Lévi-Strauss

Reg. 006682

Primeira pane ESBOÇO DE UMA TEORIA GERAL DA MAGIA i. Histórico e fontes 5 n. Definição da magia 62 i. Os elementos da magia 126 iv. Análise e explicação da magia 174 v. Conclusão 178 Apêndice

Segunda parte 183 ENSAIO SOBRE A DÁDIVA — Forma e ração da troca nas sociedades arcaicas 185 Introdução — Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir os presentes 194 i. As dádivas trocadas e a obrigação de retribuí-las (Polinésia) 2ii n. Extensão desse sistema — (Liberalidade, honra, moeda) 265 i. Sobrevivências desses princípios nos direitos antigos e nas economias antigas 294 iv. Conclusão

Terceira parte 315 RELAÇÕES REAIS E PRÁTICAS ENTRE A PSICOLOGIA E A SOCIOLOGIA

319 i. Lugar da sociologia na antropologia 325 n. Serviços recentes prestados pela psicologia à sociologia 331 i. Serviços a prestar à psicologia pela sociologia 337 iv. Questões colocadas à psicologia 343 Apêndice — Resumo da conclusão do debate, por Mareei Mauss

Quarta parte 345 EFEITO FÍSICO NO INDIVÍDUO DA IDÉIA DE MORTE SUGERIDA

PELA COLETIVIDADE - (Austrália, Nova Zelândia} 349 i. Definição da sugestão coletiva da idéia de morte 353 n. Tipos de fatos australianos 358 ni. Tipos de fatos neozelandeses e polinésios

Quinta parte 367 UMA CATEGORIA DO ESPÍRITO HUMANO:

369 i. O sujeito: a pessoa 372 n. O personagem e o lugar az pessoa

Sextaparte 399 AS TÉCNICAS DO CORPO 401 i. Noção de técnica do corpo 409 i. Princípios de classificação das técnicas do corpo 412 in. Enumeração biográfica das técnicas do corpo 420 iv. Considerações gerais

Sétimaparte 423 MORFOLOGIA SOCIAL 425 Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós 504 Anexos

507 Bibliografia geral 527 Sobre o autor In memoriam, por Henri Lévy-Bruhl

8 Sumário

Prefácio à primeira edição (z9-5b)

Ao publicar esta miscelânea de estudos do saudoso Mareei Mauss, acreditamos satisfazer um justo desejo há muito expresso pelos sociólogos, os etnógrafos e os estudantes dessas duas disciplinas. Com efeito, cada um desses estudos, e particularmente os dois primeiros que são os mais importantes desta coletânea, constituem verdadeiras monografias sociológicas de primeiríssima ordem e de um conteúdo mais nco que muitos livros inteiros. O fato de que os leitores se vissem na impossibilidade de consultá-los sem pesquisá-los em periódicos nos quais estavam dispersos constituía um verdadeiro estorvo para o trabalho científico, tanto na França quanto no estrangeiro. Estamos particularmente felizes que uma obra-prima da sociologia francesa como A dádiva possa enfim aparecer num volume separado e facilmente manejável, graças a esta nova coleção, "Biblioteca de sociologia contemporânea ", da qual ele constitui um dos primeiros volumes.

Não nos propusemos de maneira nenhuma incluir nesta coletânea o conjunto das publicações sempre importantes de Mareei Mauss. Estudos tão famosos como as Variações sazonais das sociedades esquimós* e como a dissertação Fragmento de um plano de sociologia geral descritiva, sem falar do início da tese de Mauss sobre A prece, nem de seu estudo tão conhecido sobre O sacrifício e artigos escritos em colaboração seja com Durkheim, Algumas formas primitivas de classificação, seja com Fauconnet, Sociologia (na Grande Encyclopédie Française), e outros mais, não puderam encontrar lugar nesta coletânea.

