Fando e Lis - Fernando Arrabal

Fando e Lis - Fernando Arrabal

(Parte 1 de 4)

Desvendando Teatro (w.desvendandoteatro.com)

(Fernando Arrabal) (Tradução: Wilson Coêlho)

Personagens

Lis a mulher do carrinho

Fando o homem que a conduz a Tar Namur; Mitaro; Toso três homens do guarda-chuva

(Fando e Lis estão sentados no chão. Perto deles se encontra um grande carrinho de criança, preto, envelhecido e descascado, com rodas finas de borracha macias e raios enferrujados. Por fora do carrinho e amarrados com cordas há uma porção de objetos, entre os quais destacam um tambor, uma coberta enrolada, uma vara de pescar, uma bola de couro e uma caçarola. Lis é paralítica das duas pernas)

LIS - Mas eu vou morrer e ninguém vai se lembrar de mim.

FANDO - (Docemente) Sim, Lis. Eu vou me lembrar de você e irei vê-la no cemitério com uma flor e um cachorro. (Longa pausa. Fando olha Lis. Emocionado) E no seu enterro cantarei baixinho o refrão "como é bonito um enterro, “Como é bonito um enterro", cuja música é muito engraçada. (Ele a olha silenciosamente e continua com ar satisfeito) Eu o farei por você.

LIS - Você me ama muito.

FANDO - Mas prefiro que você não morra. (Pausa) Vou ficar muito triste no dia que você morrer.

LIS - Ficar triste? Por que? FANDO - (Desolado) Não sei.

LIS - Você me diz isso, só porque ouviu dizer. Isso é sinal de que você não ficará triste. Você sempre me engana.

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FANDO - Não, Lis, eu estou dizendo a verdade, vou ficar muito triste. LIS - Você vai chorar?

FANDO - Farei um esforço, mas não sei se vou conseguir. Não sei se vou conseguir! Não sei se vou conseguir! Você acha que isso é uma resposta? Acredite em mim, Lis.

LIS - Mas acreditar em que? FANDO - (Refletindo) Não sei bem. Diga apenas que acredita em mim. LIS - (Como um autômato) Eu acredito em você. FANDO - Mas nesse tom, não vale. LIS - (Alegre) Eu acredito em você.

FANDO - Assim também não vale, Lis. (Humildemente) Fale direito, pois quando você quer, você sabe dizer muito bem as coisas.

LIS - (Num outro tom, também pouco sincero) Eu acredito em você. FANDO - (Abatido) Não, Lis, não. Não é assim. Tente outra vez. LIS - (Faz um esforço, mas não são sinceras suas palavras) Eu acredito em você.

FANDO - (Muito triste) Não, não, Lis. Como você é, como se comporta mal comigo. Tente, mas direito.

LIS - (Sem ainda conseguir) Eu acredito em você. FANDO - (Violento) Não, não, não é isso. LIS - (Faz um esforço desesperado) Eu acredito em você. FANDO - (Violentíssimo) Assim também não. LIS - (Muito sincera) Eu acredito em você. FANDO - (Comovido) Você acredita em mim, Lis! Você acredita em mim! LIS - (Também comovida) Eu acredito em você. FANDO - Como eu sou feliz!

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LIS - Eu acredito em você, porque quando fala, você parece um coelho e quando dorme comigo, você me deixa ficar com toda a coberta e fica sentindo frio.

FANDO - Isso não tem importância.

LIS - E sobretudo porque pelas manhãs você me banha na fonte e, assim, eu não tenho que me lavar, pois isso me aborrece muito.

FANDO - (Depois de uma pausa, resoluto) Lis, quero fazer muitas coisas por você. LIS - Quantas? FANDO - (Reflete) Quanto mais, melhor. LIS - Então, o que você tem de fazer é lutar pela vida. FANDO - Isso é muito difícil. LIS - É assim que você pode fazer alguma coisa por mim.

FANDO - Lutar pela vida? Que coisas você diz! (Pausa) Quase uma brincadeira. (Muito sério) É que, Lis, não sei porque tenho que lutar pela vida e, talvez, se eu soubesse o porque, não teria forças; e inclusive, se eu tivesse forças, não sei se elas me serviriam para vencer.

