Artigo Atenuação de Uso correto e incorreto de Protetores Auriculares

Artigo Atenuação de Uso correto e incorreto de Protetores Auriculares

(Parte 1 de 3)

Adriana Avaglianol Kátia de Almeida2

Introdução: o ruído ocupacional é acausa mais comum de exposição prejudicial à audição e, potencialmente, pode ser controlado pormeio de medidaspreventivas administrativas ede engenharia . Objetivo: estudarodesempenho de diferentes modelos de protetores auditivos, da forma como sãousados pelos funcionários : corretaou incorretamente. Métodos: foram avaliados 63 funcionários divididos em 6grupos,conformeomodelo de protetor auditivo utilizado (duasconchas, dois plugues pré-moldados edois plugues moldáveis) . Todosforamsubmetidos a audiometria tonalem campo(250 a6.0 Hz)elimiar de reconhecimento de fala sem e com protetor. Este era colocado pelo própriofuncionário, sendoobservado se estava posicionado corretamente ou não. Resultados: quando usados corretamente, todosos protetores provocaram uma mudança significativa nos limiares de audi- bilidade. Quando usados incorretamente, essa mudança foi quase inexistente. As maiores alterações nos limiares de audibilidade ocorreram nas altas freqüências (3.0, 4.0 e 6.0 Hz), sendo o protetor Alugue moldável (deespuma de poliuretanomodelo E) aquele que provocou as maiores alterações nos limiares de audibilidade. Conclusões: os modelosde protetores testa-

dosdesempenharam bemafunção de proteção,quando usados corretamente.O melhor modelo foi oprotetor plugue moldável . Não foi observada uma relação direta entre a maior atenuação proposta provocar a maior mudança no limiar tonal.

Descritores: audição/fisiologia ; limiar auditivo; dispositivos de proteção dos ouvidos; audiometria ; ruído ocupacional; saúde ocupacional .

0ruído sempre foiecontinua sendo um fatorde grande preocupação devido aosdanos queprovocaà audição. No passado, os altos níveis de ruído se encontravam, principalmente, nas indústrias. Hoje, devido ao desenvolvimento industrial e tecnológico sempre crescente, o ruído se encontra nos mais diversos ambientes ocupados pelo hornern: no lazer, na rua, entre outros.

Sendooruídoocupacional acausa mais comum de exposição prejudicial, deveriasercontrolado pormedidasde engenharia e administrativas. Quando isso nãoépossível,o protetor auditivo se apresenta como um dosmétodos mais comuns e práticos para reduzir a dose de ruído.

Os protetores auditivos, quando utilizados de formacuidadosa esupervisionada, podemprevenir significativamente a ocorrência de perdas auditivas.A efetividade do protetor dependeda escolha, do treinamento quanto ao uso edos cuida- doscomo mesmo. A principalvariável quanto àefetividade do protetor auditivo continua a mesma -o usuário, ecomo ele coloca e usa o protetor.0l

Éum achado invariável queodesempenho real dos protetores auditivos ésignificativamente menordo queaestimada peloslaboratórios. Isso porque no mundoreal os vazamentos aéreos predominam devido ao protetor não estaradaptado ou ajustado corretamente . Algumas causas que comprometem o desempenho dos protetores auditivos são: o conforto oferecido pelo protetor, a formacomo o protetor é utilizado, a adaptação do protetor na orelha, a compatibilidade com o

'Trabalho realizado no CEFAC - Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica eno CEDIAU -Centro de Estudos em Distúrbios da Audição. 'Fonoaudióloga do Curso de Especialização em Audiologia Clínica do CEFAC. =Profa. Dra. Fonoaudióloga Docente do CEFACedo CEDIAU.

usuário e com outros equipamentos de proteção, reajus- tes, a deterioração do protetor, modificações feitas no protetor pelo usuário e a remoção freqüente do protetor pelo usuário.

