Trilogia Ciclo da Herança - 1- Eragon

Trilogia Ciclo da Herança - 1- Eragon

(Parte 1 de 14)

Este livro é dedicado à minha mãe, por me mostrar a magia no mundo; a meu pai, por ter revelado uma nova maneira de ver a vida. E também à minha irmã, Ângela, por me ajudar quando estou triste.

O vento uivava na noite, carregando um aroma que mudaria o mundo. Um Espectro alto ergueu a cabeça e cheirou o ar. Ele parecia humano, exceto pelo cabelo carmesim e olhos castanho-avermelhados.

Surpreso, piscou os olhos. A mensagem estava correta: eles estavam aqui. Ou seria uma armadilha?

Ele ponderou e, depois, disse friamente:

aproximarOu morrerão.

- Espalhem-se. Escondam-se atrás das árvores e dos arbustos. Detenham qualquer criatura que se

À sua volta doze Urgals moviam-se desordenadamente, empunhando espadas curtas e escudos de ferro redondos com símbolos pretos. Pareciam homens de pernas curvadas e de braços grossos e brutos, feitos para destruir. Um par de chifres retorcidos brotava acima de suas pequenas orelhas. Os monstros foram correndo em direção aos arbustos, grunhindo enquanto se escondiam. Logo, o barulho de folhas sendo agitadas parou, e a floresta ficou silenciosa de novo.

O Espectro olhou em volta de uma grande árvore e, depois, para a trilha. Estava escuro demais para que qualquer humano pudesse enxergar, mas para ele o fraco luar parecia a luz do sol descendo por entre as árvores. Cada detalhe mostrava-se nítido e exato para o seu olhar inquiridor. Permaneceu estranhamente em silêncio, segurando uma longa espada fosca. A arma era fina o bastante para penetrar entre duas costelas, porém era suficientemente forte para atravessar a armadura mais resistente.

Os Urgals não podiam enxergar tão bem quanto o Espectro; tateavam como mendigos cegos, manuseando suas armas atabalhoadamente. Uma coruja piou, rasgando o silêncio. Ninguém relaxou até o pássaro voar dali. Os monstros tremiam na noite fria. Um deles quebrou um graveto com a sua bota pesada. O Espectro sibilou furioso, e os Urgals se encolheram imóveis. O Espectro conteve sua repulsa - os monstros fediam à carne podre - e se virou. Eles eram meros instrumentos, nada mais.

O Espectro pôs sua paciência à prova quando os minutos se tornaram horas. O aroma se propagava muito à frente dos que o exalavam. Ele não deixou que os Urgals se levantassem ou se esquentassem. Também negava esses luxos a si mesmo, permanecendo atrás de uma árvore, observando a trilha. Outra rajada de vento cortou a floresta. O cheiro estava mais forte dessa vez. Excitado, ergueu o lábio fino, mostrando os dentes.

- Preparem-se - sussurrou. Seu corpo todo tremia. A ponta de sua espada se movia em pequenos círculos. Foram necessários muitos planos e muito sacrifício para colocá-lo ali, naquele momento. Não podia perder o controle agora.

Os olhos dos Urgals brilhavam abaixo das grossas sobrancelhas, e as criaturas seguravam suas armas com mais força. À sua frente, o Espectro ouviu um tinido, como se algo tivesse batido com força em uma pedra solta. Vultos indistintos emergiram da escuridão e avançaram pela trilha.

Três cavalos brancos e seus cavaleiros galopavam em direção à emboscada. Eles estavam de cabeça erguida, orgulhosos, suas mantas ondulavam sob o luar, parecendo prata líquida.

No primeiro cavalo ia um elfo de orelhas pontudas e de sobrancelhas elegantes e oblíquas. Tinha o corpo esguio, porém forte, como um florete. Um poderoso arco pendia em suas costas. Uma espada pressionava a lateral de seu corpo e estava oposta a uma aljava cheia de flechas guarnecidas com penas de cisnes.

O último cavaleiro tinha o rosto igualmente belo e feições angulosas parecidas com as do outro.

Transportava uma longa lança na mão direita e um punhal branco na cinta. Um elmo extraordinariamente trabalhado, forjado com âmbar e ouro, repousava em sua cabeça.

Entre eles dois cavalgava uma elfa, que, com perfeito equilíbrio, observava o entorno. Enquadrados por tranças longas e negras, seus olhos profundos brilhavam com uma força instigante. Suas roupas não tinham adornos, entretanto, isso não diminuía sua beleza. Na sua lateral pendia uma espada e, nas costas, um arco e uma aljava. Levava no colo uma bolsa para a qual olhava freqüentemente, como se precisasse se certificar de que ainda estava lá.

Um dos elfos sussurrou algo, mas o Espectro não conseguiu ouvir. A dama respondeu com uma autoridade óbvia, e os guardas trocaram de lugar. O que estava com o capacete tomou a frente, passando a empunhar a lança em prontidão. Passaram pelo esconderijo do Espectro e pelos primeiros Urgals sem suspeitarem de nada.