LIS - Fando, faça um esforço. FANDO - Fazer um esforço? (Pausa) Talvez assim seja mais simples. LIS - Temos que fazer um acordo. FANDO - E você acha que isso nos ajudará? LIS - Estou quase certa. FANDO - (Pensa) Mas, ajudar em que? LIS - Não importa, o que interessa é que nos ajude. FANDO - Para você tudo é muito simples. LIS - Não, para mim também é difícil. FANDO - Mas você tem soluções para tudo.

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LIS - Não, eu nunca encontro soluções, o que ocorre é que me iludo dizendo que as tenho encontrado.

FANDO - Isso não vale.

LIS - Já sei que não vale, mas como ninguém me pergunta nada, dá no mesmo; além do mais, é muito bonito.

FANDO - Sim, está certo, é muito bonito. Mas e se alguém lhe perguntar alguma coisa?

LIS - Tanto faz. Ninguém pergunta nada. Todos estão muito atarefados buscando uma maneira de enganarem-se a si mesmos.

FANDO - Uh! Que complicado! LIS - Sim, muito. FANDO - (Comovido) Como você é esperta, Lis! LIS - Mas não me serve de nada, você sempre me faz sofrer. FANDO - Não, Lis. Eu não lhe faço sofrer, muito pelo contrário. LIS - Lembra-se de como você me pega quando pode. FANDO - (Envergonhado) É verdade. Não voltarei a fazer isso, você verá que não.

LIS - Você sempre me diz que não voltará a fazer, mas logo me atormenta o quanto pode e diz que vai me amarrar com uma corda para que eu não possa me mover. Você me faz chorar.

FANDO - (Terníssimo) Fazia você chorar, principalmente, quando você estava naqueles dias. Não, Lis, não voltarei a fazer. Comprarei uma barca quando chegarmos a Tar e levarei você para ver um rio. Você quer, Lis?

LIS - Sim, Fando.

FANDO - E eu sentirei todas as suas dores, Lis, para que veja que eu não quero fazer você sofrer. (Pausa) Terei filhos como você também.

LIS - (Comovida) Como você é bom!

FANDO - Quer que eu lhe conte estórias bonitas, como a do homem que levava uma mulher paralítica, a caminho de Tar, num carrinho?

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LIS - Primeiro, me leva pra passear.

FANDO - Sim, Lis. (Fando toma Lis nos braços e passeia com ela pela cena) Olhe, Lis, como são bonitos o campo e a estrada.

LIS - Sim, como eu gosto! FANDO - Olhe as pedras. LIS - Sim, Fando, que pedras lindas! FANDO - Olhe as flores.

LIS - Não tem flores, Fando. FANDO - (Violento) Dá no mesmo, olhe as flores.

LIS - Eu estou dizendo que não tem flores. (Lis fala agora num tom muito humilde, Fando, pelo contrário, se torna mais autoritário e violento por momentos)

FANDO - (Gritando) Eu disse para olhar as flores! Será que não entende? LIS - Sim, Fando, me perdoa. (Longa pausa) Como sofro por ser paralítica!

FANDO - É bom que seja paralítica, assim sou eu que levo você para passear. (Fando se cansa de carregar Lis nos braços ao mesmo tempo que se torna cada vez mais violento)

LIS - (Bem docemente, temendo desagradar Fando) Como está bonito o campo com suas flores e suas árvorezinhas.

FANDO - (Irritado) Onde é que você está vendo árvores? LIS - (Docemente) Assim se diz: o campo com suas lindas árvores. (Pausa) FANDO - Você é muito pesada. (Fando, sem nenhum cuidado, deixa Lis cair no chão)

LIS - (Grita de dor) Ai Fando! (Imediatamente com doçura, com medo de desagradar Fando) Você me machucou!

FANDO - (Duramente) Você ainda se queixa.

LIS - (Quase chorando) Não, não me queixo. Muito obrigada, Fando. (Pausa) Mas eu gostaria que você passeasse comigo no campo e me mostrasse as flores tão bonitas. (Fando, visivelmente desgostoso, segura Lis por uma perna e a arrasta pela cena)

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FANDO - Então, agora está vendo as flores? O que mais queria ver? Heim? Diga. Já viu o bastante?

sim. ObrigadaFando.

LIS - (Soluça esforçando-se para que Fando não a ouça. Sem dúvida sofre muito) Sim, FANDO - Ou quer que eu a carregue até o carrinho?

LIS - Sim, se não for incômodo. (Fando arrasta Lis pela mão até deixá-la junto ao carrinho)

FANDO - (Visivelmente chateado) Eu tenho de fazer tudo pra você e ainda por cima você chora.