As ratões disso são diversas. Acreditamos poder reservar, para uma publicação das obras completas de Mauss, estudos tais como as Variações

* Desde a terceira edição (1966), Sociologia e antropologia compreende, segundo desejo expresso por Georges Gurvitch antes de sua morte, o ensaio de Mareei Mauss sobre as socie- dades esquimós, publicado inicialmente em Année Sociologique (Mauss 1904-05) e jamais reimpresso depois. [Nota dos editores franceses] sazonais, o Fragmento de um plano e Sociologia, já que eles não tinham diretamente seu ponto de partida nas crenças e na psicologia coletiva dos arcaicos, às quais toda esta coletânea é dedicada. Por outro lado, pareceunos impossível— e isto com muito mais pesar — reproduzir A prece, dado que o próprio autor suspendeu sua publicação propondo-se substituí-la por um outro texto. Quanto a O sacrifício, ele foi publicado num outro livro, Mélanges d'Histoire dês Religions \Miscelaneas de História das Religiões] de Henri Hubert e Mareei Mauss, e o artigo Algumas formas primitivas de classificação foi assinado tanto por Durkheim quanto por Mauss; sua reprodução nesta coletânea poderia assim colocar problemas delicados. Finalmente, a obra de Mauss sobre A nação não pôde ainda receber todos os esclarecimentos necessários, mas esperamos que saia sem muita demora em volume separado na mesma coleção. Levando em conta todas essas considerações, acreditamos faer o me- lhor possível ao reunir neste volume todos os estudos de Mauss que podiam ser novamente publicados sem levantar dificuldades, e que convergiam para um tema que se começa a designar cada ve mais pelo termo de "antropologia cultural". Como Mareei Mauss os tratou com mão de mestre, não apenas do ponto de vista etnográfico mas igualmente como grande sociólogo que ele é, o título deste livro, Sociologia e antropologia, impôs-se por si mesmo, o termo "antropologia " sendo tomado no sentido amplo de "antropologia cultural" corrente na América.

Entre os estudos que publicamos, somente o Esboço de uma teoria geral da magia foi assinado, juntamente com Mauss, por Henri Hubert, cuja memória gostaríamos aqui de homenagear. O leitor encontrará na Introdução de Claude Lévi-Strauss uma imagem impressionante da riqueza inesgotável da herança intelectual legada por esse grande cientista, bem como uma interpretação muito pessoal de sua obra.

Georges Gurvitch

IO Prefácio

Introdução à obra de Mareei Mauss

Poucos ensinamentos permaneceram tão esotéricos e poucos, ao mesmo tempo, exerceram uma influência tão profunda quanto o de Mareei Mauss. Esse pensamento às vezes opaco por sua densidade mesma, mas inteiramente atravessado de cintilações, esses caminhos tortuosos que pareciam se perder no momento em que o mais inesperado dos itinerários conduzia ao núcleo dos problemas, somente aqueles que conheceram e escutaram o homem podem apreciar plenamente sua fecundidade e fazer o balanço de sua dívida em relação a ele. Não nos estenderemos aqui sobre seu papel no pensamento etnológico e sociológico francês.

Ele foi examinado noutra parte (Lévi-Strauss 1947). Seja suficiente lembrar que a influência de Mauss não se limitou aos etnógrafos, nenhum dos quais poderia dizer ter escapado a ela, mas se estendeu também aos lingüistas, psicólogos, historiadores das religiões e orientalistas, de modo que, no domínio das ciências sociais e humanas, uma plêiade de pesquisadores franceses lhe deve, de alguma forma, a orientação. Para os demais, a obra escrita permanecia muito dispersa e, em geral, de difícil acesso. O acaso de um encontro ou de uma leitura podia despertar ecos duráveis: reconheceríamos facilmente alguns deles em Radcliffe- Brown, Malinowski, Evans-Pritchard, Firth, Herskovits, Lloyd Warner, Redfield, Kluckhohn, Elkin, Held e muitos outros. No conjunto, a obra e o pensamento de Mauss agiram antes por intermédio de colegas e de discípulos em contato regular ou ocasional com ele, do que diretamente, na forma de palavras ou de escritos. É essa situação paradoxal que vem remediar uma coletânea de dissertações e de comunicações que estão longe de esgotar o pensamento de Mauss, e da qual cabe esperar que apenas inaugure uma série de volumes em que a obra inteira - já publicada ou inédita, elaborada a sós ou em colaboração — poderá ser finalmente apreendida em sua totalidade.

