Autismo impacto na família

Autismo impacto na família

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A investigação do impacto do autismo na família: Revisão crítica da literatura e proposta de um novo modelo

Carlo Schmidt

Cleonice Bosa Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo

Os Transtornos Globais do Desenvolvimento, dos quais o autismo faz parte, caracterizam-se pelo comprometimento severo em três áreas do desenvolvimento: habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação e presença de comportamentos, interesses e atividades estereotipadas (DSM-IV-TR, 2002). As características próprias do comportamento, somadas à severidade do transtorno podem constituir estressores em potencial para familiares e/ou cuidadores. O presente estudo tem como objetivo revisar as pesquisas sobre o impacto dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, em especial do autismo, na família. A partir da noção de que este fenômeno envolve uma série de fatores interatuantes, intra e extrafamiliares os quais afetam a família ao longo de seu ciclo vital, conclui-se que a sua compreensão não pode ocorrer com base em relações lineares entre possíveis causas e seus efeitos, de forma reducionista. Como alternativa, o estudo aponta para a necessidade da adoção de um modelo explicativo que contemple as diversas variáveis envolvidas no processo de adaptação da família frente a uma condição crônica. Destaca-se o modelo de Bradford (1997), o qual propõe uma abordagem psicossocial, que integra concepções cognitivas e sistêmicas, na área da Psicologia da Saúde, num metamodelo especificamente desenvolvido para o estudo do impacto da doença crônica na família.

Palavras-chave: Autismo; estresse familiar; impacto na família.

Abstract The autism burden in the family: A critical review and a new model proposal

Pervasive developmental disorders, including autism, consist of a severe impairment in three developmental areas: impairment of social skills; impairment of communication; and stereotypical behaviors, interests and activities (DSM-IV-TR, 2002). The behavior characteristics associated with the disorder severity may be potential stressors for family, relatives and caregivers. The burden on the family depends upon a range of interacting factors which require an explaining model which takes into account the variables involved in the family’s adaptation to this chronic condition. We argue that the Bradford’s biopsychosocial model (1997), although originating in the health psychology field, may be useful for understanding developmental disorders to the extend that it emphasizes interactions between the following contextual factors; health beliefs, social support, disease challenges, coping strategies, and family communication patterns. The purpose of the present study is to make a critical review on studies regarding the impact of Pervasive Developmental Disorders in the family. As this phenomenon involves a range of interacting factors, in and outside the family and affect it’s vital cycle, we conclude that understanding could not be based upon linear relations between causes and its outcomes. As an alternative, this paper suggests the need of an explaining model with respect to the range of variables involved on the family adaptative process when facing chronic disease. We emphasize the Bradford’s model (1997), which provides a psychosocial framework that integrates cognitive and systemic conceptions in a metamodel, specifically developed for a study of the impact of chronic illness in family.

Keywords: Autism; family stress; burden of care.

Os Transtornos Globais do Desenvolvimento

(TGDs), os quais incluem o autismo, têm sido definidos como uma síndrome, envolvendo comprometimento severo e invasivo em três áreas do desenvolvimento: habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação, e presença de comportamentos, interesses e atividades estereotipadas (DSM-IV-TR, 2002). Estas características podem constituir estressores em potencial para familiares e/ou cuidadores. A partir da revisão da literatura, observa-se que estudos internacionais, que tratam do impacto dos TGDs sobre os pais, têm utilizado predominantemente escalas fechadas como instrumento de medida (Ex.: estresse parental), obtendo dados importantes, porém limitados, ao passo que estudos brasileiros nessa área têm sido raros e fundamentados em um “modelo de déficit” em contraste ao de “recursos”. Em um modelo de déficit é ressaltada a questão da psicopatologia familiar, enquanto que no de recursos, focalizam-se, além da identificação de comprometimentos, as

A investigação do impacto do autismo na família estratégias que as famílias desenvolvem para compreender e lidar com a síndrome.

