Luciane Monteiro Oliveira-tese

Luciane Monteiro Oliveira-tese

(Parte 1 de 6)

SÃO PAULO 2006

Tese apresentada como exigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Educação, na área temática de Cultura, Organização e Educação no Programa de Pós- Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Marcos FERREIRA SANTOS.

SÃO PAULO Janeiro de 2006

Por: LUCIANE MONTEIRO OLIVEIRA

Tese apresentada como exigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Educação, na área temática de Cultura, Organização e Educação no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, sob avaliação da seguinte banca:

_ Prof. Dra.

_ Prof. Dra.

_ Prof. Dra.

_ Prof. Dra.

Orientador:

_ Prof. Dr. Marcos FERREIRA SANTOS.

São Paulo, janeiro de 2006

O auxílio dos olhos é importante, tanto quanto o auxílio daquilo que por eles é visto. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e os seus pequenos cérebros que lho ensinaram (...) O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tato, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do ácido na chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo.(Saramago, 2001)

às minhas grandes mães
as canções da vida

Dedicatória ancestrais que me ensinaram

...ao povo Maxakali que coloriram essas canções

Muitas são as pessoas que contribuíram para o meu trabalho, apoiando, estimulando e colaborando em várias etapas de minha formação.

símbolos

Agradeço à minha extensa família, que depositou confiança e credibilidade em meus projetos e possibilitou de diferentes formas a realização de meus sonhos. Em especial ao meu irmão Márcio, pela troca incessante de palavras e pela iniciação no universo dos

Ao meu orientador Marcos Ferreira Santos que me desvelou a possibilidade de exercer, na lógica objetiva da academia, relações de afetividade e sensibilidade, minha imensa gratidão.

À Márcia Gamberini, minha “irmã” por afinidade, pela acolhida e pela dádiva, no sentido maussiano do termo, em todos os momentos de minha trajetória em São Paulo.

Minha estima especial às amigas Carmem, Ana Paula, Lenice e Anna Lúcia que das montanhas mineiras me estimularam e apoiaram nesse processo.

Aos que compartilharam comigo leituras, debates, calorosas discussões e trocas de experiências e vivências, fiéis companheiras, Edleuza, Isabelle e Nely, e companheiros, Julvan e Amilton, do grupo de estudos e leituras sobre o Imaginário. Carinhosamente aos amigos Carolina e Abílio pela intensa convivência no CRUSP e pela partilha de saberes e alimentos, com os quais cultivei uma postura de aprendizado contínuo e aberto a novos caminhos.

Aos companheiros do Crusp, em especial à Wanderléia que miritibrincou a nossa convivência iluminando com o Círio de Nazaré, a Rosalina e Carlos pela experimentação de sabores trazidos de Cabo Verde, a Andréia pela convivência e a todos pelas trocas afetivas e acadêmicas com a diversidade cultural e de pontos de vista.

Ao amigo e companheiro de campo Alencar pela partilha de saberes e cantos com os Maxakali.

Ao povo Maxakali pelo aprendizado e lições de filosofia possibilitando novas formas e modo de ser no mundo. Com grande carinho às grandes mães, mulheres potências vii cósmicas dos Tikmũ’ũn, Maria Diva, Taciara, Alaíde, Carmem Silva, Noêmia, Isabel, Suely, Luisinha e Margarida. Aos guias Major, Bidé, João Bidé, Dival, outros que não nomeei aqui e a todas as crianças que me re-animaram nesses caminhos percorridos, Max xeka!

processo

Às professoras do CICE – Centro de Estudos sobre o Imaginário, Cultura e Educação, Maria Cecília e Maria do Rosário pela receptividade e incentivos oferecidos nesse

Agradeço também aos funcionários da FEUSP, especialmente à Solange Francisco, pelo apoio incondicional e pelo acolhimento e compreensão nos momentos mais difíceis.

Por fim à CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pela concessão de uma Bolsa de Doutorado Sanduíche para estágio no Exterior, na Universidad Complutense de Madrid (Espanha), e uma Bolsa para finalização de minha pesquisa de doutoramento. E ao Fundo de Cultura e Extensão – FCEx/USP pelo auxílio concedido para a compra de material, o que possibilitou a realização de minha pesquisa de campo.

viii

Resumo ix Abstract x Resumée xi Apresentação xii Introdução 01

Capítulo I - Abrindo Caminhos 1 1. 1 – Ponto de partida: semear o solo 16 1. 2 – A árvore que amarra e a árvore que abraça 24 1. 3 – A terceira via 30

Capítulo I - A casca envolvendo a semente: Pessoa e corporeidade no universo Maxakali 35

2.1 – A construção cósmica de pessoa 42 2.2 – A composição e os cantos 50 2.3 – O corpo que sabe 61 Capítulo I - Desenhando o som e cantando as cores 6 3.1 – Socialidade e pessoalidade na criação estética 75 3.2 – O tempo e o espaço 82 3.3 – O ser na arte e a arte de ser 8 Capítulo IV – A razão afetiva cantando na alma dos seres 94 4.1 – A escola de papel 9 4.2 – A brisa e o vendaval: a palavra e a cosmunicação 108 4.3 – A razao afetiva 113 Onde o céu e a terra se encontram 118 Bibliografia 132 Glossário 144 Listas de Fotos 147 Listas de Desenhos 150