O Espectro já estava saboreando a vitória quando o vento mudou de direção, soprando para cima dos elfos o ar pesado do fedor dos Urgals. Os cavalos bufaram alarmados e sacudiram suas cabeças. Os cavaleiros ficaram alertas, seus olhos perscrutando a área de um lado a outro. Então repentinamente mudaram de direção e saíram galopando.

O cavalo da dama disparou na frente, deixando os guardas bem atrás. Abandonando seus esconderijos, os Urgals levantaram-se e dispararam uma chuva de flechas negras. O Espectro saltou de trás de uma árvore, ergueu a mão direita e gritou:

- Garjzla! Um raio vermelho saiu da palma de sua mão rumo à dama, iluminando as árvores com uma luz sangrenta. O raio atingiu o corcel da elfa. O cavalo tombou, com um guincho estridente, caindo de peito no chão. Ela pulou de cima do animal com uma velocidade sobre-humana, aterrissou suavemente e olhou para trás, para os guardas.

As flechas mortíferas dos Urgals abateram rapidamente os dois elfos. Eles caíram dos seus cavalos nobres, e poças de sangue se formaram na terra. Como os Urgals corriam para trucidar os elfos, o Espectro gritou:

- Atrás dela! É ela que eu quero! Os monstros grunhiram e saíram correndo pela trilha. Um grito escapou dos lábios da elfa quando viu os companheiros mortos. Deu um passo em direção a eles, amaldiçoou os inimigos e se embrenhou na floresta.

Enquanto os Urgals abriam caminho em meio às árvores, o Espectro subiu em uma pedra de granito que se projetava acima deles. De seu poleiro, podia ver toda a floresta circundante. Ele ergueu a mão e gritou:

- Böetq istalri! E uma área de quatrocentos metros da floresta explodiu, ardendo em chamas. De modo assustador, incendiou trechos após trechos de mata até formar um anel de fogo, em um raio de mais de dois quilômetros em volta do local da emboscada. As chamas pareciam uma coroa derretida repousando sobre a floresta. Satisfeito, examinou o anel de fogo com cautela para evitar falhas.

O círculo de fogo aumentou, diminuindo a área que os Urgals tinham de vasculhar. De repente, o

Espectro ouviu berros e um grito de guerra. Pelas árvores, viu três dos seus soldados caírem em fila, feridos mortalmente. Ainda conseguiu ver de relance a elfa correndo para longe dos Urgals remanescentes.

Ela fugiu rumo à grande pedra de granito a uma velocidade tremenda. O Espectro examinou o solo seis metros abaixo e pulou, aterrissando agilmente na frente da elfa, que mudou de direção rapidamente e voltou correndo para a trilha. O sangue preto dos Urgals pingava de sua espada, manchando a bolsa que levava na mão.

Os monstros chifrudos saíram da floresta e circundaram-na, bloqueando todas as passagens existentes. Ela virou a cabeça rapidamente, tentando achar um modo de fugir dali. Como não viu nenhuma saída, levantou-se com um desdém régio. O Espectro aproximou-se de mão erguida, deliciando-se com a impotência dela.

- Peguem-na. Quando os Urgals correram em sua direção, a elfa abriu a bolsa, pôs a mão lá dentro e depois a deixou cair no chão. Nas mãos, ela segurava uma grande pedra de safira que refletia a luz furiosa do fogo; suspendeu-a acima da cabeça, e seus lábios pronunciaram palavras em um ritmo frenético. Desesperado, o Espectro berrou:

- Garjzla! Uma bola vermelha de fogo, veloz como uma flecha, saiu da mão do Espectro e voou em direção à elfa. Mas não foi rápida o bastante. O brilho de uma luz esmeralda iluminou a floresta de repente, e a pedra desapareceu. Depois, o fogo vermelho atingiu a elfa, e ela desmaiou.

O Espectro urrou de raiva e andou para a frente, lançando sua espada contra uma árvore. A arma penetrou até a metade do caule, onde parou vibrando. Disparou nove raios de energia da palma da mão, matando os Urgals instantaneamente. Arrancou a espada com violência e caminhou com passadas largas até a elfa.

Profecias de vingança, faladas em um idioma maldito, apenas conhecido pelo Espectro, saíram de sua boca. Fechou com força suas mãos finas e olhou para o céu. As estrelas frias olhavam-no sem piscar, como observadoras de um outro mundo. O desgosto contorceu-lhe os lábios enquanto se voltava para a elfa inconsciente.

A beleza dela, que teria encantado qualquer homem mortal, não tinha nenhuma graça para o

Espectro. Confirmou o sumiço da pedra e pegou seu cavalo escondido entre as árvores. Depois de amarrar a elfa à sela, montou no animal e seguiu em direção à saída da floresta. Extinguiu o fogo em seu caminho, mas deixou todo o resto ardendo.