O presente estudo tem como objetivo revisar as pesquisas sobre o impacto dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, em especial do autismo, na família. A partir da noção de que este fenômeno envolve uma série de fatores interatuantes, intra e extrafamiliares (Ex.: especificidades da síndrome, rede de apoio, crenças familiares sobre a síndrome) e afetam a família ao longo de seu ciclo vital, conclui-se que a sua compreensão não pode ocorrer com base em relações lineares entre possíveis causas e seus efeitos, de forma reducionista. Como alternativa, o estudo aponta para a necessidade da adoção de um modelo explicativo que contemple as diversas variáveis envolvidas no processo de adaptação da família frente a uma condição crônica. Esta particularidade, isto é, o fato do comprometimento do desenvolvimento ter seu início nos primeiros anos de vida da criança e, portanto, se estender por diferentes períodos evolutivos da criança, tem sido negligenciado nas abordagens tradicionais. Destaca-se o modelo de Bradford (1997), o qual propõe uma abordagem psicossocial, que integra concepções cognitivas e sistêmicas, na área da Psicologia da Saúde, num metamodelo especificamente desenvolvido para o estudo do impacto da doença crônica na família.

Autismo

As primeiras publicações a respeito da síndrome do autismo foram de autoria do psiquiatra austríaco Leo Kanner, em 1943, denominando-a inicialmente de “distúrbio autístico do contato afetivo”. Logo depois, esse termo foi substituído por “autismo infantil precoce” (Kanner, 1944). Kanner descreveu o caso de onze crianças que apresentavam um quadro por ele considerado raro, no qual o comprometimento fundamental era a incapacidade para relacionamentos interpessoais, desde o início da vida.

Estas primeiras idéias ainda destacaram como denominador comum aos 1 casos, os altos níveis de inteligência e sociocultural dos pais das crianças avaliadas, bem como obsessividade e certa frieza nas relações entre casais e pais e filhos. No entanto, Kanner logo questionou o papel da psicopatologia parental como possível etiologia do autismo, colocando a dificuldade em se atribuir todo o quadro exclusivamente ao tipo de relações parentais precoces. Sua conclusão foi de que o autismo origina-se de uma incapacidade inata de estabelecer o contato afetivo habitual e biologicamente previsto com as pessoas (Kanner, 1943), sem, contudo, excluir a importância dos aspectos ambientais no desenvolvimento.

O conceito de autismo foi modificando-se com base em pesquisas científicas, as quais identificaram diferentes etiologias, graus de severidade e características específicas ou não usuais, deixando então de ser considerado um quadro único e passando a ser visto como uma síndrome. A tendência nas definições atuais de autismo é a de conceituá-lo como uma síndrome comportamental, de etiologias múltiplas, que compromete o processo do desenvolvimento infantil (Gillberg, 1990; Rutter, Taylor & Hersov, 1996).

Atualmente, de acordo com o DSM-IV-TR (2002), os Transtornos Globais do Desenvolvimento caracterizam-se pelo comprometimento severo e invasivo em três áreas do desenvolvimento: habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação, e presença de comportamentos, interesses e atividades estereotipadas. Nessa classificação estão incluídas cinco categorias diagnósticas: Transtorno Autista, o Transtorno de Rett, Transtorno Desintegrativo da Infância, Transtorno de Asperger e Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra Especificação, sendo o autismo o transtorno prototípico desta categoria.

