Guia de PSF 1

Guia de PSF 1

(Parte 1 de 5)

Guia prático do

Programa Saúde da Família

Que todos sejam saudáveis

Na área social, o Brasil trava uma luta antiga contra a ditadura dos números relativos. Nosso país é tão grande, os problemas sociais aqui são tão vastos que avançamos de maneira extraordinária nos números absolutos, mas não na mesma proporção em números relativos.

Na saúde, por exemplo, o Brasil dos últimos anos já realizou mais que Cuba e Holanda juntas e multiplicadas, em números absolutos. Nosso Programa Saúde da Família dá cobertura, atualmente, a mais de 38 milhões de brasileiros — ou quase quatro vezes a população de Cuba e mais de duas vezes a população da Holanda, dois países respeitados internacionalmente por sua Medicina.

Nos números relativos, entretanto, os nossos 38 milhões significam 23% da população brasileira. Estamos bem distantes dos 100% que recebem cobertura na Holanda e em Cuba.

Longe de nos desanimar, porém, essa comparação deve nos estimular.

De 1994 até 2001, conseguimos levar Atenção Básica a quase um quarto dos brasileiros. Em 2002 deveremos nos aproximar da cobertura para 50 milhões de brasileiros. Quase um terço — ou quase 30% — da população. Persistindo nesse esforço, nos próximos anos alcançaremos 100% de cobertura e teremos vencido a ditadura dos números relativos.

Uma das armas para essa luta é o Guia Prático do PSF, que o Ministério da

Saúde coloca hoje em suas mãos. Pedimos que o leia com atenção e adote a Saúde da Família como estratégia para garantirmos vida saudável para todos os brasileiros.

José Serra

Ministro da Saúde

2Guia Prático do PSF

Onde entra a saúde a doença vai embora04
E a saúde como vai? Tá melhorando, tá ficando boa08
Alguns exemplos12
Compensa implantar o PSF numa cidade?13
Lucas do Rio Verde14
Belém16
Esperança17
Florianópolis19
Campo Grande20
Caruaru21
Pedras de Fogo2
Piraju23
São Gonçalo24
Vitória25
Vitória da Conquista26

Índice:

O agente é a gente (ACS)28
Atenção desde o início da vida (Usuários)34
A força de quem decide (Prefeitos)38
No comando (Secretários Municipais de Saúde)42
Da boca, do corpo, da vida (Odontólogos)46
Auxiliar (Auxiliares de Enfermagem)48
Ocupação plena e qualificada (Enfermeiros)50
Eles cuidam de cada um, eles cuidam de todos (Médicos)52

Depoimentos:

e espacial da organização do programa e sua inserção no SUS)folder
Daqui pra frente tudo vai ser diferente (como aderir ao PSF)56

Equipe do Programa Saúde da Família (uma visão da equipe profissional,

Você deixaria seu filho ser atendido em uma unidade básica de saúde de seu município?58

Por favor, responda sinceramente: Os serviços públicos de saúde merecem confiança?

Principais responsabilidades da Atenção Básica a serem executadas pelas ESF e ESB nas áreas prioritárias da ABS – NOAS 2001

Ações de Saúde da Criança60
Ações de Saúde da Mulher61
Controle da Hipertensão62
Controle da Diabetes Melittus63
Controle da Tuberculose63
Eliminação da Hanseníase64
Ações de Saúde Bucal64
Unidade de Saúde da Família65
Quantas equipes atuam numa USF?6
Quanta pessoas são atendidas pelas ESF?67
Quem são os componentes de uma ESF?67
A Saúde Bucal faz parte da Saúde da Família?68
Como deve ser a atuação da ESB numa USF?69
A implantação do PSF deve começar pela periferia?70
A demanda aumenta no início da implantação?71
Que instalações e equipamentos deve ter a USF?71
Bases das Ações da ESF e ESB73

Pertencentes à comunidade onde atuam, os Agentes

Comunitários de Saúde são capacitados para ajudar a melhorar a qualidade de vida de seus vizinhos

O agente é

O Agente Comunitário de Saúde (ACS) é capacitado para reunir informações de saúde sobre a comunidade onde mora. É um dos moradores daquela rua, daquele bairro, daquela região. Tem bom relacionamento com seus vizinhos. Tem condição de dedicar oito horas por dia ao trabalho de ACS. Orientado pelo médico e pela enfermeira da unidade de saúde, vai de casa em casa e anota tudo o que pode ajudar a saúde da comunidade.

Em sua grande maioria, os agentes são mulheres.

