A Construcão das Cozinhas Regionais no Projeto Nacional Brasileiro

A Construcão das Cozinhas Regionais no Projeto Nacional Brasileiro

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93 Campos 5(1):93-110, 2004.

“Somos um capítulo da história das utopias européias”. Assim Otávio Paz (Velloso 1988:240) resume a situação colonial americana, que marca definitivamente o processo de construção do Brasil como nação. Afinal, a condição histórica deste território já fazia parte, em sua origem, de um fluxo hegemônico de projetos e decisões europeus. Podemos identificar na história brasileira uma relação constantemente ambígua desta realidade des-locada e todo o esforço em trazer para si o eixo de auto-definição, seja no sentido da constituição do Estado brasileiro, a organização da sociedade politicamente independente neste território; seja no processo de construção da identidade nacional.

Fundamental neste processo é verificar o modo como se consolidou a noção de unidade, de poder centralizador, de homogeneidade interna e continuidade simbólica, a partir de uma noção de cultura nacional, e a atuação dos espaços regionais, com interesses específicos e expressões particulares.

A conquista de uma “unidade moralmente homogênea e integrada”, nos termos de Mauss (1972), supõe a comunhão de valores essenciais, definidores de um modo de ser, a partir dos quais se é reconhecido. Contudo, sabemos que este “compartilhar”, mais que um dado real, é construído, elegendo-se traços significativos, relevantes à própria imagem que um grupo constrói para si e para os outros. Para tal fim, observam-se diversas estratégias, negociações, envolvendo a participação de diferentes atores sociais No processo de construção da identidade nacional, no caso brasileiro, destaca-se fortemente o fenômeno de apropriação de manifestações culturais específicas a certos grupos sociais por parte do resto da sociedade, e sua transformação em símbolos nacionais. Em diferentes momentos, observamos variadas contribuições que circulam entre a cultura

Rogéria Campos de

Almeida Dutra UFJF

Nação, Região, Cidadania: A Construção das Cozinhas Regionais no Projeto Nacional Brasileiro

Rogéria Campos de Almeida Dutra popular e a erudita; e a cada momento, um tipo social faz-se seu portador legítimo, ou representativo. Como exemplos clássicos desta apropriação e sua reelaboração cultural, pode-se destacar o samba, o candomblé, a umbanda e a própria feijoada, quando as elites, num certo período da história brasileira, se apropriam e reelaboram estas manifestações, então restritas às camadas populares, como símbolo da nação. (Fry 1982; Oliven 1983, Viana 1995)

Contudo, se há emblemas que se pretendem superadores de certa incomensurabilidade, interligando grupos sociais diversos, ocorre também a construção desta identidade pela composição do diverso, que não se dilui no todo. Este, ao que parece, é o percurso simbólico próprio da composição do nacional a partir das diversas regiões que compõem seu território, princípio este embutido na própria representação do federalismo, emblematizado na forma de constelação em nossa bandeira. A construção deste mosaico se dá por diversas formas, a partir de inúmeros atributos regionais. Dentre estes, podemos identificar as cozinhas regionais, que funcionam como operadores distintivos que qualificam a riqueza nacional. Interessa-me particularmente a construção da singularidade regional a partir deste complexo de alimentos específicos, seus usos e combinações que, ao que parece, destaca-se como portadoras da identidade local mais em algumas regiões do que em outras. O propósito deste texto é analisar a construção da cozinha regional na formação da identidade nacional, o que torna indispensável pensarmos o diálogo histórico entre a unidade territorial e a diversidade regional na construção do Estado Brasileiro.

Foram circunstâncias originais que delinearam o espaço geográfico do Brasil colonial, que se definia como “realidade aterritorial, sul atlântica”(Alencastro 2000) de forma marcadamente distinta do espaço nacional contemporâneo. Apesar de abrigar-se sob o nome de Terra de Santa Cruz, o território caracterizava-se por sua composição pluridimensional. Enquanto a costa Leste-Oeste (do Amazonas ao Ceará) permanece incomunicável ao litoral já povoado, denunciando uma distância já estruturalmente orientada, Angola se manifesta tão fortemente presente que se faz próxima e agregada. As razões desta contextualização referemse às condições adversas de navegação na direção norte via Atlântico – fatores tais como o sistema de ventos e correntes marítimas – e ao intenso comércio negreiro com o continente africano, comércio este vital à sobrevivência da nova colônia: impossível pensar o Brasil colônia dissociado de seu par complementar, as colônias portuguesas na África; o Brasil inserindo-se no cenário mundial à base da produção escravista e

Angola pela reprodução de escravos.

