Análise dos efeitos da desnutrição proteico-calórica sobre as respostas ao, exercicio agudo (single section) parâmetros metabólicos·

Análise dos efeitos da desnutrição proteico-calórica sobre as respostas ao,...

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Cassiano Merussi Neiva2 Marcelo Renato Guerino2 Maria Alice Roston de Mello3

RESUMO A intenção deste estudo foi apresentar resultados da aplicação de uma dieta hipoprotéica, potencialmente geradora de desnutrição, em um modelo animal e suas interferências sobre os níveis séricos de glicose, agi, albumina e proteínas totais, níveis hepáticos e musculares de glicogênio. bem como crescimento e ganho de peso. O estudo em um segundo momento, relaciona ainda as alterações fisiológicas e metabólicas ocorridas frente ao exercício, submetendo animais desnutridos e não desnutridos ao exercício agudo. UNITERMOS- Exercício, Desnutrição.

1. 1. NUTRIÇÃO, DESNUTRIÇÃO E ASPECTOS FISIOLÓGICOS DO DESENVOLVIMENTO

Muitos conceitos e respostas foram descritas neste século sobre o papel dos nutrientes presentes na dieta do homem e suas relações com as fases pré natais, pós natais, no crescimento e desenvolvimento do indivíduo.

Temas relacionando a dieta com processos patológicos têm sido muito estudados nos últimos anos. Enfermidades ligadas à desnutrição, como avitaminoses e desnutrição proteico-calórica, são temas bastante comuns

I _ Apoio financeiro CNPQ e FAPESP

2 _ Pós- Graduandos do Laboratório de Biodinâmica do Depto de Educação Física -IB-UNESP- Rio C/aro

3 _ Profa. Dra. do Depto. de Educação Física – IB/UNESP Rio Claro enfocados pela maioria dos pesquisadores ligados a essa área. Alterações metabólicas e comportamentais mostramse amplamente descritas e discutidas na literatura.

Os casos de desnutrição tomaram-se bastante comuns em nossa sociedade, e por isso, métodos mais simples e eficientes têm aparecido no sentido de solucionar tais ocorrências. Segundo GOBATTO (1993), alterações drásticas na dieta, ocasionando baixa ingestão calórica ou de baixo valor biológico nos primeiros anos de vida, proporcionarão alterações desenvolvimentais para o indivíduo desnutrido.

entre outros, relatam de maneira ampla os mecanismos e alterações metabólicas ocorridas em função da desnutrição e suas implicações sobre as diversas situações comportamentais do homem. Estes estudos mostram a interferência dos hábitos alimentares, sobre parâmetros fisiológicos do homem como por exemplo a carência de proteínas séricas, alterações do níveis séricos de gordura e açúcares assim como distúrbios nas atividades homeostáticas como neoglicogênese hepática, transporte e captação de 02 além de alterações nos processos de

Sem dúvida a nutrição encontra um grande espaço entre as pesquisas e isso deve-se ao fato da vital importância do alimento para todos os seres vivos.

1. 1. 1. PAPEL FISIOLÓGICO DAS PROTEÍNAS

As proteínas exercem papel de grande importância no ciclo vital do homem. Sua necessidade é clara e bem apresentada na literatura. Suas funções estão ligadas a um grande número (quase que a totalidade) de reações homeostáticas. Podemos citar as seguintes funções da proteína: plástica; formação de enzimas: formação de anticorpos; formação de hormônios; equilíbrio ácido-básico; distribuição de líquidos no organismo; transporte de substâncias; transporte de oxigênio; coagulação do sangue; atividade muscular e em menor valor como substrato energético.

Todos esses fatores mostram como esses "pools" de aminoácidos são importantes para o desenvolvimento e manutenção do organismo. Seu papel é amplamente estudado na literatura e sua importância é inquestionável, não cabendo aqui demais atributos a seu respeito. Como última observação, cabe chamar a atenção, que a carência deste nutriente implicará nas mais variadas disfunções orgânicas.