O desempenho acústico do protetor auditivo envolve não apenas as características fisicas do protetor e sua rela- çãocom o ouvido, mas também as limitações anatómicas e fisiológicas do usuário.M

Aescolha do protetor auditivo deve ser feita a partir de um trabalho individual, no qual sejam considerados aspec- tos de atenuação inerentes ao protetor (qualidade), caracte rísticas pessoais do usuário (tamanho do meato acústico externo, formato do rosto eda cabeça, compatibilidade com outros equipamentos de proteção individual (EM), tipo de atividade, utilização adequada, preferências)e nível de ruído no qual ooperário trabalha . Dessa forma, o protetor auditivo deve deixar de serescolhido pela empresa de forma indis- criminada, e passar a ser escolhido considerando o usuário obedecendo a aspectos técnicos. Os protetores auditivos possuem características que devem ser consideradas no momento da sua seleção e escolha, sendo elas a atenuação oferecida, oconforto, otamanhodo protetor, afacilidade de colocação, a compatibilidade com o usuário e com outros equipamentos e a preferência pessoal do usuário.(3)

Na maioria das situações industriais, conforto e dura-

bilidade são fatores mais importantes do que um ganho de poucos decibéis a mais de atenuação, considerando-se que a atenuação alcançada já é razoável. Desta forma, alguns fatores devem serconsiderados pois podemocasionar problemas na utilização dos protetores auditivos.(4' Dentre eles: higiene, desconforto, efeitos na comunicação verbal, efeitos na localização direcional e segurança .

O efeito de oclusão é muito citado como algo incômodo pelos usuários de protetores auditivos, pois distorcem sua própria voz.'' 1 Amagnitude do efeito de oclusão depen de de como o protetor é colocado. Oefeito é maiorquando o meato é ocluído na sua entrada e menor na medida em que o plugue é inserido mais profundamente ou com con- chas que tenham um volume maior. Os principais tipos de protetores auditivos são:

1. Concha ou abafadores: consistem em duas conchas de material plástico rígido que selam o redordo pavilhão auricularusando espuma ou almofada preenchi da com líquido e são fixadas no local com um arco plástico ou metálico .

2. Plugues ou de inserção: adaptados no meato acústi- co. Podem ser: pré-moldados - disponíveis em tamanhos padrões a fim de se adaptar ao meato acústico das diversas pessoas podendo ser feitos de materiais flexíveis como vinil, silicone etc.; moldáveis - modela- dos pelo usuáriono meato acústico, podendo ser feitos de algodão, silicone, espuma etc. ; moldados - fei- tos individualmente para cada usuário, geralmente de silicone.

3. Semi-aural ou de semi-inserção: adaptados na entra- da do meato acústico presos por um arco.

4. Capacetes: quando os protetores tipo concha preci- sam ser usados juntamente com capacetes, os mes- mos podem ser presos aos capacetes.

Todo protetor atenua o ruído criando uma barreira para reduzir o som que chega por via aérea à membrana timpânica. O nível de proteção obtido depende do grau de vedação do protetor, de forma que qualquer vazamento permite que o som passe pelo protetor.(5)

Existe uma diferença entre os dados de laboratório e o mundo real que se explica pelo fato de ser muito diferente a atenuação que se obtém de um indivíduotestando o pro tetor num laboratório, tendo sido bem treinado para usálo, em ambiente tranqüilo e limpo, sem suores, poeira e calor, usando um protetor durante poucos minutos e fre- qüentemente sendo bem pago para isso, da atenuação que um operário obtém do mesmo protetor no "mundo real" do seu trabalho.(3) Freqüentemente os operários recebem como atenuação 50% do valor indicado pelo fabricante. Umaforma de avaliar a efetividade do protetor é medir a alteração temporária do limiar. Adiferença entreos limiares auditivos obtidos no início eno fim dajornada de traba lho, tendo o operário utilizado como de rotina sua forma de proteção, indica que esta não está sendo eficiente nas reais condições de trabalho.(3)

