Avaliação da qualidade de sabão produzido a partir da reciclagem de óleo comestível

Avaliação da qualidade de sabão produzido a partir da reciclagem de óleo comestível

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Taffarel M. ROCHA (1); Hanna M. G. SILVA (2) (1) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão - CAMPUS Buriticupu. Rua Dep. Gastão Vieira nº 10, Vila Mansuêto. CEP: 65393-0, Buritcupu-MA. e-mail: taffarelmorais@ifma.edu.br; (2) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão - CAMPUS Zé Doca. Rua da Tecnologia, Bairro Amorim. CEP: 65365-0, Zé Doca - MA. e-mail: hannamgs@yahoo.com.br.

Pensar em reciclagem hoje em dia é pensar no nosso futuro e nas consequências que o aumento exagerado da população mundial e, por conseguinte o aumento também desenfreado do consumo, por essas traz a tona à necessidade de se pesquisar e propor soluções viáveis para o gerenciamento dos resíduos que as atividades humanas produzirão. A utilização de óleo comestível é uma prática extremamente comum no cotidiano das pessoas, o descarte sem precedentes desse óleo também é muito comum. Pensando nisso, iniciou-se no Laboratório de química do IFMA - Campus Buriticupu um projeto de produção de sabão artesanal a partir do óleo comestível residual de frituras utilizado nas residências e alguns estabelecimentos comerciais nas proximidades do Campus, a fim de minimizar o impacto, do descarte do óleo comestível, no meio ambiente e também na saúde humana. Para a fabricação do sabão foi utilizado uma receita que pode ser reproduzida em qualquer residência. O seguinte trabalho tem por objetivo atestar a qualidade desse sabão produzido observando-se algumas características essências em produtos de limpeza. Tais como o volume de espuma formado, o tempo de duração dessa espuma, o pH e o potencial de interação com as sujidades. Através de uma reação de bicarbonato de sódio e vinagre é possível constatar-se como os sabões e detergentes produzem espuma e o volume gerado por eles. A possibilidade de que o reaproveitamento dos óleos seja feito pela sociedade em geral, acaba por tornar esse projeto com uma visão não apenas de educação escolar ou ambiental, mas com um aspecto social e até mesmo econômico.

Palavras-chave: sabões, reações químicas, preservação ambiental.

1 INTRODUÇÃO

Toda atividade realizada por nós gera resíduos. Essa geração é inevitável e tende a durar por muitos e muitos anos. O descarte incorreto desses rejeitos, sejam eles industriais ou domésticos, inviabiliza sua reutilização, e reciclagem, ainda contribui para a degradação dos espaços onde são depositados. Com o crescimento descontrolado das cidades e da população mundial, a tendência que o consumo humano vá de encontro a essa evolução.

Para que possamos amenizar tal desastre, é essencial que se pense em soluções que transforme esse “lixo”, em insumos para a produção de novos produtos e/ou que venha a minimizar os impactos ambientais ocasionados pelo mau gerenciamento desses resíduos.

Diante do problema de descarte de materiais utilizados diariamente pelos cidadãos, iniciou-se no Laboratório de química do IFMA - Campus Buriticupu um projeto de produção de sabão artesanal a partir do óleo comestível residual de frituras utilizado nas residências e alguns estabelecimentos comerciais nas proximidades do Campus (GONÇALVES, 2010).

Com a finalidade de minimizar o impacto do descarte de óleo comestível usado no meio ambiente e na saúde humana e também, de fato economizar, uma vez que a receita do sabão caseiro é de baixíssimo custo e a matéria-prima é proveniente de doações.

O óleo de fritura quando descartado de maneira incorreta, causa danos ao meio ambiente e torna difícil o tratamento da água, já que um litro de óleo é capaz de poluir um milhão de litros de água. Como o óleo é menos denso do que a água, ele fica na superfície criando uma barreira que dificulta a entrada de luz e a oxigenação da água, comprometendo a vida dos seres aquáticos. O óleo de fritura quando jogado na rede de esgoto provoca entupimento da tubulação, mau cheiro e a proliferação de baratas que se alimentam deste rejeito. Quando lançado ao solo, a consequência é o desequilíbrio ecológico, afetando lençóis freáticos e mananciais de abastecimento de água potável. Quando descartado em aterros sanitários, o óleo produz a contaminação do solo (ALAMINI & BARBADO, 2008).

