Os ?atuantes? da territorialidade baiana

Os ?atuantes? da territorialidade baiana

OS “ATUANTES” DA TERRITORIALIDADE BAIANA

O ensejar das discussões sobre o patrimônio na contemporaneidade é bem mais amplo e abrangente do que algumas performances superficiais na Bahia, pautas meramente tecnicistas e usuais que visam por partes de seus personagens apenas o seu reconhecimento, valorização e/ou aceitação. Não é mais admissível inviabilizar a participação e representação de interesses e interessados, uma vez que a exclusão e seus efeitos nefastos configuram-se enquanto temática central em diferentes agendas do desenvolvimento, buscando minimizar impactos sócio-economico-ambientais, face que se mostra presente tanto no contexto rural quanto no urbano, em legiões crescentes de intitulados “os sem nada” (sem terra, sem teto, sem trabalho, sem crachá, sem saúde, sem comida e pior sem “decoro”), a agravante situação torna-se um campo fértil para os conflitos internos e externos, a degradação ambiental e a violência nas suas mais variadas formas.

A ciência museológica na Bahia, infelizmente, aprofunda-se meramente nos estudos e debates técnicos nas áreas das humanas aplicadas. Todavia algumas movimentações surgem, ainda que timidamente, propondo iniciativas de renovação do conhecimento científico e tecnológico na área dos museus e suas localidades, insurgem sobre temas da preservação de bens patrimoniais, portanto educacionais, e vem sendo influenciada desde o final do século passado por um fazer museal extemporâneo, participativo e comunitário. Neste corte na própria “carne” consubstanciamos as ações de valorização dos patrimônios de comunidades populares e acadêmicas integrando organizações locais, seus atores, e diferentes contribuições estabelecendo um capital de confiança baseado em diversas autonomias, considerando os “bens patrimoniais coletivos” como signos de memória e ferramentas de desenvolvimento e sustentabilidade preservacionistas. Este artigo traça uma discussão sobre a perspectiva de novas inserções museológicas no cotidiano de comunidades diversificadas e suas práticas para a consolidação, já tardia, da dignidade humana.

MUSEOLOGIA, MUSEUS, MUSEÓLOGOS E TERRITORIALIDADE

Partindo destes pressupostos como se daria à discussão, orientação e diretrizes de estudos museológicos na esfera local? É relevante a contribuição deste profissional para a hegemonia de uma educação de sensibilização que articule diferentes processos de transmissão, aquisição e aplicação de conhecimentos? Quais tecnologias fomentariam dinâmicas administrativas de preservação de uma economia material e imaterial calcada no bem comum? O que singulariza este campo de conhecimento na gestão social do desenvolvimento educacional das comunidades ao redor dos museus baianos? Estas perguntas desejam calar-se em busca de resoluções menos teóricas, ainda mais que temos em nossa “sala de estar” um departamento de Museologia na Universidade Federal da Bahia-UFBA. Porém sabemos que as “atuações” que contemplam a maioria das “catalogações” museológicas nos museus da Bahia se enrugam em fogueiras de vaidades que nem ora e nem outrora ensaiam educar e incluir as populações menos “culturalizadas” em seus meios.

A instituição museu neste momento de grande efervescência mundial, não pode ser encarada enquanto templo de sacralização, ou de saber de uns poucos ou ainda na mumificação empoeirada de outros tantos, ele deve-se firmar enquanto um dinamizador local, fazendo uso da participação, ou seja, confiança, identidade, responsabilidade e conflito, (pelo aparecimento das diferenças na tomada de decisões coletivas), fortalecendo-se enquanto um multicentro de serviços sócio-culturais ou uma unidade de “negócios” que trabalha com o “eterno no tempo”, uma entidade dialética que verse sobre interesses e necessidades, devendo analisar expectativas de permanente formação, e rigor científico para desenvolver ferramentas tecnológicas de comunicação e educação imbricadas por um ethos comunitário que lhe possibilite direção. O cotidiano das questões locais, principalmente dos países em desenvolvimento, demonstra a força e a necessidade de contextualização de experiências participativas de fortalecimento e enfrentamento a problemas colocados pela globalização, pois eles produzem impactos sobre as realidades, gerando inúmeros problemas aos seus agentes.