Além da atenuação, também é necessário saber o quanto há de variação oferecida pelo protetor de um indivíduo para outro, mesmo quando um protetor é bem adapta do . Os protetores podem seravaliados quanto à sua aplica- bilidade pela comparação dosdesvios padrões(em dB) das atenuações para cada freqüência . Os desvios padrõesincluem componentes devido às variações no desempenho audiométrico de cada indivíduo de um exame para outro. No entanto, na comparação entre protetores, as maiores diferenças nos desvios padrões são atribuídas às dificulda- desinerentesem ocluir completamentetodos os tamanhos e formas de meato acústico . No caso dos plugues prémoldados, isso é, particularmentedificil quando há apenas poucos tamanhos disponíveis.(6) Na prática, sabemos e observamos que, apesar do for- necimento do protetor auditivo pela empresa e do "uso" dele pelo funcionário, ocorremnovos casos de perdas audi tivas induzida por ruído (PAR) ou agravamento de perdas auditivasjá existentes .

A partir daí, surgiu o questionamento quanto à forma como esses protetores vêm sendo usados, bem como quanto à sua eficiência. Se teoricamente os funcionários usam o protetor constantemente, como poderiam estar ocorrendo novos casos de PAIR? É claro que o uso do protetor não sig- nifica que o mesmo esteja sendo usado de forma adequada

Diferentes tipos de protetores auditivos ou esteja bem adaptado. Nestes casos com certeza a proteção fornecida fica abaixo do proposto e do esperado .

Assim sendo, este trabalho teve como objetivo estudar o desempenho de diferentes modelos de protetores auditi- vos utilizado bem como verificar a alteração nos limiares de audibilidade quando usados correta ou incorretamente .

Neste estudo foram avaliados 63 indivíduos que forma- ram seis grupos com 13 indivíduos (C I, G 1, C311, C N, C V e C VI). Cada grupo testou um modelo diferente de prote tor auditivo (modelos A, B, C, D, E e F), sendo que alguns indivíduos integraram mais de um grupo por terem testado dois ou mais protetores diferentes. O C 1 testou o modelo A, o C 1 testou o modelo B e assim sucessivamente .

Dos funcionários avaliados, 18 (28,5%) eram do sexo feminino e 45 (71,54x) do sexo masculino, com idades entre

18 e 50 anos. 0 critério utilizado para seleção dos indivíduos foi a inspeção do meato acústico externo, tendo sido sele- cionados apenas aqueles funcionários sem cerume ou corpo estranho no meato acústico externo. Foram eliminados do estudo aqueles indivíduos com passado otológico ou alterações de orelha média.

A avaliação foi feita em ambiente clínico, tendo sido realizada em cabina acústica, calibrada segundo norma ANSI

S3.1 Inicialmente, foi realizada uma ar arnnese simples segui- da da inspeção do meato acústico externo. Em seguida, foi realizada a audiometria tonal por via aérea e via óssea (nos casos necessários) e pesquisado o limiar de reconhecimento de fala (Speech Recognition Threshold-limiar de reconheci- mento da fala) obedecendo aos critérios propostos por!~~ Logo após, o funcionário foi submetido a audiometria tonal em campo (250 a 6.0 Hz) e SRT sem protetor. 0 protetor auditivo era então colocado na orelha pelo próprio fun cionário, sendo observado se a colocação do protetor estava correta ou não e outra audiometria era feita. Quando, visual- mente, o protetor estava posicionado de forma incorreta (um flange para fora, haste para trás etc.), a examinadora reposicionava o protetor de maneira adequada e fazia uma nova audiometria. Dessa forma, em alguns casos, o funcio- nário fez duas audiometrias - uma com o protetor colocado de forma incorreta e outra de forma correta.