1. 2. NUTRIÇÃO E EXERCÍCIO FÍSICO

Os hábitos alimentares também exercem grande papel nas condições fisiológicas e psíquicas do atleta. Nos últimos anos muita importância tem sido dada a modelos dietéticos a serem empregados por atletas na busca de melhores rendimentos. Este fato é um reflexo claro do nível de competitividade e da importância dada à competição desportiva na atualidade.

O esporte moderno de caráter competitivo é um grande mercado financeiro para investidores e patrocinadores e isto tem levado a uma enorme aceleração na busca e produção de conhecimentos que aprimorem cada vez mais a sua prática. A nutrição, sem dúvida alguma é um dos principais temas.

A dieta balanceada tem sido apontada como fator primordial no desempenho do atleta assim como fator de aceleração na recuperação de lesões ocorridas por ocasião da prática desportiva. (AMERICAN DIETETIC ASSOCIATION, 1987). A maioria dos autores parece convergir na teoria da grande importância de uma dieta rica e balanceada para atletas de alto nível.

Contudo, a mesma convergência parece não estar ainda bem definida sobre a suplementação alimentar e desempenho físico. Alguns autores como DONLY & LEMON (1986), em trabalho com humanos, reportam não haver um padrão de suplementação de proteínas na dieta de indivíduos submetidos ao treinamento físico, porém consideram a importância da suplementação de proteínas na dieta do atleta, dependendo da variação, do tipo e frequência do treinamento empregado.

Por outro lado, CATHCART (1925), reporta o grande papel da atividade muscular no metabolismo das proteínas, apontando dessa forma para a importância de uma suplementação padrão de proteínas para atletas e indivíduos ativos, independente da intensidade desta atividade, considerando também o catabolismo protéico do período de recuperação.

Outros estudos como CONSOLAZIO et al. (1975), apontam a dieta balanceada como suficiente para o provimento das necessidades protéicas do atleta jovem, sendo que em casos de competições extenuantes como por

exemplo o decatleta, a supermaratona e outras do gênero, uma pequena suplementação de proteínas e sais, mostra-se responsável pela manutenção do balanço nitrogenado. CONSOLAZIO (1975), vai ainda mais longe apontando uma pequena necessidade de suplementação protéica apenas para indivíduos idosos ativos.

Embora muitos estudos ainda se confrontem nesse aspecto, a suplementação alimentar mostra-se amplamente estudada o que reflete o interesse dos pesquisadores da área da atividade física e áreas afins em torno das influências dos hábitos dietéticos sobre o rendimento e a performance física.

1. 3. DESNUTRIÇÃO PROTÉICO-CALÓRICO E ATIVIDADE FÍSICA

Os reflexos da desnutrição nas primeiros fases da vida, incluindo o período pré natal, têm sido foco de estudo de pesquisadores de todo o mundo, interessados em quantificar e qualificar o desempenho de populações desnutridas submetidas ao esforço físico. Contudo a quantidade de dados encontrados na literatura não refletem a importância do assunto. Principalmente em países de terceiro mundo, a desnutrição protéico-calórica cresce anualmente em crianças, filhas de mães desnutridas e também em adultos.

A maioria dos estudos apresentados nessa área são de caráter experimental, em modelo animal. onde os parâmetros observados são geralmente: ganho ponderal, evolução de ingestão alimentar e crescimento corporal entre grupos de animais sedentários e exercitados, nutridos e desnutridos e também níveis de glicogênio muscular e hepático, glicose sérica, ácidos graxos livres. albuminas e proteínas totais entre os mesmos grupos. (GOBATTO et al., 1991; GOBATTO, 1993).

A utilização de modelos animais em gestação mostra-se também como um fator importante a ser investigado

CORREA (1994), alerta para uma falta de dados em torno deste assunto ao estudar os efeitos da desnutrição protéico-calórica em gestantes, sobre as respostas metabólicas ao exercício agudo em ratas. Nesse trabalho os pesquisadores apontam para um comprometimento da utilização de glicogênio muscular para ratas grávidas desnutridas submetidas ao exercício agudo (single section).

