Sebenta de Enfermagem da Criança e do Jovem

Sebenta de Enfermagem da Criança e do Jovem

(Parte 1 de 4)

Filipe Boaventura Moreira n.º 246 & Ricardo Pereira n.º 279 1

Escola Superior de Enfermagem de Lisboa Enfermagem da Criança e do Jovem

Filipe Moreira | Ricardo Pereira 9º CLE ENFERMAGEM DA CRIANÇA E DO JOVEM

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No cuidar de Enfermagem à criança e ao jovem, não nos podemos esquecer que tal como nos adultos e idosos, estas faixas etárias representam um grupo de seres holísticos, com as suas dimensões bio-psico-socio-culturo espiritual. No entanto a maneira como esta população expressa e satisfaz as suas necessidades defere dos adultos e idosos.

Então, no cuidar devemos sempre ter em conta os aspectos do crescimento e desenvolvimento, tendo por base as diversas teorias explicativas existentes: Psicosexuais, psicossociais, cognitivas, aprendizagem e desenvolvimento moral

Teoria Geral dos Sistemas

Sistema: unidade organizada e em desenvolvimento, dinâmica e não estática composta por componentes interdependentes entre si e que existem ao longo do tempo. Um sistema age como um todo, sendo que a disfunção ou mudança de uma parte vai provocar uma perturbação do sistema.

Sub-sistema: são as partes componentes de um sistema, mais pequenas, internas, que interagem entre si e definem o sistema.

Supra-sistema: São os ambientes mais amplos, envolventes, externos, dos quais o sistema faz parte. Estes ambientes interagem com o sistema num processo de trocas (dar e receber)

Estrutura: organização e arranjo das partes componentes quer do suprasistema, sistema e sub-sistema.

Fronteira: cada sistema é rodeado por uma discreta fronteira que o separa dos outros sistemas no ambiente e ajuda a estabelecer a identidade própria do sistema. Não é estanque, ou seja, permite trocas constantes de energia e informação entre o sistema e o seu ambiente. O sistema regula estas trocas estabelecendo o input e output (do e para o ambiente, respectivamente).

Função: propósitos e metas manifestadas pelas actividades necessárias para assegurar a sobrevivência, continuidade e crescimento do sistema.

Grau de Abertura: refere-se à extensão da interacção ou da troca de energia com o ambiente externo. Um sistema aberto é caracterizado como aquele em que existe

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Escola Superior de Enfermagem de Lisboa Enfermagem da Criança e do Jovem uma troca de informação entre os sistemas e o seu ambiente envolvente. Todos os sistemas vivos são abertos.

Input: informação, matéria ou energia que o ambiente fornece ao sistema para processamento.

Output: informação, matéria ou energia que o sistema fornece ao ambiente como resultado do processamento do input – é o comportamento do sistema.

Stressor e stress: stressor é qualquer estímulo que produz stress. Qualquer resposta a um stressor que impede, frustra ou cria obstáculos à manutenção do equilíbrio do sistema. Qualquer exigência que é colocada ao sistema, quer social, desenvolvimento, cultura ou fisiológica e que requer uma resposta.

Ecologia do Desenvolvimento Humano

Microssistema: actividades, papéis ou relações entre o sujeito e o seu ambiente, experienciados ou vivenciados num contexto imediato. Díade: observacional, actividade conjunta, primária.

activamente

Mesossistema: inter-relações entre os contextos em que o indivíduo participa

Exossistema: contexto que não implica a participação activa do sujeito.

concretos

Macrossistema: protótipos gerais, existentes na cultura que afectam ou determinam o complexo de estruturas e actividades que ocorrem nos níveis mais

Transição Ecológica: alteração da posição do indivíduo face a uma modificação no meio ou nos papeis e actividades desenvolvidas pelo sujeito.

Touchpoints: nas sociedades modernas: ausência do suporte familiar e os cuidados de saúde tendencialmente prescritivos.