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A manutenção da unidade política marca a diferença entre os processos de independência das colônias espanholas e portuguesa na América. Não tivemos aqui uma mudança de governo traumática, seja violenta, seja popular, conservando-se a supremacia do governo civil. Mais que expressão da vontade popular, o fim do período colonial resulta de uma disputa no âmbito do poder metropolitano, gerando a organização na forma de Império constitucional. A vinda da coroa portuguesa para o Rio de Janeiro, a elevação da colônia à qualidade de vice-reino possibilitou a adoção de uma solução monárquica a esta transição, com a manutenção da unidade, ainda que precária, da ex-colônia. As possibilidades de separatismo foram neutralizadas, também, pela presença de uma elite política ideologicamente homogênea, não só por sua formação jurídica em Portugal, quanto pelo treinamento no funcionalismo público (Carvalho 1996). Nos termos de Faoro (1975), a história da sociedade brasileira é permeada, desde seus primórdios, pela presença de um estamento burocrático, ou seja, um grupo instalado no núcleo decisório do Estado, que se caracteriza pela autonomia e uma certa permanência frente à alternância de grupos dominantes no poder.

O governo central se afirma enquanto autoridade legítima na medida em que representa e defende, no plano internacional, os interesses da elite agrária na manutenção do tráfico negreiro. A integração territorial ainda é incipiente, fruto do acordo entre diferentes regiões sob a tutela da burocracia imperial. As rebeliões regenciais são testemunho das dificuldades de se estabelecer um sistema nacional de dominação, dado o caráter ambíguo desta nova sociedade: escravocrata, com instituições representativas; agrária e analfabeta, com uma elite cosmopolita (Carvalho 1996). Enquanto o elemento popular confina-se a questões locais e regionais, em estado de dependência absoluta de proprietários rurais e sem condição de ação no âmbito nacional, a administração pública, através da burocracia imperial, empenha-se na modernização do país, na transformação da sociedade através do aparelho estatal. Uma burocracia que qualifica o Estado simultaneamente como onipotente – capaz de decidir grandes questões, como a escravidão ou a imigração – mas incapaz de se fazer presente no âmbito das municipalidades e das províncias.

É em torno da figura de Pedro I que em muito se personificou a unidade do Estado nacional, assim como a responsabilidade de introdução da “modernidade” no país, o projeto iluminista de integrar o Brasil à cultura ocidental, ao mundo civilizado. No entanto, o Brasil imperial ainda apresenta uma precária integração territorial. Estrategicamente, controlava-se a possibilidade de maior aquisição de poder por parte das províncias – de forma a manter o governo centralizado – ao se escolher cuidadosamente os presidentes das províncias fora dos quadros da elite provincial, evitando-se assim associá-los com os interesses regionais.

O jogo entre a pacificação interna e a belicosidade externa como fator de consolidação da legitimidade da autoridade central, narrada por Elias (1993) no processo de consolidação do Estado moderno, se faz nítido

Rogéria Campos de Almeida Dutra no caso brasileiro durante a Guerra do Paraguai. Vencidas as rebeliões provinciais, o confronto com o inimigo externo atua como grande estímulo à formação do sentimento de nação. Neste momento, a necessidade da busca de um espírito novo para o país já vinha sendo tematizada na literatura, através do romantismo, espelhando-se nos acontecimentos no campo europeu. Comprometida com a consolidação da própria singularidade enquanto nação, a literatura romântica vem expressar o anseio de liberdade, autonomia política e individuação nacional. Mesmo que para este fim fosse necessário transfigurar uma realidade mal conhecida, produzindo heróis acobreados, imbatíveis, representantes de nossa ancestralidade ameríndia.

À nula participação popular na proclamação da República, seguem-se tentativas de legitimação deste novo regime. Os esforços foram vários, no sentido de incluir a população na autoria deste novo projeto político, através de uma “batalha de símbolos e alegorias” (Carvalho 1990) que almejavam a redefinição dos ideais coletivos. No entanto, e em termos gerais, as diversas correntes republicanas falharam ao tentar expandir a legitimidade do novo regime, ineficazes que foram na criação de um imaginário republicano e no estímulo a um sentido de participação a vastos setores da população. Triunfa a elite política dos grandes estados – São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – e instaura-se a república oligárquica, ou seja, de uns poucos. Através do modelo federativo, concretiza-se o anseio de autonomia estadual, já reivindicado nos tempos imperiais (principalmente por parte destes estados que já apresentavam maior organização econômica) fazendose legítimos os interesses de cada região. A idéia e a experiência política do modelo federalista inaugura um novo horizonte de negociações no âmbito da administração central sob o princípio de relações de igualdade e liberdade de atuação.