Este trabalho tem por objetivo testar a qualidade desse sabão produzido a partir do volume de espuma formado, o tempo de duração que a espuma leva para sumir, o pH, a degradação no meio ambiente e o comportamento do produto quanto à limpeza dos materiais do laboratório.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

2.1 - Para a obtenção do sabão foi utilizada uma receita que pode ser reproduzida tanto no laboratório como em residências. Esse projeto foi elaborado no laboratório de química do IFMA Campus Buriticupu. Para a realização do mesmo foram utilizados os seguintes materiais:

1,0L de óleo comestível usado; ½L de água;

250g de NaOH (soda cáustica);

5 ml de essência (opcional);

Anilina (opcional).

A partir dos materiais citados foi possível obter-se um produto que além de ser sustentável não agride tanto o meio ambiente como o óleo de cozinha usado (GONÇALVES, 2010).

O sabão é obtido a partir da seguinte reação:

Fig. 01: Mecanismo da Reação de saponificação

Uma vez que os óleos e gordura são ésteres eles sofrem reação de hidrólise básica ou ácida. A hidrólise ácida produz glicerol e ácidos graxos constituintes, já a hidrólise básica produzirá o glicerol e os sais de ácidos graxos, esses sais são o que chamamos de sabão, e esta reação é chamada de reação de saponificação (AZEVEDO, 2009). 2.2 - Para a observação da quantidade de espuma formada pelo sabão em contato com água e sujeita a agitação, foi utilizado um procedimento experimental bem simples. Com os materiais a seguir:

Balança;

Copos de vidro;

Proveta de 100 mL;

Bastão de vidro;

Vinagre ou uma solução de ácido acético a 4%%;

Solução de bicarbonato de sódio (5 g dissolvidos em 100 mL de água);

Amostras de sabão (aproximadamente 1 g de cada);

Cronômetro.

2.3 - Parte Experimental 2.3.1 - Efeito do agente emulsificante

Foi adicionada à proveta 10 mL de água e 10 mL de vinagre e agitado um pouco a proveta. Adicionou-se de uma vez, 10 mL da solução de bicarbonato de sódio. Observando-se a formação da espuma, verificando o tempo de duração e até que altura na proveta a espuma atinge.

2.3.2 - Observação do comportamento do sabão

Foram preparadas soluções das amostras de sabões, dissolvendo 0,5 g do sabão em 10 mL de água. Foram dissolvidos os sabões lentamente, com a ajuda de um bastão de vidro. Terminada a dissolução, esperou-se que toda a espuma inicial tivesse sido desfeita. A seguir, foram adicionados 10 mL de água e 10 mL de vinagre à proveta. Transferiu-se a solução de sabão para a proveta e agitou-se lentamente. Nessa etapa, é provável que haja alguma formação de espuma, já que a água utilizada possui gases dissolvidos e, além disso, com uma agitação rápida dissolvem-se mais gases (do ar) na água. Deixou-se em repouso até que não houvesse mais bolhas. Adicionou-se 10 mL da solução de bicarbonato rapidamente (de uma só vez), seguido de uma leve agitação para a observação da formação da espuma. Anotando o volume e seu tempo de duração.

Ainda foram coletados dados sobre o pH desse sabão, e utilizou-se também o mesmo para a limpeza de materiais pertencentes ao laboratório.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

O sabão que foi obtido possui um odor forte muito característico, isso se dá devido à utilização de óleo já previamente usado e pouca utilização de essência e anilina para a mudança desta propriedade. O mesmo também possui uma boa degradação no meio ambiente não ultrapassando mais que um dia para se decompor, tempo suficiente para sua degradação, assim, caso descartado em esgoto não trará tantos problemas para a natureza quanto o óleo residual.

O experimento utilizado para a determinação da quantidade de espuma formado pelo sabão é uma reação muito utilizada em laboratório, onde é feito reagir Bicarbonato de Sódio e Ácido acético (presente no vinagre). Vide a reação a seguir.

CH3COOH + NaHCO3 –> CH3COONa + CO2 + H2O

Essa reação acontece de forma espontânea e dura apenas alguns poucos segundo, em torno de 15 a 20 segundos para as quantidades utilizadas de reagentes. Para 10 ml de bicarbonato e a mesma quantidade de vinagre, as bolhas geradas correspondem a mais ou menos 30 a 40 ml de volume. Quando houve a adição da solução do sabão ao vinagre, este fez com que a produção de gás carbônico pela reação de bicarbonato e vinagre acontecesse de forma mais branda e a espuma que agora iria se formar foi à espuma proveniente do sabão.