Pressupostos Parentais

Os pais são peritos nos seus filhos Todos os pais têm força

Todos os pais querem fazer bem aos seus filhos

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Todos os pais têm algo fundamental para partilhar em cada etapa do desenvolvimento

Todos os pais têm sentimentos ambivalentes

A parentalidade é um processo construído por tentativa e erro

Princípios na actuação do enfermeiro:

Reconhecer o que trás para a interacção Procurar oportunidades para apoiar a mestria

Usar o comportamento e a linguagem da criança

Valorizar a desorganização (completar com os apontamentos)

Valorizar e compreender entre si e os pais

Estar disponível para discutir assuntos que vão para além do seu papel tradicional

Focalizar na relação pais/criança (começar por falar com os pais para que a criança perceba que não constituímos uma ameaça)

Valorizar a paixão onde quer que a encontre

Os “Touchpoints”:

Pré-natal: o bebé ideal Recém-nascido: o bebé real

3 Semanas: poço de energia

6 a 8 semanas: o bebé gratificante

4 Meses: olhando para fora

7 Meses: levantado de noite

9 Meses: o dedo espetado

12 Meses: andar

15 Meses: o trepador

18 Meses: rebelde com uma causa

2 Anos: chegando ao não

3 Anos: idade dos “porquês”

6 Anos: o estudante

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Modelo de Sistemas de Neuman Teorias que influenciaram este modelo:

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Modelo de Sistemas de Neuman

Conceitos: Sistema Cliente

Pessoa

Pessoa Saúde

Ambiente Enfermagem Paradigma

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Ambiente

Saúde

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Enfermagem

Estrutura do Modelo

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Linhas de resistência: o Conjunto de círculos quebrados que envolvem a estrutura básica o Contêm factores que apoiam as linhas de defesa o São activas para proteger ou reconstruir o sistema o Um mecanismo protector que tenta estabilizar o sistema cliente e proporcionar um retorno ao bem-estar habitual o Contém factores de recursos internos e externos, conhecidos e desconhecidos que apoiam a estrutura básica do cliente e a linha norma

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Linha normal de defesa o O sistema cliente tem um nível de bem - estar ou equilíbrio habitual o Esta linha representa o que o cliente se tornou ou evoluiu com o passar do tempo o Define a estabilidade e integridade do sistema o Padrão da normalidade e ajuda a determinar qualquer discrepância de bem - estar

Linha flexível de defesa o Forma o limite exterior do sistema cliente o Actua como um sistema mais externo e protector da linha normal de defesa do cliente ou estado de bem – estar do sistema o Previne a invasão do sistema cliente pelo stressor

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Variáveis interactivas

Stress

Situação ou condição capaz de causar instabilidade no sistema pela penetração da Linha Normal de Defesa

A tensão provocada aumenta o potencial ou causa um desequilíbrio ou uma crise/ maturação

Cada factor de stress: o Pode constituir uma ameaça ou corresponder a uma reacção o Pode conter determinadas características que exijam vários níveis de intervenção de enfermagem

Tipos de stressores o Intra – sistémicos: estímulos que ocorrem dentro do sistema o Inter – sistémicos: estímulos que ocorrem entre dois ou mais sistemas o Extra – sistémicos: estímulos que ocorrem fora do sistema

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Reacções do sistema cliente

A reacção aos stressores depende do estado das suas linhas de defesa

As linhas de resistência impedem que os agentes de stress atinjam o core – caso sejam ineficazes a vida do sistema poderá estar comprometida.

A reacção e/ou grau de reacção vai depender da estrutura básica, mecanismos de defesa naturais e aprendidos e do tempo de encontro com o stressor

Reconstituição

O sistema cliente adquire novas e melhores capacidades para lidar e superar as agressões, havendo expansão das linhas de defesa

O sistema cliente foi danificado para além das capacidades das linhas de defesa, resultando em perdas de energia – as linhas de defesa contraem-se

Componentes eessenciais do modelo conceptual de Neuman Postulados

Os factores de stress diferem pelo potencial para perturbar a linha normal de defesa e podem afectar o grau em que cada sistema cliente está apto para usar a sua linha flexivel de defesa contra possível reacção aos stressores

Cada sistema cliente desenvolveu ao longo do tempo um conjunto de respostas, referidas como linha normal de defesa, ou um estado normal de bem-estar/ normalidade. Representa a allteração no tempo verificada com diversos confrontos com stressores. A linha normal de defesa pode ser usada como padrão para medir os desvios de saúde

O sistema cliente é um sistema aberto em constante interacção com o ambiente

Cada sistema cliente é único, mas também tem características comuns a todos

O sistema cliente está sujeito a agentes de stress que podem potencialmente causar um desequilibrio do sistema. Todos os sistemas procuram equilíbrio

Cada cliente tem um conjunto de factores de resistência interna, linhas de resistência, que tentam voltar a estabilizar e ajudar a restabelecer o equilibrio, a voltar ao estado normal de bem-estar ou a um nível mais elevado de estabilidade após a reacção a um stressor ambiental

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Valores

Os enfermeiros têm o dever de procurar o potencial máximo de estabilidade do sistema cliente

Os enfermeiros não podem impor os seus julgamentos ao cliente

O nível da linha normal de defesa não é idêntico para todos os clientes

Elementos do modelo

A origem provável das dificuldades experimentadas pelo cliente relacionam-se com factores de stress e a fragilidade das suas linhas de defesa e resistência.