O olhar museológico deve contemplar o “lugar do local”, expressão utilizada por Vieira e Vieira (2002) para o recorte territorial, projetando a percepção de “atmosferas” construídas no passado, modernizadas de acordo com os ritmos econômicos e renovados ou não pelos avanços sócio-culturais. Estes aspectos têm por objetivo atuar na base de sustentação do território organizado, levando em consideração os processos demográficos, econômicos e culturais. Tais autores ao citar Fischer (1996), enfatizam que “um sistema de atores articulados pelo cotidiano hierarquizado pelo poder que detém, é uma das muitas delimitações do “local”. O conceito paradigmático de espaço-tempo na (re)definição dos territórios pode ser considerado como um instrumento de análise interdisciplinar interagindo eventos que se desenvolvam nas diferentes dimensões, possibilitando desencadear ações e técnicas de gestão de sistemas informativos apropriados a sustentabilidade de diversos acervos patrimoniais pela ampliação de seu espaço de desempenho. Métodos estes “orquestrados” apenas por uma “sinfonia” de “árias” para uma diminuta “platéia” da população baiana.

DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE DOS PATRIMÔNIOS

Observamos a sensibilização patrimonial enquanto um processo permanente de trabalho educativo centrado na valorização do bem como fonte de reconhecimento e enriquecimento individual e coletivo, que possibilita a percepção do entorno, do contexto, das potencialidades locais e de agentes de um desenvolvimento sustentado em sentimentos, identidade e atitudes sociais. A ferramenta principal é o dialogo individual e coletivo de memórias (re)conhecendo, (re)valorizando e (re)apropriando heranças culturais e ambientais. A temática patrimonial deve ser abordada em todos os níveis e programas da educação formal e informal (pública ou privada) como indulto essencial na (re)construção identitária dos diversos grupos sociais, reconhecido e valorizado enquanto fator de coesão social formador de vínculos entre espaço/vida/território (PRIOSTE, 2004).

O desenvolvimento de uma ação social “in loco” busca direcionar uma produção materializada em diferentes territórios do tangível e do intangível, como o epistemológico (domínio conceitual e transdisciplinaridade); o praxiológico (espaço de práticas); a configuração espaço-temporal; o universo simbólico (cultura e identidade) e o desenvolvimento econômico-social pela consolidação da parceria, cooperação, e inserção. A sustentabilidade (que deveria ser um dos focos dos profissionais museólogos e dos museus) pode ser definida enquanto a satisfação das necessidades do presente sem comprometer o futuro, uma abordagem antropológica que visa além da prudência a expansão do direito de escolha individual e coletiva, um papel mais ativo entre indivíduos, grupos e nações. O princípio do acesso eqüitativo aos bens que integram o ambiente planetário deve satisfazer as carências da maioria dos seus habitantes. A equidade deve orientar a guarda desses bens para as gerações futuras, justamente tais contextos inspiram a gênese do artigo 225 da Constituição Federal Brasileira ao afirmar que “meio ambiente é um bem de uso comum”.