Após a adição da solução (0,5 g para 10 ml de água), a reação tinha a duração em média de 10 s com o maior teor de espuma, chegando a 10 ml e persistia com um volume menor de espuma abaixo dos 3 ml por até 50 segundos, em média. Isso se dava por que o agente emulsificante da espuma era água, e este faz com que essa espuma tenha uma curta duração, o que significa menor tempo de degradação no meio ambiente, portanto, muito menos poluente que o óleo já utilizado.

Também foram feitas outro dois testes com o sabão produzido. Primeiramente foi verificado o pH, com o auxilio do papel indicador e uma solução de fenolftaleína a 5% (indicador que em meio básico possui coloração rósea e em meio ácido se torna incolor). O papel de pH adquiriu uma coloração azulada que nos mostrou um valor entre 10 e 1, significando um caráter muito básico. A solução de fenolftaleína também demonstrava esse caráter, já que a solução de incolor passou a um tom de cor-de-rosa bem vivo, o que também comprova esse caráter. Valor este que esta dentro do limite estabelecido pela legislação brasileira (BARBOSA, 1995).

Finalmente utilizou-se o sabão como material de limpeza de algumas vidrarias e materiais do próprio laboratório, a fim de testar o seu comportamento quanto ao aspecto de detergência. Os utilizadores do laboratório citaram como ponto positivo desse sabão, a boa interação com as sujidades e a boa quantidade de espuma que é gerada. Como ponto negativo apontou o odor muito forte e característico resultado do uso de óleo reciclado, essa propriedade pode ser alterada com o uso de corantes e essências para melhorar seu aspecto visual e aromático.

4 CONCLUSÃO

Como foi observado durante nossos experimentos encontramos diversos aspectos que constataram a viabilidade do uso de sabões produzidos a partir de óleo comestível residual. Mas vale ressaltar três em especiais. As vertentes sociais, econômicas e ambientais. Sendo que a social se dá pelo fato de que em qualquer comunidade, bairro ou residência poder utilizar a receita desse sabão para reaproveitar o óleo, que é apenas descartado na natureza de forma a degradar o meio. O aspecto econômico, uma vez que foi utilizado matéria – prima já usada e para fabricar esse produto os gasto são mínimos. E a vertente ambiental que por sua vez é a pauta determinante para a transformação desse óleo em sabão, porque como já foi citado o óleo despejado sem nenhum tratamento no solo, recursos hídricos, esgotos e até mesmo em aterros sanitários, traz danos quase que irreparáveis ao meio ambiente.

Diante do exposto vimos que para a mudança da situação de degradação atual é primeiramente necessária a mudança de comportamento essa que deve ser atitude de todos. Mais do que nunca percebemos a preocupação com o futuro do planeta e precisamos agir logo, por em prática os três “R”. Reduzir, Reaproveitar e Reciclar.

ALBERECI, Rosana Maria; PONTES, Flávia Fernandes Ferraz de. Reciclagem de óleo comestível usado através da fabricação de sabão. Espírito Santo do Pinhal: Engenharia Ambiental - Centro Regional Universitário de Espírito Santo do Pinhal v.1, n.1, p.073-076, jan./dez., 2004.

GONÇALVES, P. B, et al. Uso de óleo comestível residual para fabricação de sabão no município de Buriticupu. In: Semana do Meio Ambiente, 2, São Luis, 2010. São Luis: IFMA, 2010

Azevedo, O. A. Fabricação de sabão a partir do óleo comestível residual: conscientização e educação científica. Disponível em: http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/snef/xviii/sys/resumos/T0805-1.pdf. Acesso em: 29 de Jun. 2010.

BITTENCOURT, A. M. B. F. Avaliação da qualidade de detergentes a partir do volume de espuma formado. Disponível em: http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc09/exper2.pdf. Acesso em: 30 de Jun. 2010.

VERANI, C. N. et al. Sabões e Detergentes. Disponível em: http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc12/v12a04.pdf. Acesso em: 30 de jun. 2010.

NETO, O. G. Z; PINO, J. C. D. Trabalhando a química dos sabões e detergentes. Disponível em: http://www.iq.ufrgs.br/aeq/html/publicacoes/matdid/livros/pdf/sabao. Acesso em: 30 de Jun. 2010.

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