GOBA TTO (1993), verificando as alterações metabólicas decorrentes no treinamento físico em ratos. previamente desnutridos e recuperados, aponta na primeira fase do estudo. (animais desnutridos e nutridos, sedentários) um menor ganho de peso entre os ratos do grupo desnutridos em comparação com o grupo controle, uma maior ingestão relativa ao peso entre os desnutridos em comparação com os controle e ainda uma menor eficiência alimentar entre os desnutridos em comparação com aquela encontrada no grupo controle. Ainda nesta fase, o autor também reporta diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de albumina e proteína totais encontrando maiores valores para o grupo controle. Na ultima fase do estudo (animais controles e recuperados, submetidos ao treinamento físico), o autor não encontrou diferenças significativas entre os parâmetros estudados.

BELDA & ZUCAS (1983) em modelo animal com ratos wistar recém desmamados, submetidos à desnutrição protéico-calórica e também grupo controle, classificados em treinados e sedentários, (sendo que parte dos desnutridos foram posteriormente recuperados), apontam um aumento na quantidade de lipídeos totais no fígado dos animais do grupo desnutrido (proteína da soja - baixo valor biológico - ad libitum) que não foram

reversíveis com a recuperação dietética, porém foi recuperada com o treinamento físico.

POORTMANS (1984) em estudos com humanos, relata alterações positivas na função renal, em indivíduos previamente sedentários e desnutridos, apresentando quadro de disfunção renal aguda, os quais foram recuperados nutricionalmente com paralelo apoio de um programa de atividade física, sendo que o mesmo não ocorreu com o grupo recuperado que não realizou atividade física.

É sabido ainda que modelos animais, costumam apresentar alterações miocárdicas, quando submetidos a desnutrição calórico protéica crônica. ( MELLO et. al., 1987 e MILLER et al., 1962). Finalizando, GOBATTO et. al. (1991), em estudo experimental com ratos machos desnutridos e treinados submetidos ao teste de cargas progressivas, apontam que os animais desnutridos apresentam menor glicemia e maior glicogênio muscular de repouso. Sobre os teores de glicogênio hepático, os autores apontam para menores valores nos animais desnutridos treinados em relação aos desnutridos sedentários mesmo tendo ambos os grupos apresentado valores maiores em relação ao grupo controle não treinado. Os autores apresentaram ainda, como foco principal do estudo, um aumento da produção de lactato para os animais tratados com dieta hipoprotéica (6%), em comparação com os animais normo-protéicos (25%).

2- OBJETIVOS

Este trabalho teve o objetivo de analisar a efíciência da dieta hipoprotéica (6% proteína) em causar desnutrição e analisar os efeitos da desnutrição protéico-calórica sobre os níveis séricos de ácidos graxos livres, glicose, proteínas totais, albumina, glicogênio muscular e glicogênio hepático, frente ao exercício agudo em ratos machos.

3- MATERIAIS E MÉTODOS 3.1.- ANIMAIS

Foram utilizados 20 ratos machos WIST AR, a partir de 60 dias, os quais foram alimentados com as dietas descritas no item 3.2., por mais 8 semanas completando 116 dias.

Foram empregados dois padrões de dieta semi purificadas para o experimento: dieta normo-proteíca contendo 18% de proteína (caseína de alto valor biológico) e dieta hipoprotéica, contendo 6% de proteína (caseína, sendo a diferença substituída por amido), conforme descrito no quadro 1.

Componentes Concentração (gIKg seco)

Normoproteíca Hipoproteíca (18% de proteína) (6% de proteína)

Caseína*227 ........................ 75
Amido271 ...................... 268
Sacarose150 ...................... 205
DL-Metionina7 ........................... O
Mistura de Sais**40 ........................ 40
Mistura de Vitaminas***10 ........................ 10
Colina Cloridrato4 .......................... 4
Óleo de Milho150 ....................... 150

* Valor corrigido para o teor de proteína contido na caseína ** ( ROGERS & HARPER, 1965)

3.3.- PROTOCOLO DE ATIVIDADE FÍSICA

Ao final do experimento, parte dos animais de cada grupo, foi submetida a uma sessão de exercício agudo. O protocolo foi composto de atividade aeróbica do tipo natação, por um período de I hora, sendo que os animais foram colocados individualmente a cada 2 minutos em tanque com água aquecida a 30° C e ao término foram sacrificados.