LIS - Me perdoa, Fando. (Ela soluça) FANDO - Qualquer dia eu lhe deixarei e irei para bem longe de você. LIS - (Chora) Não, Fando, não me abandone. Eu só tenho você no mundo. FANDO - Você não faz nada mais que me amolar. (Grita) E não chora. LIS - (Faz um esforço para não chorar) Não estou chorando.

FANDO - Pare de chorar, eu já disse. Se você continuar chorando, vou me embora agora mesmo.

(Lis apesar de tentar impedi-lo, continua chorando)

FANDO - (Muito chateado) Então você continua chorando, sempre, sempre, heim? Pois agora mesmo eu vou embora e não volto nunca mais. (Sai enfurecido. Depois de alguns instantes, Fando entra de novo, devagar e temeroso, até chegar onde está Lis)

FANDO - Lis, me perdoe. (Humilde, Fando toma Lis nos braços e a beija. Depois ele a senta comodamente. Ela se deixa levar sem dizer nada) Eu nunca mais vou ser mau com você.

FANDO - SimLis, você verá como eu vou me portar bem de agora em diante.

LIS - Como você é bom, Fando! LIS - Sim, Fando. FANDO - Me diga o que é que você quer.

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LIS - Que nos coloquemos a caminho de Tar.

FANDO - Vamos partir imediatamente. (Fando toma Lis nos braços com muito cuidado e a coloca no carrinho) Há muito tempo que nós estamos tentando chegar a Tar e não conseguimos nada.

LIS - Vamos tentar outra vez

FANDO - Muito bem, Lis, como você quiser. (Fando empurra o carrinho que começa a cruzar lentamente a cena. Lis, dentro dele, olha para o fundo. Fando pára de repente, se dirige para Lis e lhe acaricia o rosto com as duas mãos. Pausa) Eu peço perdão pelo que aconteceu. Eu não queria te fazer sofrer.

LIS - Eu sei disso, Fando. FANDO - Confia em mim. Nunca mais vou fazer isso.

LIS - Sim, confio em você. Você é sempre muito bom comigo. Eu me lembro que quando eu estava no hospital, você me enviava cartas enormes, para que eu pudesse me gabar que recebia cartas tão grandes.

FANDO - (Envaidecido) Isso não tem importância.

LIS - Também me lembro que, muitas vezes, como não tinha nada pra me contar, você me mandava um monte de papel higiênico para que a carta ficasse bem cheia.

FANDO - Isso não é nada, Lis. LIS - Como eu ficava contente! FANDO - Você está vendo como tem que confiar em mim? LIS - Sim, Fando, eu confio. FANDO - Sempre farei o que você mais goste. LIS - Então, vamos nos apressar para chegarmos a Tar. FANDO - (Triste) Mas não chegaremos nunca. (Fando empurra o carrinho) LIS - Eu já sei, mas tentaremos.

(O carrinho, empurrado por Fando, sai de cena. Black-Out)

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(Anoitece. Entra Fando entra em cena empurrando o carrinho no qual se encontra Lis. Pára. Lentamente, com muito cuidado, tira Lis do carro e a coloca no chão. Uma grossa corrente de ferro prende um dos pés de Lis ao carrinho. A corrente é bastante comprida. Fando vai falar num tom docemente desesperante)

FANDO - Lis, estou muito cansado. Vou descansar um pouco. (Lis olha distraida) Estou dizendo que estou muito cansado e que vou me sentar um pouco. (Lis olha sacudindo a cabeça e inexpressiva) Você quer alguma coisa? Me diga se você quer alguma coisa. (Lis não responde) Fale comigo, Lis, não se cale, diga alguma coisa. Eu sei o que é que você tem. Você está zangada comigo, porque depois de tanto andar não avançamos e estamos no mesmo lugar de sempre. (Parece que Lis não ouve nada) Lis, me responde. (Suplicando) Deseja alguma coisa? Lis, fale comigo. (Fando continua falando num tom suplicante e lamentável) Quer que eu lhe mude de posição? Você não está bem assim? (Lis não responde, Lis não faz o mínimo caso de Fando) Já sei: você quer mudar de posição. (Fando, com muito cuidado, a muda de posição. Ela se deixa levar. Ele a trata com muita atenção) Você vai ficar melhor assim. (Fando coloca as mãos sobre o rosto de Lis e a olha com entusiasmo) Como você é bonita, Lis! (Fando a beija. Lis continua imóvel) Me diga alguma coisa, Lis. Fale comigo. Você está aborrecida? Quer que eu toque tambor para você? (Fando olha para Lis esperando uma resposta, depois continua muito contente) Claro, vejo que você quer que eu toque tambor pra você. (Fando, muito contente, vai ao carrinho, pega o tambor e coloca na altura do estômago) O que você quer que eu toque? (Lis nada fala. Silêncio) Bom, eu vou tocar a canção da pena. Você gosta? (Silêncio) Ou prefere que eu toque a canção da pena? (Silêncio. Lis não responde) Como você quiser. (Ele vai começar a tocar o tambor, mas pára) Estou com vergonha, Lis. (Silêncio) Bem, vou fazer um esforço por você e vou tocar a canção da pena que você gosta tanto. (Ele vai começar, mas não se decide. Envergonhado) Eu sinto muito por não saber outra canção além da canção da pena. (Pausa. De repente, Fando começa a tocar tambor de um modo muito sem jeito, enquanto canta com uma voz desafinada a seguinte canção)

