Autoestima e aprendizagem

Autoestima e aprendizagem

A primeira coisa que devemos lembrar, como bem nos coloca

Souza (2010) é que a auto-estima de uma criança está muito relacionada com a sua aprendizagem, uma vez que é através de seus sucessos e fracassos neste âmbito, que durante a infância ocupa a maior parte de sua vida, que ele vai formando o seu autoconceito.

Mas qual seria a diferença entre auto-estima e autoconceito?

Os dois não se referem à mesma coisa?

Na verdade, ambos estão intimamente ligados, mas não são a mesma coisa, já que o autoconceito abrange a opinião que tenho de mim mesmo, devido a meus sucessos e fracassos, e a auto-estima engloba os sentimentos decorrentes deste autoconceito, ou seja, como eu me sinto, em relação à mim mesmo, à partir deste conceito que me atribuo.

Então, a auto-estima decorre do autoconceito, de modo que para entendê-la de uma melhor forma, é preciso primeiro clarificar a este último.

Neste sentido, Souza (2010) nos coloca que o autoconceito se desenvolve na relação da criança com as outras pessoas significativas de sua vida, de modo que o professor e os colegas exercem assim um papel importante neste desenvolvimento. Ou seja, estas pessoas atuam como espelhos a partir dos quais a criança pode perceber e formar a sua imagem sobre si mesma. E esta imagem é formada através do afeto que ela percebe de tais pessoas em relação à ela. Assim, recebendo afeto positivo por parte destas pessoas, ela pode formar um autoconceito positivo em relação a si. Já, sendo alvo de afeto negativo por parte destes membros significativos de sua vida, ela possivelmente formará um autoconceito negativo.

É claro que a criança recebe influências mútuas, e que a crítica de uma única pessoa a seu respeito não tem força suficiente para influir desta maneira no seu autoconceito. Contudo, o que se verifica, no caso da criança com dificuldades de aprendizagem, são múltiplas influências nesta direção, já que seus professores, frequentemente, a julgam como inúteis e incapazes, seus colegas a zombam e ironizam pelos mesmos motivos, e seus pais, cansados das constantes idas à escola e das reclamações, também a depreciam, e muitas vezes até castigam por sua dificuldade de aprendizagem.

Assim, como formar um autoconceito positivo? Difícil, não é mesmo? E é exatamente isto que nos mostram Stevanato et al. (2003) em sua pesquisa sobre o autoconceito de crianças com dificuldades de aprendizagem que apontou que estas crianças tem uma imagem muito mais negativa de si mesmas do que as crianças sem dificuldades de aprendizagem. Além disso, quando se verificam problemas de conduta acrescidos a estas dificuldades de aprendizagem, o prejuízo é ainda maior, visto que mais do que receberem feedback negativo do ambiente em relação à aprendizagem, estas crianças também o recebem à respeito de sua conduta.

Assim, as consequências deste segundo caso são ainda mais desastrosas, já que tais crianças entram numa escalada de comportamentos desadaptativos que pode até levar à delinquência durante o período da adolescência. Explicando melhor: ao receber um número tão grande de críticas e punições a criança pode se rebelar contra elas, demonstrando comportamentos agressivos e anti-sociais que são alvo de muito mais críticas e repreensões. Sofrendo mais críticas, seu comportamento piora ainda mais, entrando num ciclo vicioso, que pode culminar, na adolescência, com a falta de controle do comportamento deste sujeito por parte de seus pais.

E em decorrência de todas estas críticas e do prejuízo que causam na auto-estima desta criança, que se sente burra, incapaz e inadequada, todo o funcionamento psicológico desta criança acaba sendo afetado, conforme afirma Campos (2003, p. 1):

A maioria destas crianças têm estruturas depressivas do seu funcionamento psíquico, isto é, são: desvalorizadas na sua auto imagem (são vulgares expressões do tipo: "sou burro", "não sou nada bom", "não faço nada bem") são inseguras (são vulgares expressões do tipo: "não sei se consigo, faço isto ou faço aquilo?"), têm pouca tolerância à frustração, desistindo rapidamente à primeira contrariedade ou respondendo agressivamente contra os outros, antecipam negativamente as situações escolares, sobretudo de teste ou avaliação formal (são vulgares expressões do tipo: "vou falhar, amanhã não vou conseguir"), têm dificuldades em interpor pensamento entre o sentir e o agir, pelo que a alteração dos comportamentos (instabilidade, hiperatividade ou agressividade ou, mais raramente, pela inibição e retirada) e esta é a melhor imagem de marca desta situação.

aprendizagemMas, como nós vimos também, o autoconceito desta criança, e

Como vocês podem ver, o quadro pintado acima não é nada bonito, não é? Pois é, e estas são apenas algumas das consequências, ainda que as principais, para a auto-estima da criança com dificuldades de consequentemente sua auto-estima, é formada à partir da reação das outras pessoas à ela. Assim, como poderia reagir o professor em relação à aprendizagem desta criança e à sua própria auto-estima, com vistas a modificar este quadro? Vamos refletir um pouco sobre isto?

1.1 E SOBRE A AUTO-ESTIMA DA CRIANÇA, O QUE FAZER?

Como já falamos, a auto-estima é produto das interações da criança com as pessoas significativas de seu meio ambiente. Assim, as dicas abaixo, além de servirem para os professores e demais profissionais que trabalharão com esta criança, também podem ser utilizadas pelos próprios pais, no sentido de aumentar a auto-estima de seus filhos.