Eragon ajoelhou-se no tapete de grama pisado e examinou atentamente as pegadas com seu olhar experiente. As marcas disseram-lhe que o cervo esteve naquela campina há apenas meia hora. Logo, todos iriam dormir. Seu alvo, uma pequena corça que mancava da pata esquerda dianteira, ainda estava com o rebanho. Ele estava surpreso por ela ter conseguido ir tão longe sem que um lobo ou urso a tivesse capturado.

O céu estava limpo e escuro, e uma brisa suave agitava o ar. Uma nuvem prateada pairava sobre as montanhas que o cercavam, cujos cumes resplandeciam com a luz avermelhada da lua da época da colheita, aninhada entre dois picos. Riachos corriam montanha abaixo, brotando das frias geleiras e das brilhantes camadas de neve. Uma névoa pesada arrastava-se acima do solo do vale, quase espessa o bastante para ocultar os seus pés.

Eragon tinha quinze anos, faltava menos de um ano para a idade adulta. Sobrancelhas escuras repousavam acima dos seus vivos olhos castanhos. Suas roupas eram surradas por causa do trabalho. Uma faca de caça, com o cabo feito de osso, estava presa à cinta. E um tubo de pele de veado protegia da neblina o arco feito de teixo. Carregava também uma saca com estrutura de madeira.

A corça levou-o até os recônditos da Espinha, uma cadeia de montanhas indomadas que se estendia do começo ao fim das terras da Alagaésia. Freqüentemente histórias estranhas e homens surgiam dessas montanhas trazendo maus agouros e doenças. Apesar disso, Eragon não temia a Espinha, ele era o único caçador perto de Carvahall que ousava caçar em seus recantos mais íngremes.

Era a terceira noite da caçada e metade de sua ração já havia sido consumida. Se não abatesse a corça, seria forçado a voltar para casa de mãos vazias. Sua família precisava da carne para o inverno que se aproximava rapidamente. Eles não tinham condições financeiras para comprá-la no Carvahall.

Eragon estava em pé, confiante, sob o luar enevoado. Logo, entrou na floresta em direção a um vale estreito e profundo, onde tinha certeza de que o animal estaria. As árvores bloqueavam a visão do céu e produziam sombras diáfanas no chão. Só olhava para as pegadas ocasionalmente, pois conhecia o caminho.

No vale estreito, esticou o arco com segurança, sacou três flechas, pondo uma na arma e segurando as outras com a mão esquerda. O luar revelou uns vinte pequenos montes imóveis. Eram os cervos deitados na grama. A corça que ele queria estava na ponta do rebanho, com a pata dianteira esquerda esticada de uma maneira peculiar.

últimos três dias levou-o a este momento. Respirou fundo pela última vez, eUma explosão quebrou o

Eragon aproximou-se sorrateiramente, mantendo o arco em prontidão. Todo o trabalho que teve nos silêncio da noite.

O rebanho disparou. Eragon pulou para a frente, saiu correndo pela grama enquanto o vento queimava seu rosto. Parou de repente e lançou uma flecha em direção ao animal que saltava. Errou por um triz, e a flecha se perdeu na escuridão. Praguejou e virou-se, preparando instintivamente outra flecha.

Atrás dele, onde os cervos haviam estado, ardia sem chama um grande círculo de árvores e grama.

Muitos dos pinheiros estavam desprovidos de seus galhos. A grama do lado de fora do círculo estava amassada. Uma coluna de fumaça subia, enroscando-se pelo ar e propagando um cheiro de queimado. No centro do lugar onde aconteceu a explosão, repousava uma pedra azul polida. A névoa serpenteava pela área incendiada e envolvia a pedra.

Eragon esperou para ver se não havia perigo durante longos minutos, mas a única coisa que se movia era a névoa. Cautelosamente, afrouxou a tensão do arco e avançou. O luar produziu uma pálida sombra sobre ele quando parou em frente à pedra. Tocou-lhe com uma flecha e saltou para trás. Como nada aconteceu, pegou a pedra com muito cuidado.

A natureza jamais havia polido uma pedra como aquela. Na superfície não havia uma falha sequer, era azul-escura, exceto pelas finas veias brancas que se espalhavam sobre ela como uma teia de aranha. A pedra era fria e não produzia atrito quando tocada, como seda endurecida. Era oval e tinha uns trinta centímetros de comprimento. Pesava alguns quilos, embora parecesse mais leve do que deveria.

Eragon achou a pedra tão bela quanto assustadora. De onde ela veio? Para que serviria? Pensou.

Depois, um pensamento mais perturbador surgiu em sua mente: Será que ela veio parar aqui por acidente ou estarei destinado a possuí-la? Se ele tinha aprendido algo com as antigas histórias, era tratar com muito cuidado a magia e aqueles que a usavam.

Mas o que farei com a pedra? Seria cansativo carregá-la e havia a chance de ser perigoso. Talvez fosse melhor deixá-la para trás. Um tremor de indecisão percorreu-o, e ele quase a deixou cair, mas algo acalmou sua mão. Pelo menos, poderei comprar um pouco de comida com ela, decidiu ele, dando de ombros e enfiando a pedra em sua saca.

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