- A pena estava na cama E a cama estava na pena. (bis)

FANDO - (Quando termina, pergunta a Lis) Gostou, Lis? (Lis não diz nada. Fando muito entristecido vai até o carrinho para deixar o tambor. Antes disso, ele olha para Lis, retoma o tambor e toca de novo. Olha de soslaio para Lis, mas vê que sua música não faz efeito nela. Desencorajado, deixa o tambor junto ao carrinho. Mais triste que nunca) Fale comigo, Lis. Diga-me alguma coisa. Como é que você quer continuar o caminho se não fala comigo? Estou cansado. Me sinto muito só. Fale comigo, Lis, diga alguma coisa. Conte-me qualquer coisa, mesmo que seja uma bobagem, mas diga alguma coisa. Você sabe falar muito bem quando você quer. Lis, não se esqueça de mim. (Pausa) Eu vou te levar para Tar. (Pausa) Às vezes você se cala e eu não sei o que o que está acontecendo com você. Não sei se está com fome, ou se quer flores ou se está com

Desvendando Teatro (w.desvendandoteatro.com) vontade urinar. Claro, eu posso me enganar, eu sei que você não tem nada do que me agradecer e inclusive pode estar zangada comigo, mas isso não é um motivo para não falar comigo. (Pausa) Como sei que você quer ir para Tar, lhe coloquei no carrinho e a estou levando. Não me importam as dificuldades, só quero fazer aquilo que possa lhe agradar. (Silêncio) Mas, Lis, fale comigo. (Lis olha sem expressão. Entram três homens: Mitaro, Namur e Toso. Namur anda entre seus dois amigos e segura um grande guardachuva preto que cobre os três. Formam um só bloco. Eles param longe de Lis e Fando para inspecionar o lugar sem dar a menos atenção a eles. Depois da inspeção, bastante minuciosa, da parte de Mitaro e Namur que chegam a cheirar o chão. De novo os três se reúnem debaixo do guarda-chuva)

TOSO - Sim, podemos dormir aqui.

MITARO - Mas antes, temos que saber de onde vem o vento. (Molha o dedo com cuspe e o levanta no ar)

NAMUR - Isso não importa. O importante é saber para onde ele vai. TOSO - Vamos dormir debaixo do guarda-chuva, e deixemos em paz o vento. MITARO - (Ofendido) Você é sempre tão tranquilo. NAMUR - (A Mitaro) Se fossemos por ele, já estaríamos todos mortos.

MITARO - (A Namur) Mortos ou pior ainda. E tudo por sua maldita mania de não tomar precauções.

TOSO - (Chateado) O mais importante, creio eu, é dormir. MITARO - O mais importante é saber de onde vem o vento. NAMUR - (Corrigindo-o suavemente) Não, o importante é saber para onde ele vai. MITARO - Eu insisto em dizer que o importante é saber de onde vem o vento.

NAMUR - Enfim, não vou ser intransigente. Não quero ser como Toso. Como você quiser.

MITARO - (Muito satisfeito) Então, ficamos de acordo que o importante é saber de onde vem o vento.

NAMUR - (Conciliador) Pois é, saber de onde vem o vento. (Depois de uma breve pausa, continua num tom mais baixo) ... E para onde vai depois de ter vindo.

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TOSO - (Interrompendo) Para mim, vocês podem dizer o que quiserem, mas o que é realmente importante é se colocar a dormir o mais rápido possível.

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