Uma primeira forma de desenvolver a auto-estima das crianças seria, segundo Guilhardi (2002), consequenciar os comportamentos adequados desta criança com elogios. Sabe-se que muitas vezes, no caso da criança com transtornos de aprendizagem, foca-se muito mais em suas dificuldades do que em seus pontos fortes. Contudo, é claro que esta criança possui várias características positivas, e é elogiando tais características que se pode ajudar a implementar sua auto estima.

Contudo, o próprio Guilhardi (2002, p.71-72, grifo do autor) nos alerta que:

O fundamental para o desenvolvimento da auto-estima é o reconhecimento que os pais expressam ao filho pelos seus comportamentos. Assim, é importante salientar o você na frase que explicita o elogio e não apenas o comportamento: “Você me deixou feliz com seu boletim” é muito melhor que “As notas do seu boletim me deixaram feliz”;“Que mangas deliciosas você apanhou na mangueira da vovó” não é uma frase tão rica quanto “Você conseguiu apanhar na mangueira da vovó umas mangas deliciosas”;“Quando você está assistindo ao jogo na TV, eu me animo para ver a partida” é mais importante que “Vamos assistir ao jogo na TV?” etc.. Note que em todas as frases há um elogio, uma forma de reforçamento positivo social; no entanto, algumas frases destacam a pessoa que emitiu o comportamento. É esse tipo de comunicação que melhor desenvolve a auto-estima, uma vez que dá destaque à pessoa e não ao comportamento.

Observem que Guilhardi (2002) escreve essencialmente para pais, mas que, conforme dissemos acima, tais estratégias podem ser também utilizadas por professores e outros profissionais que trabalham com a criança, que deste modo, vão fazer com que ela se sinta amada. E sendo amada pelo outro, ela aprende a amar a si mesmo e a reconhecer que é capaz de realizar determinadas atitudes que foram elogiadas pelos outros, e que passam as ser reconhecidas por ela mesma.

No entanto, para que possamos elogiar a criança é preciso estabelecer metas realistas para seu desempenho, para que assim ela consiga executar o que foi pedido, e possa ser elogiada pela consecução de tal objetivo. Assim, segundo Souza (2010) é preciso ter cuidado o cuidado de adequar as tarefas que cabem a cada idade e permitir que a criança tente, como colocar o suco no copo (ainda que derrame), a roupa (mesmo do avesso), jogar objetos no lixo, guardar os brinquedos, as peças do jogo, ajudar na arrumação dos seus livros, fitas de vídeo, enfim, solicitar a ajuda da criança, partilhando com ela pequenos afazeres, e elogiando suas conquistas.

Contudo, além de elogiar o comportamento da criança é preciso elogiá-la por si mesma enquanto pessoa, dizer o quanto é amada independentemente do seu comportamento. Isto, pois, conforme afirma Guilhardi (2002), se os elogios foram fornecidos apenas mediante a emissão de um comportamento adequado, a criança pode ficar com a sensação de que só merece atenção, carinho e amor, ao comportar-se bem.

E não é isto que queremos, pelo contrário, é preciso mostrar às crianças com dificuldades de aprendizagem que elas são amadas apesar do seu comportamento. Assim, dizer que estava com saudades desta criança quando ela comparece às aulas após o final de semana é uma boa forma de o professor mostrar carinho para com ela, independentemente da maneira como se comporta.

Como vocês viram, então, o elogio é a chave para uma boa auto-estima e longe de “estragar a criança” como se diz na linguagem popular, ou torná-la dependente destes elogios para se comportar, esta forma de interagir com ela só acarreta benefícios, pois reconhecendo através do outro que é capaz e competente, ela mesma pode se sentir desta maneira, tornandose independente e bem-sucedida em seu futuro.

Entretanto, não é assim, infelizmente, que muitos professores agem com seus alunos. Muito pelo contrário, às vezes, pela impaciência, dificuldade ou falta de preparo para lidar com esta população em sala de aula, o professor acaba colocando seu aluno em situações vexatórias em sala de aula, que culminam nas piadas e no sarro por parte dos outros alunos. Contudo, espera-se, com este pequeno texto, contribuir no sentido de uma atuação mais consciente do professor em sala de aula, com vistas, principalmente, a melhorar a auto-estima e a relação de nossos alunos com o estudo.

CAMPOS. Shirley de. Dificuldades na aprendizagem.15 jun. 2003. Disponível em: <http://w.drashirleydecampos.com.br/noticias/1773>. Acesso em: 06 mar. 2010.

GUILHARDI, Hélio José. Auto-estima, autoconfiança e responsabilidade. In: BRANDÃO, Maria Zilah da Silva; CONTE, Fatima Cristina de Souza; MEZZAROBA, Solange Maria B. (Org.). Comportamento humano: tudo (ou quase tudo) que você precisa saber para viver melhor. Santo André, SP: ESETec Editores Associados, 2002. p. 68-75.

SOUZA, Maria do Rosário Silva. Auto estima. Disponível em: <http://w.saudevidaonline.com.br/artigo57.htm>. Acesso em: 06 mar. 2010.

STEVANATO, Indira Siqueira et al. Autoconceito de crianças com dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 1, p. 67-76, jan./jun. 2003.

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