Razão e Afetividade: a iconografia Maxakali marcando a vida e colorindo os cantos

A presente tese objetiva apresentar a iconografia Maxakali como expressão da vida e da concepção do universo cosmológico. Os sinais dessa expressão são em especial, os desenhos em papel elaborados pelos indivíduos do grupo, sem distinção de idade, sexo ou status sociocósmico. A finalidade é demonstrar por meio da iconografia como os Maxakali percebem o mundo por meio da percepção sensorial do corpo próprio e como constroem relações de alteridade na intersecção de concepções cosmológicas distintas. Esse movimento é importante para a composição de um diálogo em que as diferenças são pontuadas e as tensões são amplificadas, em especial quando se colocam em cena discussões e práticas de políticas públicas. A metodologia empregada na pesquisa é a mitohermenêutica simbólica de cunho antropológico cujo princípio é um cuidado investido na reflexão e na prática do conhecimento que proporciona demarcar os caminhos percorridos pelo pesquisador na inserção do contexto de sua investigação.

Palavras-Chaves: Iconografia Maxakali; Razão afetiva; Corporeidade; Cosmologia e Estética

Área de Conhecimento: 7.08.01.04-5 - Antropologia Educacional

Reason and affectivity: the Maxakali iconography recording life and brighten with colours the lay

This present thesis aims to introduce the Maxakali iconography as life’s expression and of the universe cosmological conception. The signs of this expression are especially the paper drawings made by the individuals pertained to the group without any discrimination of age, sex or sociocosmical status. The purpose is to demonstrate through iconography how the Maxakali people perceive the world through the sensorial perception of their own bodies and how they build up alterative relations in the intercession of distinct cosmological conceptions. This movement of ideas is very important to dialogize when differences are shown and tension is amplified chiefly when we come up to discussions and practices of public policies. The methodology used in the research is the symbolical mitohermeneutics of antropological characteristics, wich is originally based in a carefully reflection and in the practice of knowledge wich propriciates to record the ways through which the researcher in the insertion of the context of his investigation.

Keywords: Maxakali iconography; Affective Reason; Body Building; Cosmology and Esthetics

Knowledge area: 7.08.01.04-5 – Educational Antropology

Raisonnement et Affectivité: l’iconografie Maxakali qui marque la vie et colorié les chantes

La présente thèse a pour but de présenter l'iconographie en tant qu'expression de la vie et de la conception de l'univers cosmologique. Les signes de cette expression sont particulièrement les dessins sur papier eelaborés par les individus du groupe, sans distinction d'âge, sexe ou satut social cosmique. Le but est de démontrer à travers l'iconographie comment les Maxakali perçoivent le monde au moyen de la perception sensorielle du propre corps et comment ils construisent des relations d'altérité dans l'intersection de conceptions cosmologiques distinctes. Le mouvement est important pour l'établissement d'un dialogue dans lequel les différences sont ponctués et les tensions sont amplifiés surtout quand on met en scène des discussions et pratiques de politiques publiques. La méthodologie employée dans la recherche est la mythoherméneutique symbolique de caractère anthopologique don’t le principe est un soin investi dans la reflexion et dans la pratique de la connaissance qui permet d'indiquer les chemins parcourus par le chercheur dans l'inserction du contexte de sa investigation.

Mots-clés: L’ iconografie Maxakali; Raisonnement affectif; Corporalité; Cosmologie et Esthétique

Área de Connaissance: 7.08.01.04-5 - Anthropologie Educational

levar a vida bem vivida e bem amada

Ser criança é bom demais despreocupar com tudo que se faz dar um pulo, um grito e uma risada Rubinho do Vale, “Ser Criança”

Desenho do tema

O meu desejo em estudar a iconografia Maxakali está relacionado a dois aspectos vitais na minha experiência imaginal. O primeiro aspecto se refere à criança “Ego” que sempre existiu em meu Ser e que estava escondida nos recônditos de minha pessoa. Uma criança que ficava a criar imagens a partir dos fenômenos da natureza e a materializar essas imagens no desenho em papel. Por outra parte às crianças Maxakali que me revelaram a descoberta do “OUTRO”, da diversidade de mundos e de formas de perceber esses mundos, também por meio das imagens gráficas.

Esses dois modos de SER CRIANÇA estão entrelaçados na interpretação do trabalho que apresento nesta tese, possibilitando uma terceira ou múltiplas existências, de acordo com a leitura do texto. Faço esta afirmação ao perceber que as imagens que povoam os desenhos Maxakali, de certo modo, se aproximam das imagens que povoam a minha existência. Para compreender a composição desse Ser, apresento a primeira “criança” latente em toda a minha trajetória para mostrar como cheguei ou me re-descobri nas crianças Maxakali.

Posso dizer que nasci sob o signo da Lua, 13 de dezembro, dia de Santa

Luzia. Daí o meu nome, Luciane, cuja raiz latina, lux, significa luz. Mesma data de aniversário de Luiz Gonzaga, o “Mestre Lua”. O ano, 1969, foi quando o homem pisou na lua.

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