A Museologia esta em construção (esperamos que ela continue sempre assim, pois, “não estamos prontos nunca”, parafraseando uma nobre Professora do curso de Museologia da UFBA) talvez cada um de nós possa colaborar com um pouco de argamassa ou um pequeno tijolo para a sua edificação que esta inacabada, no momento a certeza que temos é que os assuntos preponderantes para as contrapartidas museológicas na atualidade para as sociedades estão mortos-vivos, e isto é um problema. Contudo para este quadro mudar, precisamos da promoção do desenvolvimento via planejamento localizado em fatias de território (sejam eles econômicos, sociais, administrativos, demográficos, educacionais, ambientais e etc.) ou por meio de esforços localizados de uma “onda prescritiva” que chega tanto nas praias da “guerra de lugares” na expressão de Milton Santos quanto aos que comungam os princípios do dom da solidariedade. Lembremos que “as rotas do quotidiano são denunciadores dos múltiplos meandros da vida social que escapam aos itinerários ou caminhos abstratos que algumas teorias sociológicas projetam sobre o social” (PAIS, 2002). Deveríamos, portanto trabalhar com a tecnologia social abarcando inovações técnicas ou artifícios recicláveis que ampliem o intercâmbio com as comunidades ou os criem concebendo soluções mutáveis as melhorias sociais ao utilizar metodologias que perpassam propostas inovadoras de acréscimo ou consolidação das sobrevivências das diversidades e biodiversidades, considerando a participação cidadã no andamento dos trabalhos.

CIÊNCIA COISA BOA PARA ALGUNS

Acreditamos que a Universidade deveria ser o lugar privilegiado na construção do conhecimento e na formação de competências inovadoras, análise as posturas atuais perdidas nas meras transmissões, nas aulas copiadas para ensinar a copiar (DEMO, 2000). A vida acadêmica autêntica é um processo permanente de construção científico com vistas a formas mais competentes de intervenção na realidade unindo teoria e prática. Aumentando a convicção de que o manejo e a produção do conhecimento constituem a mais decisiva oportunidade de desenvolvimento do capital intelectual, enquanto que a sua extensão produtiva emane capacidade de ocupar espaço por via do domínio e da produção do conhecimento para muitos.

Portanto tomemos a Ciência museológica na Bahia e os seus questionamentos sistemáticos enquanto ideologia limitada a uma sagacidade manipulativa, um intento justificador, compromisso político de defesa de posições, sobretudo de privilégios. Enquanto a ciência de fato questiona o real para ser real a ideologia lança mão de qualquer meio, sobretudo da ciência para justificar condições históricas que se deseja manter, ampliar, esconder, conquistar, impor, deturpar (DEMO, 2000). Santos (1997) enfatiza que a forma de relação entre o homem e a natureza ou meio é dada pela técnica, ou seja, um conjunto de meio institucionais e sociais com os quais o homem realiza a sua vida, produz e ao mesmo tempo cria espaço (totalidade/divisão do trabalho/eventos) já Fischer define espaço levando em conta a interdependência e a inseparabilidade entre materialidade, incluindo natureza e seu uso, que, por conseguinte inclui ação humana (trabalho e política), o território é lançado na condição de recurso especifico ator do desenvolvimento. Villasant 1994 declara que

“ (...) La acción colectiva, se ha superado el miedo individual, se há construido un discurso superador y esperanzador, sobre la base de la confianza en lo positivo de las redes locales. Y cuando tal confianza se establece no hay tipología que resista, pois los actores populares no andan com distinciones académicas de hasta deben llegar, plantean sus problemas integralmente (...) “Vemos claramente o elemento cidadania, definido por Teixeira no sentido cívico, enfatizando as dimensões da universalidade, generalidade, igualdade de direitos, responsabilidade e deveres”.

Enfim, a pluralidade de diversos movimentos de cidadania estão mobilizando e corroborando o seu capital simbólico (BOURDIEU, 1987), fortalecendo sinergias e criando políticas públicas que visem a preservação de ambientes. Portanto, a consolidação de processos nos campos da educação e sustentabilidade museológica dizem respeito às diversas camadas empíricas e epistemológicas. Tomemos como mote a Década das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (2005/2014) que sinaliza a necessidade de criação e articulação de tecnologias para a autogestão de grupos sociais, sendo um elemento fundamental das “best pratices” internacionalmente laureadas (FISCHER, 2003). E que, “excepcionalmente”, a grande maioria dos museus e dos profissionais museólogos baianos priorizam apenas o sentido da visão, deixando os legados somente para os “letrados”.