O comprometimento da interação social é caracterizado por alterações qualitativas das interações sociais recíprocas. Podem-se observar dificuldades na espontaneidade, imitação e jogos sociais, bem como uma inabilidade em desenvolver amizade com companheiros da mesma idade; comprometimento acentuado no uso de comportamentos verbais e nãoverbais, além da falta de reciprocidade social e emocional (Assumpção Jr., 1997; Bosa, 2002; Tanguay, 2000, Rutter & cols., 1996). Quanto ao comprometimento das modalidades de comunicação, é relatado atraso na aquisição da fala, uso estereotipado e repetitivo da linguagem e uma inabilidade em iniciar e manter uma conversação. Acrescentam-se ainda outras características como a inversão pronominal (falar sobre si na terceira pessoa), a ecolalia imediata e a ecolalia diferida (Assumpção Jr., 1997; Baptista & Bosa, 2002; Rutter & cols., 1996).

O terceiro item da tríade refere-se aos padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades. Estes podem ser manifestados através da adesão inflexível a rotinas e rituais específicos, não funcionais, e pela preocupação persistente com partes de objetos, em detrimento do objeto como um todo. Além destes sintomas, observa-se insistência na mesmice, bem como a manifestação de sofrimento e resistência frente a mudanças (DSM-IV-TR, 2002).

De acordo com o DSM-IV-TR (2002), os sintomas do autismo se fazem presentes antes dos 36 meses de idade. Não existe, em geral, um período de desenvolvimento inequivocamente normal, embora em 20% dos casos os pais não tenham relatado comprometimentos durante os dois primeiros anos de vida da criança. Esse quadro é associado à deficiência mental em cerca de 75% dos casos, e poucos indivíduos apresentam QI acima de 80 (Facion, Marinho & Rabelo, 2002). É de consenso que a maioria dos casos (mas não todos) que apresenta a tríade em grau severo, mostra os primeiros sintomas logo no início da vida. Portanto, é plausível supor que essas características exerçam um impacto no cotidiano das famílias e nas relações entre seus membros.

O Impacto dos Transtornos Globais do Desenvolvimento na Família

A família de indivíduos portadores de autismo se vê frente ao desafio de ajustar seus planos e

A investigação do impacto do autismo na família expectativas quanto ao futuro, às limitações desta condição, além da necessidade de adaptar-se à intensa dedicação e prestação de cuidados das necessidades específicas do filho (Breslau & Davis, 1986; Bristol & Schopler, 1984; DeMyer, 1979; Gallagher, Beckman & Cross, 1983; Gath, 1977; Gauderer, 1997; Harris, 1983; Richman, 1977). As características clínicas da síndrome afetam as condições físicas e mentais do indivíduo, aumentando a demanda por cuidados e, conseqüentemente, o nível de dependência de pais e/ou cuidadores. Essa situação pode constituir um estressor em potencial para familiares.

1967; Eisenberg, 1956; Rank, 1949;Ruttenberg,

Vários estudos revelaram a existência de estresse agudo em famílias que possuem um membro com diagnóstico de autismo (Cutler & Kozloff, 1987; Factor, Perry, & Freeman, 1990; Perry, Sarlo- McGarvey & Factor, 1992; Schopler & Mesibov, 1984). O estudo de Bristol e Schopler (1983) complementa estes dados, demonstrando que os familiares de crianças com autismo apresentam padrões de estresse mais elevados do que famílias que possuem um filho com desenvolvimento típico ou com síndrome de Down, sugerindo que o estresse parece ser influenciado por características específicas do autismo e não apenas por um atraso do desenvolvimento. De fato, conforme apontado por estes autores, percebe-se uma inversão na ênfase histórica de pesquisas dos efeitos psicológicos do comportamento dos pais sobre a criança (Bettelheim, 1971) para pesquisas dos efeitos psicológicos do comportamento das crianças sobre os pais.

Konstantareas e Homatidis (1989), realizaram uma breve revisão histórica sobre a questão do estresse em familiares de crianças com autismo. Segundo os autores, Holroyd, Brown, Wilker e Simmons (citados em Konstatareas & Homatidis) foram os primeiros a investigar o tema, identificando níveis consideráveis de estresse nas 29 famílias pesquisadas. Subseqüentemente, um outro estudo (Holroyd & McArthur, 1976) encontrou maiores níveis de estresse em pais de crianças com autismo, quando comparados a grupos de controle.