3.4. GRUPOS EXPERIMENTAIS

Os animais foram divididos em dois grupos de acordo com a dieta a que foram submetidos. Cada grupo foi composto de 10 animais e foram tratados em gaiolas coletivas, sendo uma para cada grupo. Os grupos foram: G I - Controle, alimentados com dieta;

G 1 - Desnutridos, alimentados com dieta hipoprotéica;

Para a sessão de exercício, que ocorreu no último dia do experimento, os dois grupos foram subdivididos em Exercitados (E) e Repouso (R), antes do sacrifício, contendo cada um, 5 animais.

3.5. ANÁLISES BIOQUÍMICAS

Como já citado, ao final do experimento todos os animais foram sacrificados, sendo este procedimento realizado por decaptação. Após o sacrifício, o sangue dos animais foi coletado em tubos de ensaio e posteriormente submetido a centrifugação para separação do soro. Uma vez separado, o soro foi submetido à análise para determinação dos níveis de glicose, ácidos graxos livres, albumina e proteínas totais, conforme descrito em

3.5.2. FÍGADO E GASTROCNÊMIO

Após o sacrifício, foram coletadas amostras de tecido hepático e do músculo gastrocnêmio fibras mistas, as quais foram digeridas e homogeneizadas em KOH 30%, e levadas em banho-maria por 1 hora. Dando continuidade ao processo o glicogênio foi separado e analisado, conforme procedimento descrito em

3.6. DETERMINAÇÕES DO GANHO DE PESO CORPORAL, INGESTÃO ALIMENTAR E EFICIÊNCIA ALIMENTAR.

3.6.1. GANHO DE PESO CORPORAL

Durante o experimento os animais foram pesados uma vez por semana. Para a determinação do ganho de peso corporal, foi subtraído o peso de cada animal obtido no dia da semana usado para a pesagem do peso registrado na semana anterior.

3.6.2. INGESTÃO ALIMENTAR

A ingestão alimentar dos animais foi obtida pesando-se 2 vezes semanais o alimento contido nos comedouros. Por subtração da quantidade de alimento colocada no dia anterior, obteve-se a quantidade de alimento ingerido pelos animais de cada gaiola. A estimativa de ingestão alimentar por rato foi conseguida

através da divisão do consumo total de cada gaiola pelo número de animais contido nela. A ingestão relativa, ou seja, o consumo em função do peso corporal foi calculada dividindo a quantidade de alimento ingerido por rato, pelo seu peso corporal.

3.6.3. EFICIÊNCIA ALIMENTAR

A eficiência do alimento foi calculada, através da divisão do ganho de peso corporal do animal em gramas, pelo total de alimento ingerido em gramas, no período respectivo. Este resultado portanto, indica o ganho de peso corporal obtido em grama, por grama de alimento ingerido.

3.7. PROCEDIMENTO ESTATÍSTICO

Nas comparações entre apenas 2 (dois) grupos foi empregado o teste t Student para dados não pareados. Em todos os casos foi prefixado o nível de significância estatística para p<O0,05.

4- RESULTADOS

4.1. INGESTÃO ALIMENTAR

Os dados apresentados na tabela I representam as diferenças no ganho de peso, no ganho de comprimento e a quantidade diária (em g) de alimento ingerido por 100g de peso corporal respectivamente. Os ratos desnutridos apresentaram menor ganho de peso e maior ingestão alimentar relativa ao peso corporal do que os controle.

4.2. TEORES SÉRICOS

A tabela 2 mostra os resultados e sinaliza para os grupos que apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre grupos comparados, em relação aos teores séricos de albumina, proteínas totais, glicose e agl. Os níveis séricos de albumina, foram menores nos animais desnutridos do que nos animais do grupo controle e mais elevados nos exercitados que nos do grupo repouso equivalente. As proteínas séricas mostraram-se mais baixas nos desnutridos repouso que nos controle correspondentes e mais altas nos desnutridos exercitados que nos desnutridos repouso.

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