Razões práticas presidiram a escolha dos estudos reunidos neste volume. No entanto, esta seleção fortuita permite já destacar alguns aspectos de um pensamento cuja riqueza e diversidade ela consegue, ainda que imperfeitamente, ilustrar.

O que impressiona, em primeiro lugar, é o que gostaríamos de chamar o modernismo do pensamento de Mauss. O Ensaio sobre a idéia de morte introduz ao núcleo de preocupações o que a medicina dita psicossomática trouxe à atualidade apenas no curso dos últimos anos. É verdade que os trabalhos sobre os quais W. B. Cannon fundou uma interpretação fisiológica dos distúrbios por ele chamados homeostáticos remontam à Primeira Guerra Mundial. Mas foi numa época bem mais recente (Cannon 1942) que o ilustre biólogo compreendeu em sua teoria esses fenômenos singulares, que parecem colocar imediatamente em relação o fisiológico e o social, para os quais Mauss chamava a atenção já em 1926, não, certamente, porque os tivesse descoberto, mas como um dos primeiros a sublinhar a autenticidade, a generalidade e, sobretudo, a extraordinária importância deles para a justa interpretação das relações entre o indivíduo e o grupo.

indivíduos: "As crianças são treinadasa controlar reflexos... inibir
seus medosselecionar paradas e movimentos". Essa pesquisa da pro-

A mesma preocupação, que domina a etnologia contemporânea, com a relação entre grupo e indivíduo inspira também a comunicação sobre as técnicas do corpo que encerra este volume. Ao afirmar o valor crucial, para as ciências do homem, de um estudo da maneira pela qual cada sociedade impõe ao indivíduo um uso rigorosamente determinado de seu corpo, Mauss anuncia as mais atuais preocupações da escola antropológica americana, tais como iriam se exprimir nos trabalhos de Ruth Benedict, Margaret Mead e da maior parte dos etnólogos americanos da jovem geração. É por intermédio da educação das necessidades e das atividades corporais que a estrutura social imprime sua marca nos jeção do social sobre o individual deve investigar o mais profundo dos costumes e das condutas; nesse domínio, não há nada de fútil, nada de gratuito, nada de supérfluo: "A educação da criança é repleta daquilo que chamamos detalhes, mas que são essenciais". E ainda: "Quantidades

12 Introdução de detalhes, inobservados e cuja observação deve ser feita, compõem a educação física de todas as idades e de ambos os sexos".

"povos com berços,povos sem berços". Basta citar os nomes e as pes-

Assim, Mauss não apenas estabelece o plano de trabalho que será, de forma predominante, o da etnografia moderna ao longo dos dez últimos anos, mas percebe ao mesmo tempo a conseqüência mais significativa dessa nova orientação, isto é, a aproximação entre etnologia e psicanálise. Era preciso muita coragem e clarividência a um homem, oriundo de uma formação intelectual e moral tão pudica quanto a do neokantismo reinante em nossas universidades no final do século passado, para partir, como ele o faz aqui, à descoberta "de estados psíquicos desaparecidos de nossas infâncias", produzidos por "contatos de sexos e de peles", e para dar-se conta de que haveria de achar-se "em plena psicanálise, provavelmente bastante fundamentada aqui". Donde a importância, plenamente percebida por ele, do momento e das modalidades do desmame e das maneiras pelas quais o bebê é manuseado. Mauss entrevê inclusive uma classificação dos grupos humanos em quisas de Margaret Mead, Ruth Benedict, Cora Du Bois, Clyde Kluckhohn, D. Leighton, E. Erikson, K. Davis, J. Henry etc., para avaliar a novidade dessas teses, apresentadas em 1934, isto é, no ano mesmo em que apareciam os Padrões de cultura, ainda muito distantes dessa posição do problema e no momento em que Margaret Mead estava em via de elaborar no trabalho de campo, na Nova Guiné, os princípios de uma doutrina muito próxima, e da qual sabemos a enorme influência que estava destinada a exercer.