No final da década de 1970, DeMyer (1979) publicou seu trabalho acerca do estresse dos pais de crianças com autismo, os quais foram comparados a um grupo controle. Os resultados demonstraram maior presença de tensão física e psicológica em mães de crianças com autismo, culpa em 6% destas e incertezas quanto a habilidades maternais em 3%. Neste estudo, os pais também se mostraram afetados, porém de modo indireto, isto é, reagiram ao sofrimento de suas esposas. A partir de então, iniciamse questionamentos a respeito das possíveis diferenças quanto ao estresse entre pais e mães de crianças com autismo.

Milgram e Atzil (1988) estudaram os diferentes papéis desempenhados por pais e mães de crianças com autismo em Tel-Aviv. Os resultados apontam que as mães tendem a apresentar maior risco de crise e estresse parental que os pais, devido à demanda dos cuidados com a criança. Conforme estes autores, existe uma expectativa social de que as mães tomem para si esses cuidados, assumindo-os mais do que os pais. Contudo, é mencionado o sentimento de desamparo destas pela falta de suporte dos maridos, manifestando o desejo de que eles assumam uma responsabilidade conjunta e espontânea acerca dos cuidados do filho. Estes achados são corroborados pelo estudo de Konstantareas e Homatidis (1989), em que foi examinado o nível de suporte conjugal disponível a mães e pais de crianças com autismo. Através de entrevistas semi-estruturadas, foram agrupados hierarquicamente os principais tipos de suporte desejados pelas mães, em relação aos seus cônjuges, sendo estes: 1) oportunizar maior alívio materno quanto aos cuidados da criança com autismo; 2) assumir maior responsabilidade disciplinar para com o filho; 3) obter ajuda paterna de forma espontânea, sem a necessidade de contínuos pedidos de ajuda.

Milgram e Atzil (1988), também descrevem o papel dos pais, que em contraposição às expectativas das mães, consideram justa sua menor participação nos cuidados gerais da criança, devido ao peso de suas responsabilidades financeiras e ocupacionais já desempenhadas junto à família. Porém, outros estudos revelam que estas responsabilidades tendem a acarretar tensão emocional e financeira significativas, conseqüentemente dificultando a contribuição destes para com os cuidados da criança (Bristol & Gallagher, 1986; DeMyer, 1979; Milgram & Atzil, 1988; Price- Bonham & Addison, 1978).

No início da década de 80, Bristol e Schopler (1983) relataram os achados de uma pesquisa não publicada de Bristol (1979, citado em Bristol & Schopler), em que reafirmam que o grau de dependência, incapacidades cognitivas e as dificuldades nas características de comportamento da criança com autismo resultavam em maior estresse parental. Conforme Konstantareas e Homatidis (1989), tais dados conduzem mais a tentativas explicativas do que a informações conclusivas sobre a questão do estresse em familiares de sujeitos com autismo.

No início dos anos 1990, levantou-se a hipótese de que pudesse existir um padrão particular de áreas que influenciasse o estresse em pais de crianças com autismo. Koegel e colaboradores (1992) buscaram explorar melhor este tema. Para avaliar a consistência destes padrões de estresse, 50 famílias oriundas de várias regiões geográficas dos Estados Unidos e Alemanha preencheram o QRS - Questionnaire on Resources and Stress (Holroyd, 1974), levando em conta também o nível de funcionamento (QI) e a idade dos indivíduos (entre 3 e 31 anos). A correlação para mães de crianças com autismo, em cada uma das três localidades geográficas, mostrou-se bastante alta e estatisticamente significativa (p<0,001). O coeficiente de correlação entre o grupo da Califórnia (Santa Bárbara e São Diego) e o grupo da Alemanha foi de 0,931. Para o grupo da Califórnia versus o grupo Apalache (Kentucky, West Virginia e Ohio) a correlação foi de 0,957. Por último, entre o grupo da Alemanha e o grupo Apalache a correlação foi de 0,886. Os resultados sugerem a existência de um perfil