O caso é que a identificação de novos campos e linguagens no âmbito do profissional museólogo materializa o caráter de urgência desta inovação gerencial e tecnológica no momento global. Fazendo nossa a critica radical que Demo tece aos vezos atuais, perdidos nas meras transmissões e aulas “copião”. Enfatizando os objetos destes estudos, recordemos também o pensamento de RUSSIO (1982), que caracteriza a Museologia “por promover sínteses, absorvendo articulações concorrentes entre o homem/sujeito e o objeto/bem cultural, num determinado espaço/cenário do real”. Finalmente depois de algumas considerações sobre o panorama e “atuação” da maioria dos profissionais museólogos na territorialidade baiana, o enunciado: Museologia, museus e museólogos. Burocratas ou hipócritas?

*Cristiano Silva Cardoso e Rita de Cássia Oliveira Pedreira São museólogos, formados pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia. Pesquisadores da Preservação das Diversidades e Biodiversidades no Cotidiano Museológico e suas contrapartidas Sócio-economico-ambientais na busca da valorização dos patrimônios.

<ReferênciasBibliográficas:BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas, São Paulo, Editora Perspectiva, 1987;DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento – Metodologia Cientifica no Caminho de Harbemas. Ed. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro 2000;FISCHER, Tânia. Poderes Locais, Desenvolvimento e Gestão: Introdução a uma Agenda. Marcos Teóricos e Avaliação. (Anais...) Salvador 2003;_________ . (Org.) Cidades Estratégicas e Organizações Locais. FGV Rio de Janeiro 1997;_________ . Espaço Etnicidade y Cultura Associativa en Salvador Bahia in: Las Ciudades Hablan-Identidades y Movimientos Sociales en Seis Metrópolis Latinoamericanas. Tecer Mundo ED. Bogotá, Colômbia 1994;FILHO, Genalto França. Gestão Social Um Conceito em Construção. IX Colóquio Internacional Sobre Poder Local. (Anais...) Salvador, 2003;______ . Terceiro Setor, Economia Social, Economia Popular: Traçando Fronteiras Conceituais. Revista Bahia Analise & Dados, SEI Salvador 2002;PAIS, José Machado. Sociologia da Vida Cotidiana. Ed. Imprensa de Ciências Socias, Lisboa, 2002;PRIOSTE, Odalice. Relatório III Encontro Internacional de Ecomuseus e Museus Comunitários. Jornal O Quarteirão Cultural do Matadouro. Rio de Janeiro, Dez. 2004;RUSSIO, Waldisia. “L´interdisciplinarité en Museologia” MUWOP, nº 2. Ed. Comitê Internacional de Museologia (ICOFOM, Estocolmo), 1981;SANTOS, Laymert Garcia dos. Desregulagens: Educação, Planejamento e Tecnologia Como Ferramenta Social. Ed. Brasiliense, S. Paulo, 1981;SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo Razão e Emoção. 2ª ed. Hucitec São Paulo, 1997;TEIXEIRA, Elenaldo Celso. Sociedade Civil e Participação Cidadã no Poder Local. Serie Estudos UFBA em Campo, Pro -Reitoria de Extensão UFBA, Salvador 2000;VIEIRA, Euripedes F.;VIEIRA, Marcelo M. F. Geoestrategia dos Espaços Econômicos: O Paradigma Espaço Tempo na Gestão de Territórios Globais in: FISCHER, Tânia. (org.) Gestão do Desenvolvimento e Poderes Locais Marcos Teóricos e Avaliação. Ed. Casa da Qualidade Salvador Ba 2002;VILASANT, Tomás R. (coord.) Las Ciudades Hablan -Identidades y Movimientos Sociales en Seis Metrópolis Latinoamericanas Teçer Mundo Ed. Bogotá, Colômbia 1994.

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