Contamos aqui sobre o trabalho de cinco agentes: Izete, da Ilha do Combu, perto de Belém; Cleison, de Brumadinho,perto de Belo Horizonte; Ivaneide, de Caruaru, Pernambuco; Ana Lúcia, de Pedras de Fogo, na Paraíba, perto de Campina Grande; e Sílvia de Piraju, São Paulo.

a gente

Guia Prático do PSF 29

30Guia Prático do PSF

Ferver a água,usar plantas da região

Izete dos Santos Costa, 37 anos, nasceu, cresceu e sempre viveu na Ilha do Combu, onde é Agente Comunitária de Saúde. Antes (e desde os 9 anos de idade) era empregada doméstica: “Aqui não tem muita opção de emprego”.

O trabalho de Agente Comunitária de Saúde é duro, mas compensador: “São oito horas diárias, umas oito visitas por dia. Mas ganho R$ 204, o dobro do que ganhava em meu emprego anterior”.

Ainda mais compensador, para Izete, é fazer parte de um trabalho que está ajudando a melhorar a vida da sua comunidade: “A assistência à saúde melhorou 100% com a implantação do PSF”.

Como a ilha é cortada por rios e igarapés, as visitas dos cinco agentes em ação na Ilha do Combu têm que ser feitas em pequenas canoas, ou cascos, como se diz na região: “Cada agente tem seu casco e seu remo. Às vezes a maré está agitada, ou passa uma lancha e balança o casco”.

Os principais problemas dos moradores, segundo Izete, são a desnutrição, devido à carência alimentar, e a diarréia, causada pela pouca água potável. Nas visitas, ela ensina a ferver a água, a colocar gotas de água sanitária (hipoclorito) antes de beber: “As casas não têm água encanada, nem esgoto. Os moradores bebem a água do rio”.

Outro problema do Combu é o alto índice de anemia entre as crianças, segundo levantamento feito pelo PSF em parceria com o hospital da Universidade Federal do Pará. Izete conhece bem esse problema: “A alimentação é pobre. Nós orientamos as mães a utilizarem as plantas da região, como a verônica e o cipó”.

Vigilância contínua à saúde

Cleison Morais Pinto, 19 anos, é agente comunitário de saúde em Inhotim, distrito de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. São dois agentes na mesma equipe, ele e Ivone de Jesus. “Somos os caçaenfermos”, brinca Cleison.

Diariamente, os dois visitam em torno de 25 famílias cada um. São responsáveis pelo cadastramento e também pela convocação da população para as campanhas de vacinação, o que é feito nas visitas domiciliares e na colagem de cartazes nos pontos acessíveis, pela entrega de receitas e controle do peso das crianças de até 3 anos.

Os dois trabalham oito horas por dia e recebem

R$ 220,0 por mês, cada. Cleison acha compensador: “Mesmo sendo cansativo, é um trabalho gostoso. É bom ajudar as pessoas. E à noite dou uma esticada na quadra poliesportiva da Prefeitura para encontrar com a turma e jogar futebol”.

Está melhor que antes

Agente Comunitária de Saúde do PSF em Caruaru,

de zero a dois anos, das gestantes, dos idososQuando

Ivaneide da Silva Santos, 31 anos, faz o curso de Técnico em Enfermagem e começou a trabalhar ainda como agente do PACS: “Fazia todo o acompanhamento de crianças, identificava alguma doença, avisava a enfermeira, que ia lá reavaliar e providenciar o atendimento”.

Ivaneide diz que, antes, o mais difícil eram as reclamações de que havia muitas filas e a venda de fichas solicitadas para determinadas consultas e exames: “Muita gente iniciava o tratamento, mas não dava continuidade”.

Ivaneide trabalhava oito horas por dia como agente do

PACS, ganhando um salário mínimo. Mora há onze anos no bairro de Jardim Panorama, periferia de Caruaru, e tem grande proximidade com a maioria das famílias: “Desde o PACS fazia reuniões, palestras, campanhas de vacinação utilizando uma área da casa do meu pai. Acho que isso influiu para atrair as pessoas”.

32Guia Prático do PSF

Falta de segurança, de escola pública e de pavimentação são os principais problemas da comunidade, segundo a agente. Como virtudes, ela aponta a união entre os moradores, bastante atuantes com sua associação de bairro.

Para se tornar uma Agente de Saúde, Ivaneide se submeteu à seleção e passou por um treinamento de dois meses, incluindo a parte prática com acompanhamento dos instrutores nas comunidades. Em fevereiro de 2001, passou a integrar o PSF: “Antes de conhecer o programa, eu tinha noção de que ia ser bem rápido, como está sendo, para marcar as consultas e resolver os problemas”.