A investigação do impacto do autismo na família característico de estresse para pais de crianças com autismo, mostrando uma constância relativa entre famílias de diferentes localidades geográficas. Dentre os itens avaliados, o que mostrou maior consistência quanto ao estresse em pais e mães foram as preocupações relativas ao bem-estar de seus filhos, quando os mesmos não puderem mais prover seus cuidados. Estas preocupações subdividem-se em: 1) preocupação com o futuro de seu filho; 2) dificuldades cognitivas e habilidades de funcionamento independente da criança; e 3) aceitação em sua comunidade.

Consistente com os achados de outros pesquisadores (Bristol & Schopler, 1983; Holroyd & McArthur, 1976), estes resultados sugerem que o convívio e os cuidados continuados prestados a crianças com autismo se mostra como um poderoso estressor, que age sobre a vida destas famílias de modo muito característico.

A identificação de fontes específicas de estresse em familiares de pessoas com Transtornos Globais do Desenvolvimento também foi foco de interesse de Perry e colaboradores (1992). Os autores encontraram níveis de estresse mais elevados em familiares de crianças portadoras da síndrome de Rett quando comparados a grupos controle. Os resultados mostraram que os pais de meninas com síndrome de Rett experienciam maior estresse em relação aos seus sentimentos de apego para com suas filhas, isolamento social e problemas de saúde, do que o grupo controle. A justificativa dos autores é de que os níveis de estresse mais elevados, nesta população em particular, se devem a vários fatores: a) a aparência saudável da criança quando bebê cria expectativas nos pais, que são posteriormente destruídas; b) os filhos podem apresentar incapacidades graves, necessitando de cuidados intensos durante toda a vida; c) as poucas expectativas quanto a melhorias de tratamento.

Embora grande parte da literatura mostre evidências de maiores níveis de estresse em familiares de crianças com transtornos no desenvolvimento (Koegel & cols., 1992; Perry & cols., 1992), outras pesquisas abordam este assunto sob outra ótica. Alguns estudos (Konstantareas, Homatidis & Plowright, 1992; Silva & Dessen, 2003) indicam que as dificuldades das crianças com algum transtorno do desenvolvimento podem ser consideradas como um estressor apenas em potencial, podendo estes pais sofrer ou não os efeitos de um estresse real. Para estes autores, o impacto das dificuldades próprias da síndrome sobre os pais vai depender de uma complexa interação entre a severidade das características próprias da criança e as de personalidade dos pais, bem como a disponibilidade de recursos comunitários e sociais. De fato, Gomes e Bosa (2002), ao investigarem o impacto do autismo em irmãos de portadores dessa condição, não encontraram evidência de estresse nesta população. Na verdade, o nível de estresse estava mais associado à qualidade das relações familiares (Ex.: conflito e punição), independentes de ter ou não um irmão com autismo.

De acordo com Bristol e Schopler (1983), na área da sociologia têm-se procurado desenvolver modelos de avaliação que identifiquem fatores predisponentes a crises familiares face ao estresse. Hill (1949) já havia chamado a atenção para a necessidade de um modelo compreensivo de estresse familiar, que levasse em conta a avaliação dos recursos familiares disponíveis. De forma similar, Konstantareas e colaboradores (1992) sugerem uma avaliação sistemática do estresse percebido, por exemplo, enfocando a forma como estes pais encontram-se frente à necessidade de lidar com a alta demanda de cuidados solicitados por seus filhos, às reações negativas da comunidade, aos limitados recursos de apoio que podem contar ou sentimentos diante de possíveis renúncias quanto à carreira profissional.