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Níveis de prevenção, sempre com o objectivo de manter ou recuperar a estabilidade do sistema:

Consequências das intervenções

Aumento da resistência ao stress Diminuição do grau de reacção

Aumento do nível de bem-estar

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Comunicação na Prática de Enfermagem à Criança e Jovem

Sumário 1. Enquadramento: relação enfermeiro - cliente / cuidados centrados na família 2. Técnicas de comunicação com a criança e jovem 3. Comunicação enquanto processo triangular em contexto pediátrico 4. Ambiente terapêutico e comunicação em contexto pediátrico

1. Enquadramento: relação enfermeiro - cliente

Objectivos Conhecer a unidade familiar

Compreender as vivências/reacções aos stressors face à situação de saúdedoença Compreender os modos de lidar/forças/recursos

Identificar necessidades de ajuda/orientação

A relação é o “Contexto” de qualquer intervenção de enfermagem Não existe cuidados sem contexto de relação

“É a relação com o doente que se torna o eixo de cuidados no sentido em que é simultaneamente o meio de conhecer o doente e de compreender o que ele tem, ao mesmo tempo que detém em si próprio um valor terapêutico.” (Colliére, 1999: 152)

A natureza da relação enfermeiro-cliente como facilitadora do processo de saúde – instrumento terapêutico.

Relação interpessoal está subjacente a todo o Cuidado (Ordem dos

Enfermeiros, 2003: 4) “O exercício profissional da enfermagem centra-se na relação interpessoal”

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- É impossível não comunicar (Watzlawick, 1993 – “Pragmática da Comunicação Humana”

Relação de Ajuda como intervenção terapêutica psicológica (Carl Rogers, 1960)

Atitudes de relação de ajuda - Aceitação incondicional

- Consideração positiva

- Empatia

- Autenticidade, congruência

Aptidões para a relação de ajuda - Escuta activa

- Resposta empática

- Assertividade (também competência emocional)

- Personalização (vs generalização) Auto-revelação

A enfermagem (disciplina) tem reflectido e pesquisado sobre como estar numa relação profissional de cuidar

Competências relacionais: - Técnicas de comunicação

- Habilidades emocionais

- Desenvolvimento pessoal (auto-conhecimento) (Chalifour, 1993)

Comunicação Terapêutica ≠ Conversa Social (Riopelle & Phaneuf, 1993)

Técnicas de entrevista

Comunicação centrada no cliente Objectivos terapêuticos

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Bem-estar, adaptação do cliente

Investigação em Enfermagem

Intencionalidade terapêutica: bem-estar, conforto, apoio, alívio do sofrimento do cliente de aprendizagem. Riopelle & Phaneuf (1993): a comunicação com o cliente não constitui necessariamente uma relação de ajuda

Níveis de comunicação em Enfermagem: - Comunicação de cada dia ou funcional

- Comunicação terapêutica ou relação de ajuda

- Comunicação pedagógica ou educação do cliente

Relação de Ajuda FormalRelação de Ajuda Informal

Margot Phaneuf (1995): capacidade de escuta, de respeito, de aceitação e de empatia

Técnicas de Entrevista Escuta activa, Olhar, Distância

Toque, Estimular o discurso, Reformulação

Validação, Repetição, Encorajar

Afirmação-reafirmação, mostrar caminhos Margot Phaneuf (2004)

Principal objectivo da filosofia de Cuidados Centrados na Família: - Envolve a família no processo de cuidados à criança/família

Participação parental: Na identificação de problemas e necessidades

No planeamento e execução dos cuidados de saúde

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Visa: Minimizar os stressores Promover segurança e conforto Papel de suporte na promoção do bem-estar do seu filho

Reconhece a entidade familiar como uma constante na vida da criança pelo que a equipa de saúde deverá apoiar, respeitar, encorajar e potenciar a força e competência da família (Whaley e Wong, 1999)

- Os enfermeiros capacitam a família (capacitar) - Os enfermeiros potencializam as suas capacidades (potencializar)

Na comunicação os enfermeiros têm em conta:

A consciencialização de que os problemas de saúde-doença representam uma situação traumática não apenas para a criança, mas também para toda a família – situação de crise.

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