Sob dois pontos de vista diferentes, aliás, Mauss permanece à frente de todos os desenvolvimentos ulteriores. Ao abrir às pesquisas etnoló- gicas um novo território, o das técnicas do corpo, ele não se limitava a reconhecer a incidência desse gênero de estudos sobre o problema da integração cultural: sublinhava também sua importância intrínseca. Ora, nesse aspecto nada ou quase nada foi feito. De dez ou quinze anos para cá, os etnólogos consentiram em debruçar-se sobre certas disciplinas corporais, mas apenas na medida em que esperavam elucidar assim os mecanismos pelos quais o grupo modela os indivíduos à sua imagem. Em verdade, ninguém ainda abordou essa tarefa imensa cuja urgente necessidade Mauss sublinhava, a saber, o inventário e a descrição de todos os usos que os homens, ao longo da história e sobretudo através do mundo, fizeram e continuam a fazer de seus corpos. Colecionamos os produtos da indústria humana, recolhemos textos escritos ou orais. Mas as possibilidades tão numerosas e variadas de que é suscetível este instrumento, não obstante universal e colocado à disposição de cada um, que é o corpo humano, continuamos a ignorá-las, exceto aquelas, sempre parciais e limitadas, contidas nas exigências de nossa cultura particular.

No entanto, todo etnólogo que trabalhou em campo sabe que essas possibilidades são espantosamente variáveis segundo os grupos. Os limiares de excitabilidade, os limites de resistência são diferentes em cada cultura. O esforço "irrealizável", a dor "intolerável", o prazer "extraordinário" são menos função de particularidades individuais que de critérios sancionados pela aprovação ou a desaprovação coletivas. Cada técnica, cada conduta, tradicionalmente aprendida e transmitida, funda-se sobre certas sinergias nervosas e musculares que constituem verdadeiros sistemas, solidários de todo um contexto sociológico. Isso é verdade para as mais humildes técnicas, como a produção do fogo por fricção ou o corte de instrumentos de pedra por lascas; e o é bem mais para essas grandes construções, ao mesmo tempo sociais e físicas, que são as dife- rentes ginásticas (inclusive a ginástica chinesa, tão diferente da nossa, e a ginástica visceral dos antigos Maori, de que conhecemos quase nada), ou ainda os exercícios circenses que constituem um antiqüíssimo patrimônio de nossa cultura e cuja preservação abandonamos ao acaso das vocações individuais e das tradições familiares.

Esse conhecimento das modalidades de utilização do corpo humano seria, no entanto, particularmente necessário numa época em que o desenvolvimento dos meios mecânicos à disposição do homem tende a desviá-lo do exercício e da aplicação dos meios corporais, salvo no domínio do esporte, que é uma parte importante, mas uma parte apenas das condutas consideradas por Mauss, aliás variável segundo os grupos. Seria desejável que uma organização internacional como a UNESCO se dedicasse à realização do programa traçado por Mauss nessa comunicação. Arquivos internacionais das técnicas corporais, que fizessem o inventário de todas as possibilidades do corpo humano e dos métodos de aprendizagem e de exercício empregados para a montagem de cada técnica, representariam uma obra verdadeiramente internacional: pois não há, no mundo, um único grupo humano que não possa dar ao empreendimento uma contribuição original. Ademais, trata-se de um patrimônio comum e imediatamente acessível à humanidade inteira, cuja origem mergulha no fundo dos milênios, cujo valor prático permanece e permanecerá sempre atual, e cuja disposição geral permitiria, melhor que outros meios, porque em forma de experiências vividas, tornar cada homem sensível à solidariedade, ao mesmo tempo intelectual e física, que o une à humanidade inteira. O empreendimento seria também eminentemente apto a se opor aos preconceitos de raça, uma vez que, face às concepções racistas que querem ver no homem um produto de seu corpo, mostrar-se-ia, ao contrário, que é o homem que, sempre e em toda parte, soube fazer de seu corpo um produto de suas técnicas e de suas representações.

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