Um estudo anterior, destas mesmas autoras

(Konstantareas & Homatidis, 1989), buscou investigar o estresse familiar percebido, a partir de três aspectos: as características da criança, características de personalidade dos pais e recursos de coping. Os objetivos foram: 1) identificar a forma como pais e mães avaliam a presença e o grau de expressão de 14 sintomas-chave de autismo em seu filho; 2) avaliar o quão sintomático os pais percebem seu filho, clareando a relação entre severidade do sintoma e estresse; 3) avaliar o estresse em função de cada sintoma para determinar possíveis diferenças quanto ao impacto destes em pais e mães; 4) avaliar como a severidade do sintoma e o estresse concomitante se relacionam com algumas características da criança; e 5) examinar os efeitos de outras características familiares (nível socioeconômico, tamanho da família, suporte social) sobre os níveis de estresse.

Para tanto, 4 famílias, que tinham filhos com autismo, participaram do estudo, sendo que a faixa de idade dos pais variava de 23 a 52 anos. Foram utilizadas uma escala e uma entrevista semiestruturada para avaliar o grau de suporte social e dificuldades experienciadas ao lidar com agentes sociais e comunitários. Quanto aos resultados, a percepção dos sintomas mostrou-se influenciada pela idade da criança, sendo as crianças mais novas (até 6 anos) vistas como menos sintomáticas pelos pais em comparação à percepção dos clínicos. O estudo também identificou alto grau de concordância interparental quanto à avaliação da severidade dos sintomas: 1) pobreza na comunicação; 2) discrepâncias nas habilidades cognitivas; 3) comprometimento no relacionamento interpessoal.

No caso do estresse parental devido aos sintomas da criança, a pontuação foi equivalente entre pais e mães, porém enquanto o melhor preditor para o estresse paterno foi os comportamentos autoabusivos (bater-se, arranhar-se, beliscar-se ou morder-se), para as mães foi a hiperirritabilidade (grau de inquietude e comportamentos disfuncionais) e a idade mais avançada da criança (6 a 12 anos).

Estudos têm apresentado dados a respeito da natureza dos eventos causadores de estresse e das características próprias da criança com autismo, que exercem um impacto sobre os familiares, considerando como parte integrante deste processo, as formas utilizadas pelos familiares para lidar com o estresse (coping) (Schopler & Mesibov, 1983;

A investigação do impacto do autismo na família

Konstantareas & cols., 1992). As emoções e a excitação fisiológica criada por situações estressantes são altamente desconfortáveis, motivando o indivíduo a fazer algo para seu alívio (Atkinsons, Atkinsons, Smith & Bem, 1995; Lazarus & Folkman, 1984). Lazarus e Folkman identificaram duas formas principais de coping. A primeira inclui estratégias de definição do problema, geração de soluções alternativas, comparação em termos de custos e benefícios, seleção e implementação da alternativa escolhida (focalizada no problema). Já a segunda, focalizada na emoção, objetiva desenvolver ações para controlar o estado emocional, bem como impedir que as emoções “negativas” afetem o engajamento em ações para a solução de seus problemas.

Tunali e Power (1993) abordaram a relação entre estresse e coping em pais de crianças com transtornos do desenvolvimento. Conforme sua análise, quando um indivíduo se encontra em uma situação inevitável em que uma necessidade humana básica está ameaçada, esta exposição ao estresse pode “redefinir o preenchimento destas necessidades, desenvolvendo meios alternativos para alcançá-lo” (p. 950). Baseado neste modelo, em um estudo posterior (Tunali & Power, 2002), os autores compararam as respostas de mães de crianças com e sem autismo a respeito de uma série de tópicos envolvendo o seu cotidiano, em uma entrevista. Os resultados não revelaram diferenças entre os grupos quanto a itens como ajuste psicológico, satisfação de vida ou satisfação conjugal. Contudo, os autores encontraram uma correlação positiva entre determinadas estratégias de coping e satisfação de vida, em mães de filhos com autismo. Por exemplo, as mães que apresentaram maior satisfação de vida, foram aquelas que tendiam a depositar maior ênfase na importância de “ser uma boa mãe” do que na carreira profissional; a passar a maior parte de seu tempo de lazer com familiares; a depositar menor ênfase no lazer individual e na opinião ou aprovação alheias a respeito dos comportamentos de seus filhos; maior ênfase nos papéis e suporte parentais do que na intimidade conjugal e lazer compartilhado; maior tolerância à ambigüidade, tanto em relação a seus filhos quanto no geral. Essa correlação foi negativa para mães de crianças sem autismo.