Contudo, se o Estado brasileiro já apresentava uma unidade política, permanecia ausente o sentimento nacional. Cabe à geração intelectual da Primeira República, particularmente ao Movimento Modernista, a busca de uma identidade coletiva para o país – embora a geração romântica já tivesse iniciado este processo –, empenhando-se no exercício de reconhecimento do laço, antes que jurídico, afetivo. O modernismo denuncia, sobretudo, nossa crise identitária, assinalada pelo divórcio entre cultura e realidade, ou entre cultura erudita e cultura popular. Ao criticar o formalismo da cultura de então, seu caráter bacharelesco, ele propõe o rompimento com a “sociabilidade artificial” da sociedade imperial e escravocrata inspirada na aristocracia européia. Propõese à redescoberta do Brasil, inserindo-se a participação dos grupos populares como componentes da nação. É preciso fundar na cultura nacional o registro de uma temporalidade própria, o que não significa romper com o passado em busca do “moderno”. Ao contrário, é preciso incluí-lo. A possibilidade de se ingressar na civilização, de se universalizar, é exatamente mergulhar nas próprias raízes. O atraso do tempo nacional passa a ser nossa própria temporalidade; o descompasso cultural, nossa própria riqueza.

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Nação Região, Cidadania: A Construção das Cozinhas Regionais no Projeto Nacional Brasileiro

Se o modernismo propõe à sociedade brasileira sua reatualização através de um projeto estético, a

Revolução de 30 endossa-o numa perspectiva ideológica. A partir da retomada da centralização do poder, o Estado brasileiro assume para si a tarefa de fundar a modernização no país, consolidando e viabilizando um novo tipo de nacionalismo. O mercado nacional se territorializa na medida em que o fluxo de africanos e imigrantes se interrompe. O Estado deixa de intervir na captação de proletários estrangeiros para cuidar do enquadramento do proletariado nacional, inaugurando uma nova fase de conexões entre população e regiões. Há de se relevar, como bem se refere Alencastro (1987), que enquanto o mercado de trabalho se alimentava do tráfico negreiro e da imigração, o discurso ideológico resumia-se ao diálogo “intra-elites”, entre classes dirigentes – a burocracia imperial e a republicana – e as classes dominantes, representadas pelas oligarquias regionais. Na medida em que a força de trabalho se territorializa, o discurso ideológico se refaz frente à necessidade de se unir dominantes e dominados; seja através do patriarcalismo, seja via nacionalismo. Nunca se revelou tão nitidamente o desajuste entre sociedade e Estado e a necessidade de superá-lo. No lugar do setor agro-exportador, o governo pós-30 apóia-se no eixo urbano-industrial buscando um ponto de equilíbrio entre o sistema democrático – através de valores universais e racionais – e manifestações de espontaneidade nacional. Através da educação, objetiva-se a formação de cidadãos conscientes, de forma a possibilitar o alargamento da participação política. Assistimos então a um movimento de unificação cultural, projetando na escala nacional fatos que ocorriam no âmbito das regiões. Exemplo claro desta tendência está na literatura, que se pretende, de forma mais acentuada, representar, atuar como “espelho da nação” (Velloso 1989). Ao se construir como reflexo fiel da realidade, ela reforça sua tradição documental. A literatura regional expressa de modo significativo este exercício. Neste momento não mais “regionalista pitoresca”, aquela que colore a realidade diversa, mas a que descreve a realidade, com suas dores e cores, fornecendo a visão de um país diversificado – no tempo e no espaço . Sob esta ótica, a consciência nacional deveria não só admirar a “virtude do espontâneo”, mas se ater aos problemas do Brasil.

Podemos observar, conforme indicado por diversos autores (Alencastro l989; Carvalho 1996; Faoro1975; Oliveira 1990) que o processo de construção do Estado, no caso brasileiro, se antecipou, em muito, ao da construção da nação. Esta vem a se tornar uma preocupação no final da Primeira República, e efetivamente, um desafio para a geração pós-30. O surgimento da “nação” vincula-se às transformações por que passa a

Rogéria Campos de Almeida Dutra sociedade européia nos séculos XVII e XVIII: a consolidação do Estado moderno e simultaneamente a instauração do individualismo enquanto ideologia hegemônica. A nação realiza no coletivo a moderna concepção de indivíduo, qualificando-se analogamente com atributos; ou seja, espera-se que toda coletividade tenha caráter, personalidade, autonomia, vontade, memória. Este processo de auto-definição tem como contexto a realidade inter-nacional, que envolve relações de poder e competição. Claro está que este intuito de busca de origens é principalmente um exercício de resgate e reconstrução – nos termos de Hobsbawn & Ranger (1989), de invenção de tradições – que ocorre num momento de crescente industrialização, e na moderna confiança, senão crença, no progresso, na ciência, na tecnologia. Peter Burke (1989) narra quão surpresos ficaram aqueles camponeses europeus quando, em pleno século XVIII, viram suas casas invadidas por senhores distintamente vestidos, de palavras difíceis, pedindo-lhes que cantassem ou narrassem histórias que ouviram na infância. Para os intelectuais, o povo era um mistério, que passou a ser descrito e valorizado exatamente nos termos de tudo que eles não eram. A influência da filosofia romântica se entrevê nesta busca da essência das coletividades, valorizando-se a pureza das criações coletivas.

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