Para análise dos resultados, o valor da mudança do limiar auditivo foi considerado como sendo a diferença en- tre os limiares sete e com o protetor. As mudanças de limia res encontradas, quando significativas, foram relacionadas com as atenuações sugeridas pelo certificado de aprovação do protetor auditivo fornecido pelo fabricante.

*American National Standards Institute. Maximum permissible ambient noise for audiometric testing ANSI S3. 1, 1991 . New York: American National Standards Institute, 1991 .

Para análise dos dados foi usada metodologia estatísti- ca . As medidas dos limiares de audibilidade, limiares de reconhecimento da fala e atenuações foram analisadas por testes não-paramétricos.

As medidas obtidas sem e com protetor auditivo em cada freqüência testada, os valores dos limiares de audibilidade e de reconhecimento de fala obtidos com a colocação incorreta e correta dos protetores auditivos foram comparados pela prova de Wilcoxon .

Os equipamentos utilizados neste estudo foram o audiõ- metro da SD 25 (Siemens) calibrado de acordo com os padrões exigidos pela norma ISSO 8253-1 ; seis tipos de proteto res diferentes, os quais foram fornecidos a cada funcionário pela examinadora no momento do teste: dois modelos tipo concha (um com arco tensor constituída de duas hastes metá- licas - modelo A; um com arco tensor sem componentes metálicos - modelo B); dois modelos de inserção pré-moldados tamanho único (um de sifcone - modelo C; um de plástico - modelo D) e dois modelos de inserção moldável tamanho único (um de espuma de poliuretano de formato cônico - modelo E; um de espuma de PVC de formato cilíndrico - modelo F).

r RESULTADOS

Apresentaremos os resultados encontrados nas audiometrias em campo livre sem e com os protetores auditivos, bem como com o seu uso correto e incorreto.

No grupo I (Tabela 1), observamos que embora o prote- tor A, visualmente, tenha sido colocado corretamente (haste por cima da cabeça) por todos os funcionários, encontra mos as menores alterações nos limiares de audibilidade nos indivíduos 7 e 8. Talvez isso possa ser explicado pelo fato de a haste ter componentes metálicos para dar maior ou menor tensão ao arco quando ajustado. 0 que pode ter ocorrido é que o arco não estivesse com tensão suficiente para dar a atenuação desejada.

Devemos considerar ainda que existem variações individuais quanto ao tamanho de cabeça, das orelhas e às características anatõmicas, o que pode dificultar a adapta ção dos protetores, comprometendo assim a atenuação oferecida por eles.(1,3)

No grupo 1 (Tabela 2), visualmente, o protetor B também foi colocado corretamente (haste por cima da cabeça) por todos os funcionários, tendo sido observada uma con siderável mudança nos limiares de audibilidade em todos os funcionários. Não houve variações quanto à tensão do arco pois este modelo de protetor não possui componen- tes metálicos, o que dificulta o seu alargamento.

No grupo 1, observamos que embora o protetor fosse de fácil colocação, quase 5% dos funcionários testados usaram o protetor de forma incorreta (com um flange para fora do conduto), o que diminuiu muito a proteção ofereci-

Tabela 1. Limiares de audibilidade (:(f3) obtidos em campo livre sem e com protetores auditivos (visualmente colocados i cxr~ I,iiiU°iiI(,? [eu Ii(,cjü(,ti( I,I IIlih nr~viii¡ui I IN I i1 I)ri~lil~~i Ilvn

Iii ,\ limiares por freqüência (de)

Tabela 2. Limiares de audibilidade (dB) obtidos em campo livre sem e com protetores auditivos (visualmente colocado~ corretamente) por frerlüência {Hzl no ,grupo I lN - 1 3'1 - proWN)r mnde11) 13

Limiares por freqüência (de) indivíduos Sem 250 com Sem 500 Com Sem

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Com Sem 3.0

Com Sem 4.0

Com Sem 6.0

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