Os estudos apresentados mostram que os pais ou cuidadores de um indivíduo portador de autismo lidam diariamente com diversos estressores. Esta condição afeta todos os membros da família, causando estresse direta (Ex: pobreza na interação social) ou indiretamente (Ex: impacto financeiro).

A análise da literatura revisada revela contradições entre as pesquisas quanto às características comportamentais da criança com autismo que mais contribuem para o estresse em familiares. O estudo de Konstantareas e Homatidis (1989), por exemplo, comparou dados de famílias de crianças com e sem autismo a fim de mapear as principais fontes do estresse familiar. O melhor preditor para o estresse paterno foi os comportamentos autoabusivos e para o materno foi a hiperirritabilidade. É interessante notar que ambos os comportamentos citados não são típicos ou exclusivos do autismo, podendo ser encontrados em outras condições (Ex: deficiência mental). Logo, o estresse produzido por estes fatores pode estar presente em outras famílias que não somente a de crianças com autismo.

Por outro lado, no estudo de Bebko, Konstantareas e Springer (1987), a maior fonte de estresse parental foram os déficits na comunicação (linguagem verbal expressiva) e cognitivos (discrepância entre diferentes áreas). Considerando que as dificuldades na comunicação afetam o relacionamento interpessoal, e constituem critérios-chave para o diagnóstico de autismo, pode-se compreender estes resultados como sendo mais específicos aos casos de autismo.

De forma similar, a pesquisa realizada por Koegel e colaboradores (1992) também identificou as dificuldades verbais e cognitivas das crianças com autismo como os sintomas mais relacionados ao estresse em familiares. Porém, analisando a metodologia desta pesquisa em pormenor, nota-se que não foi levado em conta o apoio social disponível a estas famílias nem a severidade dos sintomas presentes na criança. Sabe-se que estes dois fatores exercem influência importante quanto ao mapeamento do estresse parental (Factor & cols., 1990; Gill & Harris, 1991; Konstantareas & cols., 1992).

Além disso, os autores examinaram a associação entre idade da criança e o estresse familiar e concluíram não haver relação significativa entre estes fatores. Outros estudos contrariaram estes achados (Bristol & Schopler, 1983; DeMyer & Goldberg, 1983) encontrando que a idade mais avançada da criança (adolescentes) tende a ser preditor de estresse familiar. Uma possível explicação para isso é que, enquanto as crianças são pequenas, os pais ainda não têm plena consciência do significado e da extensão de seus “sintomas”, gerando menor preocupação. Já em outros estudos (Bebko & cols., 1987; Schopler & Mesibov, 1983) os pais consideraram os sintomas das crianças mais velhas (adolescentes) como menos severos, contribuindo para as contradições quanto aos achados.

Outro ponto ainda divergente apresentado nas pesquisas se refere às diferenças de estresse percebido por pais e mães. Considera-se que o papel social esperado e a maior responsabilidade sobre os cuidados por parte das mães, os quais são intensos e prolongados, as tornem alvo de maior estresse. Outros estudos que diferenciam o estresse em pais e mães consideram que o estresse sofrido pelo pai é qualitativamente diferente do das mães, não implicando em maior ou menor estresse (Bristol & Gallagher, 1986; DeMyer & Goldberg, 1983).

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