Ivaneide continua trabalhando oito horas por dia, mas diz que aumentaram muito a responsabilidade e o compromisso com a comunidade: “Mesmo assim, está melhor que antes, porque tenho mais o que oferecer para as famílias, principalmente para aquelas pessoas que cobram mais atenção, como idosos e gestantes”.

Hoje tenho mais segurança

Ana Lúcia da Silva, 31 anos, é Agente Comunitária de

Saúde do PSF em Pedras de Fogo-PB. Começou a atuar ainda no PACS, em 1995: “Admirava o trabalho dos agentes e, quando surgiu oportunidade, fiz a seleção e passei”.

Ana Lúcia conta que morava na comunidade havia apenas quatro anos, mas já conhecia bem os seus problemas. Desemprego, gravidez na adolescência, baixo índice de amamentação, mortalidade infantil são algumas das dificuldades enfrentadas até hoje, apesar da melhora nesses indicadores de saúde. Como virtudes, ela aponta a participação das famílias nas ações de saúde e a confiança no trabalho dos agentes.

No treinamento como agente, aprendeu a acompanhar crianças, gestantes, incentivar o aleitamento materno, monitorar hipertensos, prestar primeiros socorros, entre outros

Guia Prático do PSF 3

Agentes em ação

A implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) é considerada uma estratégia transitória para o estabelecimento de vínculos entre os serviços de saúde e a população. É estimulada até que seja possível a plena expansão do Programa Saúde da Família (PSF), ao qual os Agentes Comunitários são gradativamente incorporados.

O Agente Comunitário de Saúde é responsável pelo acompanhamento de aproximadamente 150 famílias que vivem no seu território de atuação. Ele é necessariamente um morador da localidade onde trabalha e, por isso, está totalmente identificado com a sua comunidade, com seus valores, seus costumes e sua linguagem. Sua capacidade de liderança se converte em ações que melhoram as condições de vida e de saúde da comunidade. Nas áreas onde o PSF ainda não foi implantado, os Agentes Comunitários estão vinculados às unidades básicas tradicionais e são capacitados e supervisionados por enfermeiros para o desenvolvimento de ações de prevenção de doenças e de promoção da saúde.

O Brasil já tem mais de 140 mil Agentes Comunitários, que estão em ação em mais de 4 mil municípios de todas as regiões do país. Isso significa dizer que quase metade da população brasileira já recebe o acompanhamento dos Agentes.

procedimentos. Integrante do PSF desde 1999, Ana Lúcia diz que sua atuação hoje é mais fácil, porque há mais integração entre médico, enfermeira, auxiliar, enfim, toda a equipe: “Nos tornamos mais próximos das famílias. É como se hoje eles se sentissem mais protegidos”.

Ana Lúcia confessa que tinha receios em relação ao programa, achava que representaria apenas mais trabalho para o agente: “Hoje vejo que o PSF é fundamental na vida da comunidade e na minha vida. Mesmo com todo empenho que precisamos ter, vale a pena”.

A principal mudança, para Ana Lúcia, foi a sensação de tranqüilidade: “Existia em mim um certo medo, da morte de crianças por exemplo. Hoje, tenho mais segurança no resultado do nosso trabalho”. Ana Lúcia participa também de um grupo católico que alia ajuda material a orientações sobre saúde, educação e outras áreas, em comunidades carentes.

Treinamento no dia-a-dia

Sílvia Schmidt Domingues, 42 anos, de Piraju-SP, começou a trabalhar aos 14 anos, como auxiliar de escritório. Mais tarde, foi auxiliar de monitora, numa creche, emprego de 8 horas por dia. Lembra que ganhava “razoavelmente bem”.

Casou-se e parou de trabalhar fora de casa até os 35 anos, quando passou a integrar o PSF, por sugestão do marido, integrante da associação dos amigos do bairro. Como preenchia os requisitos básicos — ser moradora do bairro, ter bom engajamento na sociedade, estar disposta a trabalhar oito horas por dia —, Sílvia se inscreveu, passou por uma entrevista e conseguiu ser contratada.

Depois de admitida, Sílvia recebeu um treinamento, orientada pelas enfermeiras e por toda a equipe do PSF. Ela acredita que o maior treinamento é o do dia-a-dia, quando observa os pacientes e ouve os comentários dos profissionais de saúde.

Caminhando pelas ruas de sua área de trabalho, ela vai apontando as casas e comentando sobre a situação de cada morador: “Um paciente, o seu Almino, quando eu não o visito, aparece na unidade e pergunta: ‘Cadê a Sílvia?’. Ele é hipertenso, tem problema de coração e às vezes esquece de pegar o remédio, atrasa. Daí eu vou atrás”.

Cada paciente é controlado por meio de uma carteirinha: “Tudo é registrado. Quem precisa pegar medicamento, quem é hipertenso, gestante, desnutrido, deficientemental, alcoólatra…” Para Sílvia, o pior numa comunidade são os problemas sociais, porque produzem reflexos em cascata. Com o desemprego, por exemplo, “o chefe de família fica desiludido e começa a beber. Isso repercute em tudo: a mulher se torna hipertensa, a filha se descuida e engravida … uma coisa vai levando a outra”.

Guia Prático do PSF 35

Os pacientes se sentem respeitados nas localidades onde é implantado o PSF. Recebem assistência constante da equipe, gostam de ser tratados como pessoas

Um dos pontos mais fortes do Programa de Saúde da

Família (PSF) é a busca ativa: a equipe vai às casas das pessoas, vê de perto a realidade de cada família, toma providências para evitar as doenças, atua para curar os casos em que a doença já existe, dá orientação para garantir uma vida melhor, com saúde.

Os pacientes notam grande diferença em relação ao tipo de medicina que antes recebiam (quando recebiam). Apresentamos aqui cinco pacientes: a paulista Sônia Maria, de Piraju; a paraense Cleuza, da Ilha do Combu, perto de Belém; a catarinense Maria, de Florianópolis; a matogrossense Conceição, de Lucas do Rio Verde; e a mineira Hilda, de Brumadinho, na região de Belo Horizonte.

Atenção desde o início da vida

36Guia Prático do PSF

Na casa de madeira com apenas um cômodo de aproximadamente 3 por 4 metros, vivem Cleuza, o marido e um casal de filhos de 4 e 2 anos. A alimentação da família se resume, basicamente, à farinha de mandioca e ao açaí, que o marido colhe e vende em Belém.

As visitas dos agentes comunitários de saúde já começaram a mudar a rotina da casa. “A gente não deixa mais o lixo espalhado pelo quintal. E trata a água que bebe”, diz Cleuza.

A coisa mudou,graças a Deus

Maria Cardoso Vargas, 56 anos, é mãe de Evaldo, 27 anos, o único de seus seis filhos que continua morando com ela: dos outros cinco, um morreu e quatro são casados.

Evaldo fazia bicos como carregador de caminhões, em Florianópolis. Fazia ponto num trevo da BR-101. Ali foi atropelado, sofreu traumatismo crânio-encefálico, ficou internado durante um ano e três meses. Quando recebeu alta, não conseguia andar, falar, nem se alimentar direito.

Para cuidar de Evaldo, Maria teve que abandonar o emprego de servente em uma empresa que prestava serviço de manutenção na Escola Técnica Federal, onde ganhava R$ 180,0 por mês: “Quando ele chegou do hospital, na primeira semana, foi um sufoco. Eu não tinha nenhum treinamento para dar banho ou fazer curativos”.

Então, Maria entrou em contato com a Equipe de

Saúde da Família em seu bairro: “Depois que falei com o pessoal do posto, a coisa mudou muito, graças a Deus. O médico vem aqui uma vez por mês. A Amália vinha todo dia, no começo, agora vem três vezes por semana. Temos tratamento, curativos e remédios”.

Amália, que Maria cita nomilamente, é a auxiliar de enfermagem Amália Rosane Oliveira da Silveira, do PSF em Florianópolis. Maria tem consciência de que o PSF tem sido decisivo na melhora verificada em seu filho. Ele precisou sofrer uma traqueostomia (abertura de oríficio na traquéia, na garganta), tinha dificuldade de se alimentar e, segundo o médico, só voltaria a falar quando o orifício fechasse.

A dedicação da equipe do PSF abreviou a recuperação de Evaldo, segundo Maria: “Ele começou a aceitar a alimen-

Senti confiança na hora

Sônia Maria Nascimento Santos, 34 anos, é mãe de

Rafael, recém-nascido. Não trabalha fora de casa. O marido é torneiro mecânico. Mora em Piraju-SP há 10 anos. Gosta do bairro onde vive. Acha que falta campo de trabalho e moradias mais dignas: “Às vezes, duas famílias moram numa casa só”.

Sônia vem recebendo atenções do PSF desde que ficou grávida. Diz que a principal mudança na sua vida, depois do PSF, é o relacionamento com o médico: “Antigamente, o médico não dava atenção, fazia tudo rapidinho para ir embora. Agora eles até fazem consulta em casa, quando a gente não pode ir à unidade. A pessoa se sente mais valorizada”.

(Parte 1 de 5)

Comentários